Eucaliptazo

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Sinceramente, não queria escrever esse texto. Na verdade, queria sim. Mas queria, ainda mais, que a história fosse outra. Relatar aqui a partida que o Riograndense jogou contra o Brasil de Pelotas é de doer o coração. O time de melhor campanha da Divisão de Acesso, de uma hora pra outra, tornou-se irreconhecível. Foram 90 minutos de inoperância, de vácuo técnico e tático. Ontem, quando menos podia acontecer, infelizmente, deu tudo errado.

O Riograndense voltou de Pelotas LOCO de vivo. 3 a 2 foi um placar que deixou o Periquito muito dentro do jogo. E a partida disputada no Bento Freitas, assim como todas durante o campeonato, tapava qualquer um de esperança. Nos Eucaliptos, bastava uma vitória simples. 1 a 0 era o suficiente. Em todos os jogos, o Riograndense marcou pelo menos um gol. Por que domingo seria diferente? Fácil.

Um dos pontos fortes do Riograndense ao longo da Divisão de Acesso foi o meio campo. É o setor que dá consistência para qualquer time, o enganche entre a zaga e o ataque.  E o Periquito esteve e está muito bem servido de meio-campistas. Claro, desde que joguem os melhores. E não foi o que o técnico Círio Quadros resolveu fazer no jogo de ontem. O Riograndense tem dois meias muito qualificados e que foram os destaques do time até agora: Gustavinho e Júlio Abu. Enquanto Gustavinho é o cara que distribui o jogo, o clássico camisa 10, Júlio Abu é o que mete a correria, que entorta o raciocínio dos volantes e da zaga, sempre com muita qualidade.

Quando saiu a escalação, quem tem o mínimo de noção futebolística viu que tinha uma grande chance de algo dar errado. Círio Quadro, JENIALMENTE,  sacou Julio Abu do time e o uruguaio Foletti entrou na equipe. Dizem que Foletti é meia de origem, mas, até hoje, só vi ele jogando de atacante. E ontem, sinceramente, não sei em que posição ele jogou. No fundo, ninguém sabe em que posição jogou. O Riograndense estava perdido em campo.  A posse de bola, a criatividade, a inteligência tática e a vontade em campo sempre foram características marcantes desse time, mas, ontem, tudo isso sucumbiu. Dessas qualidades, a que mais apareceu foi a vontade. E até por ali também.

No primeiro tempo, o Riograndense não chutou uma bola em gol. A única chance foi um pênalti desperdiçado por Tiago Duarte. Dizer que o Tiago desperdiçou é ser amigo dele. Foi uma cobrança terrível, displicente. Quem estava no estádio teve a impressão que a bola tinha sido apenas recuada para o goleiro Luiz Müller, foi algo inacreditável. A chance de garantir uma vaga na final ficou nos pés de Tiago Duarte, vindo do São Luiz de Ijuí como excelente reforço, mas que, até agora, pouco correspondeu.

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Desde o início da partida, o Brasil foi superior. Por vezes, não em número de jogadas, mas sim nos resultados das iniciativas. O Riograndense ciscou, ciscou, mas não arrumou nada. Com Gustavinho, único meia do time, sobrecarregado e muito bem marcado, o Periquito não trabalhou a bola com convicção e qualidade em lance algum. Era sempre no abafa, na base do desespero, sem calma e consciência do que se estava fazendo. Depois do pênalti perdido, o time todo acusou o golpe. Parecia que o gramado dos Eucaliptos era de areia movediça. A aflição que sobrou nos jogadores, faltou no técnico Círio Quadros. Cada técnico tem o seu estilo, mas uma coisa é fato: não se faz futebol apenas com razão. Muito pelo contrário. Em mata-mata, um discurso inflamado, uma palavra mais forte, pode se definir muita coisa.

Na volta do intervalo, Círio viu que a opção feita no início da partida estava longe de ser certa. Tirou Tiago Duarte do time e botou o meia Julio Abu. Abu deu movimentação e intensidade para a equipe. Gustavinho passou a trabalhar mais, mas, mesmo assim, as oportunidades não surgiram. Foram apenas duas chances nos 45 minutos finais. O time do Brasil de Pelotas é gigante. Em uma hora dessas, inevitavelmente, a camisa pesa, e peso da do Brasil é assustador. A equipe se postou em campo com uma frieza invejável. O técnico Rogério Zimmermann, com o resultado embaixo do braço, montou o time para esperar o Riograndense e jogar o contra-golpe e, em diversas jogadas, o propósito foi atendido. A dupla de ataque xavante, Alex Amado e Éder Machado, trabalha com facilidade, entrosamento e muita qualidade.

