O Estrangeiro

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Tudo deveria ter ocorrido na quarta-feira à noite. Em dia e horário de trabalho para ele. Mas não aconteceu. Saiu de casa duas horas antes, sempre foi muito prevenido. Sabe!? Daqueles que cozinha já lavando a louça por saber que depois de comer não terá ânimo para enfrentar a pia. A caminho da estação lhe pareceram bastante saborosas algumas bergamotas expostas em meio ao concreto da cidade, ainda mais com o céu aberto e o sol firme que a tarde ostentava. Trocou três medidas de moeda por um pacote e seguiu para a minhoca de metal que o levaria até seu destino.

Entre algumas canções, a estação fatal. Já no perímetro da cidade começou a mendigar informações sobre a cancha adversária. A priori, tinha mais ou menos ideia de onde estava e para onde queria ir. No entanto, experiências passadas indicavam que seria bom confirmar algumas coordenadas e logradouros. Lembremos sempre que ele era precavido. Abordou sem distinção de idade, gênero ou classe social. Em duas consultas interpelou pessoas que não eram do local e, portanto, não puderam ajudá-lo muito. Por instantes o homem com o saco de bergamotas chegou a duvidar das suas escolhas: duas pessoas que não moram aqui! E pior, uma delas estava a caminho de um velório. O que seria indelicadamente trágico, caso seu interlocutor não tivesse emprestado um tom leve ao compromisso fúnebre. Na terceira tentativa, sucesso. Orientado, subiu até o batalhão, na sinaleira entrou à direita e foi sair às portas de um cemitério. A essa altura, depois do velório e agora fitando a arquitetura fúnebre, já pensava em Albert Camus e no seu Sr. Meursault, personagem que narra o enterro de sua mãe, mesmo sem compreender o evento para além da razão e dos transtornos que tudo aquilo lhe causara. Dali à esquerda, mais alguns passos e um conjunto de longínquos e altos refletores destacaram-se na paisagem.

Na reta final só conseguia pensar em como poderia livrar-se das bergamotas que não havia comido no trajeto trem-estádio. A preocupação aumentou quando ao se aproximar da frente da cancha observou a reclamação de alguns torcedores locais, pela impossibilidade de ingressar no campo com suas cadeiras de praia. Só pensava que se não deixaram entrar com cadeiras esses simpáticos senhores, mesmo que contrariados pronunciassem todos os impropérios possíveis, o que diriam de suas frutas. Adquiriu a entrada, abandonou a decisão de distribuir bergamias na entrada do campo e tentou o ingresso com fruta e tudo. A passagem pela polícia foi rápida e com as bergamotas, mas o instante não o impediu de pensar: eles vão achar que vou atirar tangerinas nos jogadores, que farei de frutas armas contra más atuações. Nada disso foi pensado, dito ou feito.

Foi informando que não havia lugar separado para os apoiadores dos visitantes. Apesar de vestir a camisa adversária, recolheu informações com os homens da terra e concluiu que tudo estava bem. Nos certames que passam ao largo dos milhões, o ludopédio é vivido de outra forma, em cores vivas e clima amistoso.

Começou o jogo e ele já notava os olhares curiosos em sua direção. Será a camisa que veste? A sacola que exalava odor típico repousada no cimento da arquibancada? Ou por ser o único apoiador identificado como não local? Talvez um pouco de tudo. Logo nos primeiros movimentos ele já concluíra que seu time continuava verde-vermelho-branco, mas as cores eram bem menos vívidas do que outrora. Os azuis impunham um domínio territorial inapelável. Ele até contou os adversários, vai que tivessem entrado na relva com mais gente do que trata a regra. Tudo certo, eles estavam mais bem distribuídos, mas também eram onze. Aos poucos a pressão dos da terra diminuiu e, exceto pelas pelotas alçadas para a área, os locais não construíam o suficiente para marcar. De outra parte, seu time parecia apenas esperar a caneta para assinar a igualdade. E assim foram corridos pra mais de quarenta e cinco minutos pornográficos.

No intervalo ele foi interpelando por outro cidadão. Entre uma bergamota e outra pululavam os assuntos, dos quais, talvez, mereça destaque a história e os cuidados com a cancha, as distâncias do Rio Grande e uma visita a Caibaté.

Nem bem foram juntadas as cascas e todos voltaram para a etapa final. Novamente os movimentos iniciais não eram claros e tampouco contundentes. A peleja estava movimentada, mas não indicativa um desfecho grandioso até que os locais tiveram dois homens excluídos num intervalo de cinco minutos. Cercado por apoiadores terra, ele não comemorou, antes, limitou-se a sorrir timidamente. Finalmente os azuis pareciam ter a mesma quantidade de jogadores, com menos dois na cancha. Mas não foi apenas isso. A inferioridade numérica fez com que uma atuação trivial ganhasse contornos heroicos para o time da casa e a essa altura ele já reclamava de seu time, que errava passes excessivamente. Aproveitando uma dessas trocas de passes incompletas, um jogador local adentrou na área e, mesmo observando com pouca profundidade, parece ter forçado a queda na área maior. Penal. Gol.

Em vantagem no escore e inferiorizado numericamente, o quadro da terra se fechou e o time dele não foi capaz de criar, nem ao menos ameaçar. Com direito a confusão no final, quando um jogador visitante abandonou a casamata para aplicar uma gravata no homem de preto e ser ameaçado com voz de prisão, o jogo ficou mesmo com um tento a zero para os azuis.

Há quem diga que no futebol três são os desfechos possíveis: vitória, empate e derrota. Também existe quem viva apenas de triunfo, triunfo e triunfo. Os primeiros são os lógicos, os segundos compõem uma massa disforme e virulenta que perambula pelo mundo sem digeri-lo. E ele só queria testemunhar seu time em campo mais vezes. Não pensemos que tenha gostado do desfecho, mas estar lá foi mais importante. Mesmo sem crer em fronteiras artificiais, dessas que separam, gosta de falar sobre sua terra e pensa que todos os viventes possuem e carregam suas próprias fronteiras para todos os cantos.

Saludos,

El Viejo Balejos

(A foto é do autor)

Publicado em Aimoré, Divisão de Acesso 2013, Santo Ângelo, Série A2 2013 com as tags , , , , , , , , , , . ligação permanente.

4 Respostas a O Estrangeiro

  1. Franco Garibaldi diz:

    Saudade dos textos do EVB por aqui :D
    Belo relato, Viejo!

  2. Balejos diz:

    Pô, valeu Franco! Seguimos!

  3. Alisson Giaretta diz:

    Caralho, que obra!

  4. Dornelles diz:

    verdade… o balejos sempre é uma leitura de prima.
    ainda espero um texto sobre uma vitória (ontem, por exemplo, teve contornos épicos…), pra não cairmos no velho “coitadismo conformado” santoangelense.

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