De que índio Xavante estamos falando?

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Fiquei espantado com os boatos de que o Grêmio Esportivo Brasil, clube do qual sou sócio e que recebe meu apoio incondicional e exclusivo há 20 anos, já estava com “a festa preparada” para celebrar o acesso à série A do campeonato gaúcho do ano que vem. Deu no que deu.

badico2Verdade ou não, é ULTRAJANTE só o fato de existir essa conversa por aí! Por um simples motivo: cara, somos o time dos Negrinhos da Estação, da massa, da gurizada que viajava de CHARRETE para acompanhar o clube. Torcida que invadiu estádios pelo RS, que invadiu o gramado do rival após virada histórica e foi chamado de Xavante como algo pejorativo, transformando depois o xingamento em símbolo. Que lutou bravamente contra o time da capital e foi acusado de doping, mas que em seguida esbravejou AH EU TÔ DOPADO para todo mundo ouvir.

Marcola

O Brasil – diz sempre o meu pai, Adair Krüger – ganhou muito clássico enfrentando o Pelotas com times melhores, com jogadores conhecidos do futebol nacional. E o time da Baixada com a gurizada da base, do bairro, que dava o sangue dentro de campo, conseguia vencer a partida e comemorava na tela ou com a torcida quando esta invadia o campo. Somos, graças a eles, o maior vencedor do clássico. Isso é Brasil.

Somos o time que recebeu os jogadores no aeroporto cantando NÃO É MOLE NÃO, EU SOU XAVANTE E ANDO DE AVIÃO.   Por que tudo isso? Não é óbvio?

Tchê, nossa origem é humilde e nossa força vem do grito, da periferia, do tambor vermelho, da Baixada lotada. Enfim, e isso resume tudo, porque somos Xavantes! O Brasil, em hipótese alguma, deve agir de maneira tão arrogante, tão INCOMPATÍVEL com a história do clube. Somos a torcida que faz festa na base da alegria, do carnaval e da cachaça. Nada de camisetinhas prontas ou papel picado num palco montado às pressas.

Campeão Gaúcho Série B 2004

Como bem escreveu algum jornalista da capital que me foge o nome agora (ns), na década de 90:

  “É difícil definir a torcida do Brasil de Pelotas. O espetáculo por ela patrocinado, a cada jogo de seu time, é impressionante. A começar pela multidão que vai ao estádio. Segue pela sua alegria. É contagiante. Pulam durante toda tarde. Fazem festa. Extravasam alegria. De um jeito ultrabrasileiro. Dançando, cantando, pulando. A bateria show é fantástica. Tem 50 componentes, aproximadamente, traz consigo todos os instrumentos normais de uma bateria de escola de samba, mais instrumentos de sopro.
A torcida Xavante é, sem dúvida, um fenômeno social. Merece um apurado estudo antropológico. É gente da gente. É povo. Trabalhadores humildes, sofridos, vítimas das barbaridades sociais de nosso País. Na maioria são negros. Bebem um monte. O consumo de cachaça no estádio é enorme. O futebol, para eles, é lazer. O único, talvez. Afinal, neste País de desigualdades, lazer é privilégio de poucos.
Fiquei extasiado com o que vi, domingo, no Bento Freitas. Vibrei com aquela gente. Senti a alegria de todos pela vitória do Brasil sobre o Grêmio. Falei com muitos. Fui assediado por eles. Queriam chegar perto de nós. Muitos maltrapilhos. Alguns desdentados. Outros embriagados, dizendo coisas sem nexo. No meio da alegria geral não faltaram reclamações. Uma professora chegou junto à nossa cabine e se identificou ao Rui Ostermann. Lembrou seu salário humilhante.
Lembrou a briga do magistério em busca de salário dignos. Mas a senhora professora falou, também, em futebol. Ela estava enrolada em um pano vermelho, identificando seu amor pelo Brasil de Pelotas. É assim a torcida do Brasil. É assim o futebol. Feito de povo, de alma, de amor”.

Obs.: Este texto está longe de ser uma crítica aos jogadores, pois considero bom o trabalho de Zimmermann e o elenco é forte o suficiente para sair da série A-2. Estarei na Baixada no segundo turno, com certeza.

Imagens encontradas em ColecionadorXavante.com e de autores desconhecidos.

“Dopado de paixão”,
Pedro Henrique Costa Krüger | @pedrohckruger

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3 Respostas a De que índio Xavante estamos falando?

  1. Enrique diz:

    Belissimo texto,amigo.Essa é a mais pura verdade o que tu descrevestes nesse texto.E hoje,com chuva ou com sol estarei na baixado.VAMO RUBRO-NEGRO!

  2. Aroldo Garcia diz:

    O G.E. Brasil tem sua origem nas massas. Nós torcedores xavantes devemos ter orgulho da história de resistência do nosso clube, de seus feitos e de nossa apaixonada torcida. No entanto, arrogância é algo que não nos deveria pertencer, pois lutamos tantas vezes de modo adverso e demos nossa resposta na raça e na vontade, não na ostentação.

  3. Marlene diz:

    Belo texto, a Massa Xavante continua sendo de gente humilde, a diferença é que hoje fica mais fácil de se organizaremm e uns ajudam aos outros, quem não pode ir aos jogos, por compromissos, ajuda quem pode ir mas não tem dinheiro e assim vai, estão unidas peloa mesma paixão.

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