Cem anos que mais pareceram trinta e seis

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Caxias do Sul, junho de 1977. Enquanto o mundo se aboletava nas salas de cinema para ver um jovem se REFESTELAR nas pistas aos sábados à noite – e se borrava com aquele assustador  vilão de respiração mecânica sob máscara preta (que anos mais tarde viria de BRINDE na compra de duas latas de Nescau); enquanto o planeta se preparava pra perder Elvis Presley e Charlie Chaplin em questão de meses e que, em alguns dias, o DJIBOUTI alcançaria sua independência (ns), nascia um guri que sequer sabia que ainda seria papo na vida.

batalhacampalNaquele mesmo primeiro dia do mês, uma quarta à noite, mais uma edição do novo clássico da cidade seria disputada. Mesmo que se jogasse por um cacho de UVA NIÁGARA (aquele CaJu não decidiria nada, pois ambos já estavam classificados e toda emoção do Costelão’77 se daria no decagonal final – bons tempos…), isso não impediu que a ROSCA fechasse lindamente entre jogadores, dirigentes, funcionários e quem mais estivesse dentro da cancha na finaleira. Aírton Bernardoni apitou e o Juventude, treinado por Daltro Menezes, fechou a conta em um a zero, gol de Plein, seu primeiro pelo clube.  Justamente na primeira vitória do Ju sobre o Caxias no Alfredo Jaconi, após o final daquela bizarra fusão de anos antes. Um belo sinal praquele piá que ainda devia estar berrando de fome atrás da teta materna no quarto 202 do Hospital Fátima.

sede1A partir daí começava a ligação desse piazote com o Juventude que, à época, já beirava os 64 anos de fundação (e menos de três de reabertura de seu departamento de futebol, após o fim da ACF).  E a criação desse vínculo não se deu de forma fácil. Nascido num lar onde o futebol estava longe de ser uma prioridade, onde não havia o costume de ir ao campo e sequer acompanhar o noticiário, a brecha se abriu através da hoje – e infelizmente – finada sede campestre do Ju (que contava até com um KARTÓDROMO), localizada lá pros lados da Randon. Ia de ônibus, com a mãe, pra se esbaldar nas piscinas, praticamente todos os dias durante aqueles verões.

Dentro de campo, aquele final dos anos 70, início dos 80, eram de reestruturação do clube. Com um estádio novíssimo, fruto da reforma ocorrida entre 72 e 75, dentro de campo o clube seguia sua evolução.  Após o bicampeonato da Copa Governador em 75/76, o título do interior em 1977 lhe garantia a vaga no Brasileirão do mesmo ano, fato inédito até então para o Juventude.  E o início da década do THRASH METAL (ou da música eletrônica, vá lá…) não poderia ser mais alentador para o alviverde, que deixava Caxias pra se aventurar numa excursão inédita de um clube gaúcho ao oriente, que durou 38 dias, passou por nove países, com seis vitórias em seis jogos, em todos comandado por Felipão, então treinador do sub-20, que assumiu a barca diante de problemas de saúde de Daltro que o impediram de viajar.

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Aquela década seguiu boa para o Juventude.  O guri aquele até tentou a sorte nas escolinhas do clube, lá nos campinhos da sede campestre, mas já se respirava os ares da década na qual se dava mais importância aos malabarismos com a bola (vide 82) do que aos coices decisivos, de forma que sua carreira acabou abreviada mais cedo do que imaginava.

valeuju89Para o Ju, participações dignas no campeonato gaúcho, além da oportunidade de seguir jogando as competições nacionais, em especial em 1989, quando QUASE subiu pra primeira divisão, sem patrocínio forte nem nada ainda, deixando escapar a vaga nas semifinais, nos pênaltis, em pleno Jaconi, contra o São José paulista (que subiu junto com o Bragantino), deixando aquele gosto amargo de quero mais na boca de quem sequer esperava tanto.  Entretanto, mesmo que durante esse período aquele guri dos primeiros parágrafos ainda não acompanhasse o noticiário do clube, o final dos anos 80 representaram um panorama completamente novo em sua vida: em 1988, sua família se muda pra capital em razão do trabalho dos pais. Justamente na época em que o piá começava a se interessar por futebol e há poucos anos de uma guinada nos rumos do clube.