A partida brochou espiritualmente qualquer torcedor. Durante 90 minutos, quem estava presente nos Eucaliptos deve ter se levantado da arquibancada, no máximo, umas três vezes. O time que chamava a atenção até do mais desinteressado pela qualidade, ontem, não apareceu em campo. A vaga, que parecia tão próxima, se distanciou. O Riograndense continua como time de melhor campanha e, sim, tem um time muito qualificado. Pode, claro, conseguir um lugar na elite. Tudo é possível. Depois de ontem, principalmente.

Sempre chuleando um cocho na série A,

Bernardo Zamperetti

***

FICHA TÉCNICA

RIOGRANDENSE: Yai; Márcio Nunes, Lucas (Dangelo) e Rangel; Ânderson, Cassel, Jeferson Mikimba (Wilson), Gustavinho e Foletti; Tiago Duarte (Júlio Abu) e Fábio Alemão. Técnico: Círio Quadros

BRASIL-PEL: Luiz Muller; Wender, Cirilo, Fernando Cardozo e Rafael Foster; Leandro Leite, Washington, Marcio Hahn (Ricardo Schneider) e Cleiton (Maicon Sapucaia); Alex Amado (Marcio Jonathan) e Eder Machado. Técnico: Rogério Zimermann

Arbitragem: Márcio Chagas da Silva, auxiliado por Lúcio Beiersdorf Flor e João Lúcio Monteiro de Souza Júnior

Cartões amarelos: Márcio Nunes, Lucas, Rangel, Gustavinho e Dângelo (Riograndense); Cirilo e Washington (Brasil-PEL)

Cartão vermelho: Dângelo (Riograndense)

Publicado em Brasil de Pelotas, Divisão de Acesso 2013, Riograndense-SM com as tags , , , , , . ligação permanente.

5 Respostas a Eucaliptazo

  1. Vinícius diz:

    Até que enfim alguém cornetiou o Círio. Foi bizarro. Tentou surpreender o Brasil, sei lá. Só sei que não deu certo e não tinha como dar. Foletti de meio-campo deixa confuso até o torcedor mais turista que foi ao estádio pela primeira vez no ano. E, claro, tinham vários neste domingo. A entrada do Mikimba desestruturou o meio-campo. Não que ele seja um mau jogador, longe disso, até parece ser bom. O caso é que Cassel vinha jogando de segundo volante e recuou. Gustavinho foi ser ala-esquerda, deixando pra Foletti armar. Foletti armar… Não há Dangelo que salve no segundo tempo. A tática com alas bem avançados dá certo no Riograndense. Mas quando se tem um meia que distribua alguma coisa. Tiago Duarte precisa urgentemente pegar um banco, não jogou nada até agora. Pra mim é centroavante, só tem um pouco mais de técnica que o Alemão. Dois centroavantes nunca vai dar certo. Não está tudo errado, mas o mata-mata foi terrível para o Riograndense.

    Vamos simplificar? Cassel segue de segundo volante, MIchel ou Wilson entram no meio pra substituir Gudi. Gustavinho joga como Gustavinho, eleito três vezes o melhor em campo. Julio Abu não fica sentado enquanto seus companheiros jogam. Foletti é atacante e Anderson não é ponta. Tiago Duarte não bate pênaltis e farda a camisa 18. Assim o Riograndense pode subir.

  2. Passei só para comentar o lindo trapo com a sigla “A.C.A.B.” (All Cops Are Bastards)

  3. Gabriel diz:

    #1 Totalmente de acordo com o que tu escreveste. Círio só pode ter enlouquecido pra escalar o time daquele jeito!

  4. juliano diz:

    VIRAM EM OUTROS CANAIS AS DECLARAÇÕES DOS JOGADORES? CHEIRO DE RETALIAÇÃO COM A DIREÇÃO

  5. Ivan diz:

    Nos demais jogos, não sei, mas já em Pelotas o Riograndense/SM nada apresentou. “Achou” dois gols. E só. Ficou os 90min recuado, um ferrolhão de dar inveja ao maior dos retranqueiros. Foi com o propósito de não deixar jogar, ao invés de jogar.

    Culpa do técnico? Discurso fácil. Círio Quadros é um bom profissional. No início do campeonato poucos acreditavam que chegaria onde chegou. E se chegou onde chegou, muito é devido ao trabalho deste treinador.

    Acho que a resposta mais próxima da realidade pode ser encontrada olhando-se para as arquibancadas e constatando o grande número de torcedores com camiseta do Grêmio Portoalegrense. E depois ainda querem que os jogadores dêem o máximo de si, que façam juras de amor ao clube. Tá bem.

    Abs.

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