O interior resiste: uma paixão construída tijolo por tijolo

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Mesmo com as relações sociais cada vez mais mercantilizadas – em qualquer área de atuação humana – acredito na importância de se valorizar os que têm uma energia inequívoca e resistem ao habitual. Fazem de chuteiras troféus e transformam gritos de guerra em oração. Acredito num tipo de força que só vem das massas. É um rojão que estoura, um batuque que incendeia, um grito em forma de coro para defender sua crença. Uma esperança renovada a cada momento, de conquistas quase impossíveis, assim como é a nossa própria batalha do dia a dia.

Um sentimento singular, que, aos domingos, encontra o coletivo e, mesmo quando todos se tornam cientes da discrepância financeira, da má distribuição de renda que atinge até mesmo o futebol, não transforma-se em desânimo. Ao contrário, torna-se resistente. Faz dessa afronta financeira motivo para a criação de gritos de guerra. Motivo para defender a sua própria condição e mudar o seu destino. Para tornar-se vencedor e ser verdadeiramente campeão.

Acredito também na perseverança, no brio e na garra de toda gente humilde e batalhadora que desce a rua Princesa Isabel com o coração explodindo de alegria. Esse povo não está indo ver uma partida de futebol, se dirige à sua verdadeira casa. Um templo sagrado para os religiosos, um campo de batalha para os guerreiros, uma escola de vida para todos nós.

Nossa casa conhecemos muito bem. Não é tão grande como aquelas que mostram na TV, não é tão bonita e nem ostenta tantas “taças” como a maioria das mansões que sediam grandes eventos, mas, pelo menos, fomos nós mesmos que a construímos, tijolo por tijolo, degrau por degrau. Lá é possível se deparar com histórias impressionantes. Não só dos feitos de um time do interior e suas conquistas, mas de seus co-arquitetos, aqueles que construíram os cômodos de sua própria morada e, por isso, exigem respeito dos visitantes. É o Brasil de Pelotas, equipe que venceu a Seleção Uruguaia, campeã mundial na década de 1950; que chegou a terceira posição do Campeonato Nacional, em 1985, e que tem, em cada rosto desconhecido, rubro de emoção e negro de sua gente, uma história de vida surpreendente.

Na Baixada, no caldeirão, na nossa casa, já entramos em polvorosa, mas também ficamos em silêncio. Já brigamos por amor e sofremos pela perda. Já xingamos de raiva e calamos por respeito. Já nos sentimos envergonhados pelo vexame e orgulhosos pelo exemplo. Já mandamos alguém embora, mas choramos quando partiram. Já saímos irritados, prometemos nunca mais voltar, mas estamos sempre lá. Porque é naquele espaço que encontramos o nosso melhor.

Somos Xavantes, não temos nada para provar a ninguém e perpetuamos esse sentimento geração por geração. Não estamos buscando as “taças” do vizinho, nem nos preocupamos com os ornamentos que cada um utiliza para enfeitar a sua casa. Estamos ali porque a cada gol saímos vitoriosos e, a cada vitória, sabemos que atingimos o nosso objetivo. É na derrota que mostramos como somos grandes e na vitória que experimentamos onde podemos e, com certeza, iremos chegar. Mais uma vez juntos, tijolo por tijolo, degrau por degrau…

Por Eduardo Silveira de Menezes*

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*Jornalista, mestre em Ciências da Comunicação pela UNISINOS e, acima de tudo, apaixonado pelo Grêmio Esportivo Brasil.

(A foto é do Carlos Insaurriaga)

Publicado em Brasil de Pelotas, Divisão de Acesso 2013, Série A2 2013, Toda Cancha com as tags , , , , , , , , . ligação permanente.

7 Respostas a O interior resiste: uma paixão construída tijolo por tijolo

  1. Ricardo Pereira diz:

    Parabéns Eduardo, baita texto.

    Ser Xavante é viver constantemente apaixonado por esse clube espetacular, por essa gente determinada, que têm na garra e na emoção as suas maiores virtudes. Estamos sempre prontos para luar pelo nosso amado Rubro Negro. Está no nosso DNA, é como diz no nosso hino, ” O nosso sangue a nossa raça”. Temos muito orgulho sim da nossa casa, das nossas conquistas, da nossa trajetória. Somos um exército rubro negro, sempre mobilizado e forte por natureza. Temos na nossa gente a nossa maior riqueza, e por sabermos tudo isso, é que somos felizes, é que somos fortes, e, sermos Xavantes nos basta, nos enche de orgulho, e nos transmite uma emoção única. Salve o Xavante, O Campeão voltou….

    Ricardo Pereira 100% Xavante

  2. Ivan diz:

    Parabéns Eduardo, baita texto.

    Somos bem assim. Pobres, porém limpinhos.
    Não nos vendemos, não nos prostituímos.
    Os fins não justificam os meios.
    Somos assim, um povo resistente, provocador, insinuante.
    A nós não basta assistir, temos que participar.
    Somos, em resumo, uma torcida que tem um time.

  3. Stefany Beltrão de Castro diz:

    Parabéns por esse lindo texto. Só quem realmente é xavante consegue retratar com palavras, as emoções e sentimentos que vivemos nessa nossa casa: o Bento Freitas.

  4. Marlene Dorneles diz:

    Parabéns Eduardo, Ricardo e Ivan,Tijolo por tijolo, passo a passo, talvez por isso esse sentimento está tão enraizado dentro de nós Xavantes, uma paixão que não se explica só se admite; SOMOS XAVANTES e basta.

  5. Carlos diz:

    Isso é uma verdadeira Carta de Amor…
    Saudações RubroNegras..

  6. Luis Fernando diz:

    Grande Eduardo !!!

  7. Nilvio Benitez Severo diz:

    Eduardo Menezes, cumprimentos pelo sentimento do teu belo texto. Realmente é isso que divulgaste, somos alegres, felizes, isto somente VENDO o BRASIL jogar, independentemente do resultado. É claro que quando ganhamos a felicidade não cabe dentro de um coração sofredor, ela é extravasada através de gestos,gritos, carinhos e abraços. É o vulcão de amor e paixão pelo rubro-negro, que está sempre em erupção e que nunca apaga em nosso interior de torcedor.
    Saudações a todos
    Guardião

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