gauchao90simaoOs anos 90 vieram e, com eles, a primeira vez do fedelho – ao menos da que ele tem gravado na retina – no Alfredo Jaconi. Penúltima rodada do quadrangular final do Costelão’90. Duplas CaJu e GreNal se enfrentando em turno e returno. Para o Ju, não foi um grande final de campeonato, mas aquele 3 a 3 com o Grêmio nunca me saiu da cabeça. 25 de julho, frio de RENGUEAR cusco. Lembro de usar uma touca ninja preta emprestada pelos meus primos, que me levaram ao jogo. E de flashes do que vi em campo naquela noite, como o de Pichetti fazendo dois gols rapidinho, nos primeiros minutos da etapa complementar, e Simão, aos 45, pulando mais alto que a zaga gremista e arrancando o empate após o 0 a 3 do primeiro tempo, que ENCHARCARAM o chope do tricolor que já comemorava o título antecipado.

Essa última década do século XX, que já consolidava o Juventude como maior força do interior gaudério, ainda testemunharia a parceria com a Parmalat, um verdadeiro presente de 80 anos que catapultaria o clube a um novo patamar, mesmo que os valores aportados no Jaconi fossem, embora excelentes para um clube do interior, bastante modestos em relação aos grandes clubes já estabelecidos no país. Na cabeça daquele adolescente guri de 1977, a última lembrança, um tanto quanto turva, desse período pré-parceria: um jogo contra o Inter, no Beira-Rio, válido pelo Gauchão (que aí já não recorda se de 91 ou 92). Um 0 a 0 pegado, com direito a estar “infiltrado” na torcida vermelha com uma camiseta de algodão da mesma cor que os de casa, para extravasar sua emoção em lances de perigo do Ju, berrar contra a zaga colorada, tudo pra não dar na vista…  no final, gol deles – Célio Silva, de falta – e saída rápida do estádio antes do fim, ao mesmo tempo que a papada que se encontrava nas superiores, pra evitar qualquer problema fora do estádio.

trofeu-serie-bA partir dali, muita coisa mudou. Além do aporte financeiro, a chegada de jogadores de algum nome para se juntarem à base já forte do Ju (e tem jornalista que ainda hoje acha ‘estranha’ essa força da base, alimentando clubes da capital e ainda montando times para encará-los nas competições das categorias…), tudo visando chegar logo à primeira divisão nacional.  Que veio logo, ainda em 1994, e, pra felicidade do gurizão, no alto de seus, 17 anos, com transmissão dos jogos da fase final, contra Americano de Campos e Goiás, pela TV2 Guaíba e narração de Rogério Amaral. Juventude, mais uma vez, fazendo história e sendo o primeiro clube do interior gaúcho a ser campeão nacional.

gauchao98Com a cada vez maior evidência do Juventude, seja em nível regional ou nacional, aliada ao advento da rede MUNDIAL de computadores, ainda capenga, via conexão discada, mas ainda assim um POTENTO em termos de revolução na comunicação, as coisas foram aos poucos sendo facilitadas para um papo longe de sua terra natal.  Acompanhar o Ju já não era tarefa tão complicada, pois mesmo que poucos jogos fossem transmitidos em rede aberta, só o fato de estar numa primeira divisão nacional já rendia cobertura, mesmo que de canto, da própria mídia esportiva de Porto Alegre. Ainda mais com o título do Costelão’98 conquistado de forma INVICTA, em pleno Beira-Rio (desta vez, já sem Célio Silva) e da Copa do Brasil de 1999, calando mais de cem mil vozes naquele que um dia já foi o maior do mundo e que hoje já não existe mais.

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Eram tempos maravilhosos para um juventudista. A conquista do Gauchão, que tantas vezes bateu na trave, assim como a improvável mas justíssima conquista do Brasil no ano seguinte faziam crer aquilo era só o começo.  Disputar a Libertadores do ano 2000, outro marco na história do futebol daqui para um interiorano.  Mas então o tempo de bonança começou a minguar. Ainda que belas campanhas tenham sido feitas na elite nacional, cada vez mais elas cobravam seu preço.  O futebol aumentou seu ritmo rumo a se tornar um espetáculo para quem tem pilas de sobra (independente de sua origem). E, para o Ju, como não é diferente para todos os clubes pequenos e médios que ousam se meter nesse filão, cambaleou, lutou contra, mas não foi páreo para a realidade.

Em 2007, aquele adolescente de até bem pouco já era um homem. Já tinha casado e recém era pai de uma menina.  Quis o destino que, trinta anos depois daquele gol do Plein, o guri voltasse ao seu chão.  A tempo de acompanhar na cancha os últimos momentos do Ju na primeira. Com a recém constituída família ainda no hotel, enquanto não se instalava devidamente na cidade, e novamente em julho, novamente num frio de renguear cusco, com vento e chuvisco, acompanhou o 1 a 1 contra o Náutico que já prenunciava o pior que se arrastou até novembro, na derrota para o Fluminense no Rio, e culminando em dezembro, na despedida da elite contra o Sport, uma vitória estéril, que pôde acompanhar das cabines da Rádio Caxias.

Ju_rebaixadoPode-se afirmar que seu sentimento de torcedor aflorou ainda mais nessa junção de circunstâncias: volta à cidade natal, proximidade com o estádio, a chance de poder viver o que não viveu nos trinta anos anteriores, nessa espécie de FEITIÇO DE ÁQUILA que foi sua relação com o Juventude, já que quando viveu em Caxias, não tinha acesso ao clube e ao futebol por (falta de) influência familiar e, já maior, com acesso ao noticiário esportivo, estava longe da cidade e do Jaconi de forma habitual e costumeira.

Não que o destino tenha sido bondoso com esse reencontro. Desde então, mesmo que na aldeia ainda mantenha sua força e demarque seu território, em âmbito nacional a derrocada foi cruel demais com esse senhor beirando o centenário.  Se pudesse apagar da memória – e da história do Juventude -, certamente nosso personagem deletaria o período compreendido entre 2008 e 2010. Mas estes anos infelizmente existiram, empurraram o clube para o degrau mais baixo de sua história, o que culminou com perda de prestígio, exposição e, pior, de patrimônio, com a venda da sede campestre a fim de custear seu LIFESTYLE irreal mantido desde o começo do novo século.

2011 veio e, com ele, o retorno do piá/guri/adolescente/homem/pai (agora de dois) para Porto Alegre. Curiosamente, agora a batida na trave tem sido pra cima, com a conquista do bicampeonato da Copa  FGF de nome RANDÔMICO em 2011/2012 (tal qual em 75/76), assim como os quase retornos para a série C nos mesmos anos.  Já em 2013, há DIAS deste senhor clube completar seus 100 anos, tudo o que esse torcedor – desde esse que faz bate-e-volta entre Caxias e Porto Alegre, passando pelo que está ainda mais longe do Jaconi e especialmente aquele que, faça chuva ou sol, dia ou noite, frio ou calor, não arreda pé das cercanias da Rua Hércules Galló – mais quer é que o Juventude siga vivo, se fortalecendo ainda mais e que seu pensamento de que “esse ano vai”  se concretize. Se não for nesse ano, no próximo. E assim vai. Afinal de contas, é o verde ESPERANÇA que listra o branco de sua camisa que mantém a papada confiante no futuro, esperando que, tal qual uma FÊNIX (seria esse emblema meramente uma coincidência?), o Juventude reconquiste o lugar que é seu. Seja pela história, pela tradição, por justiça. E, se para isso, for necessário que aquele pirralho do começo do texto esteja longe – embora sempre perto -, que assim seja.

Contando tua história em poucas linhas, do jeito que vi, te desejando um baita aniversário neste sábado (29/06) e desejando que muitas alegrias tu ainda possa nos dar (mas te seguindo sempre, independente disso),

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(fotos obtidas junto ao DNA do Tempo do E.C. Juventude, Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Caxias do Sul – Jornal Pioneiro e Folha de Hoje -, arquivo pessoal e em pesquisa livre na rede) 

P.S.: a quem se pergunta se o penúltimo jogador da fileira de baixo na foto do topo do texto é ‘aquele’ Juarez, a resposta é… com certeza. O Ju foi o único clube da curtíssima carreira do caxiense Celso Roth como jogador. E, além dele, ao menos mais dois treinadores na mesma foto: Valmir Louruz e Édson Gaúcho, 3º e 4º da fileira superior, respectivamente.

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17 Respostas a Cem anos que mais pareceram trinta e seis

  1. Luhcas diz:

    Belo texto!

    Parabéns pra todos nós JUVENTUDISTAS LOUCOS!!!

    Esse clube não merece estar onde está!!!!

    VAMO PAPO!!!!!

  2. Gladir Azambuja diz:

    É lendo textos como esse que entendemos as razões de um clube de interior, contra todo o processo excludente que marca a gestão do esporte no “país do futebol”, chegar à marca de 100 anos. Só um paixão relatada em palavras como as do Franco pode traduzir a coragem de quem resolveu enfrentar a obviedade enfiada goela abaixo nesse estado polarizado em azul e vermelho. Parabéns e que o interior um dia desperte para seu verdadeiro potencial!

  3. Juliano Moraes diz:

    Juventude… tuas cores são meu sangue, teu escudo minha alma, teu estádio minha casa.
    Dói muito te ver ferido assim…
    Sempre ao teu lado eu nunca te abandono…

    Grande texto…Parabéns

  4. Daniel diz:

    sem comentários … Pena que eu não vivi,esses momentos do JUVE

  5. ROMULO BALBINOTTI diz:

    Parabéns, Franco.

    História que só quem viveu algo parecido pode saber exatamente o que significa o Juventude em nossas vidas.

  6. Patrola diz:

    Tu também foi nos 3×3, safado. So que eu fui nos ônibus do Warrior… Bom texto. Quiçá pudesse escrever algo assim, irmão. Abraço!

  7. Jabba diz:

    Sensacional o texto Franco. Não sou juventudista, mas tenho simpatia pelo clube e pela torcida.
    Na verdade admiro muito a todos que conseguem manter essa paixão pelos times do interior, que estão morrendo a míngua infelizmente.

  8. PAPO DOIDO diz:

    baita texto
    FELICITAÇÕES AO NOSSO JUVE

  9. Gustavo diz:

    Dizem que o primeiro jogo do Juventude foi contra uma equipe da minha cidade, o Serrano, de Carlos Barbosa – na época, distrito de Garibaldi. O clube Serrano ainda existe, mas o departamento de futebol está inativo há mais de 15 anos.

  10. Rodrigo diz:

    Pô, há menos de 10 anos eu lembro que para qualquer time da séria A era um inferno jogar no Alfredo Jaconi no brasileirão…

    Times legais foram ficando pelo caminho e despencando divisões enquanto a gente via/vê grêmios itinerantes chegando à primeirona.

    Força aí na lama que é a série D, que subam logo.

    abs

  11. Franco Garibaldi diz:

    Valeu a todos pela leitura e pelas palavras, pessoal!

    #9 Gustavo, é o que registra a história mesmo, primeiro jogo da história contra o Serrano barbosense. Legal saber que ele segue ativo, ao menos como clube.

    #10 Rodrigo, o que mais quero de presente do Ju esse ano é o acesso pra C. Um passo de cada vez, pé no chão. Só assim pra sair dessa.

  12. Francisco Michielin Filho diz:

    Parabéns Franco pelo belíssimo texto. Parabéns ao nosso JUVENTUDE pelos 100 anos de lutas e glórias.

  13. Javier Iturria diz:

    Buenas a los inchas de la Papada.
    Soy incha del gran Nacional de Montevideo y hoy fue testemunã de la gran fiesta de los 100 años de Juventude. Congratulaciones a todos los inchas alviverdes. Ustedes son bravios guerreros e tienem un recoñocido club en las Americas.
    Vengo hacerles una sugerencia a que pongam una faxia en los juegos del club, asi como la nuestra:
    Juventude – no hay manicomio para tanta loucura.
    Perdon por mi portunhol.
    Felicitaciones desde Uruguay

  14. Muito bom, Franco, parabéns! Belo e emocionado relato. Mesmo sem jamais ter tido a chance até hoje de ir a Caxias do Sul, quanto mais de ir ao Jaconi ou sequer assistir um Ca-Ju no estádio, espero que o Juventude volte aos seus melhores dias, como aqueles do inesquecível fim dos anos 90.

  15. baldasso diz:

    Saí de Sergipe pra acompanhar essa semana e principalmente data tão especial com o Juve querido. Grande festa com a gurizada!

    Quanto ao texto: muito bom. Pude acompanhar desde 1993 e ainda seguimos apoiando na medida do possível (e impossível, é o JUVE, carajo).

    esse ano estamos no caminho para o acesso!

    CEM ANOS DE LOUCURA E PAIXÃO!

  16. Pingback: Um novo tempo, apesar dos perigos | Toda Cancha

  17. ADAO NILSO VIEIRA diz:

    Franco!
    Fantástico texto, nós juventudistas agradecemos a você por esses relatos históricos!

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