A volta da esperança

A notícia, não exatamente inesperada porém certamente não divulgada antes da hora, explodiu como uma bomba em Lajeado: Flávio Campos, como já era pretendido há muito tempo pela torcida e, aparentemente, também pela imprensa e grande parte do próprio clube, não é mais o treinador do Lajeadense. Não satisfeita em salvar nossa semana, a direção do Alviazul chutou o balde RELLENO com nossos corações e ainda contratou para a cadeira vaga Ben Hur Pereira, um grande gente boa que, além disso, ainda é um tremendo TREINEIRO, como já provou diversas vezes nos últimos anos, inclusive no próprio Lajeadense de 2010 a 2012. Ainda há motivos para sonhar.

De longe, não dá pra saber exatamente o que aconteceu. Porém, analisando o que veio à tona, a coisa toda foi, com certeza, mais rápida do que um pique do Léo Franco: na segunda-feira à noite, o presidente Mario Dutra entrou no ar em veículos da região, como a Rádio Independente e, pelo que ouvi falar, também na TV Univates, com um ar meio MISTERIOSO. Entre suas falas, frases que diziam que o time precisava de algum fato novo para reoxigená-lo após a derrota por 3×0 contra o Botafogo em Ribeirão Preto, que haveria uma reunião pela manhã para decidir o que seria feito, que ninguém – nem a comissão técnica – estava garantido, entre outros PORMENORES.

Daí, começaram os PIPOCOS. Nos mesmos veículos, principalmente a rádio, que está dentro do clube diariamente, imediatamente entendeu-se que Flávio Campos estava fora, e foi-se ainda mais longe apostando que o retorno de Ben Hur estava próximo. Nada disso estava claro, porém, mas já era o suficiente para DORMIR EM PAZ simplesmente com a possibilidade de que isso realmente acontecesse.

Na terça pela manhã, então, fui acordado com um telefonema às dez da madrugada (grande abraço, Angelo Afonso!) que trazia a BOA NOVA: a viagem toda havia se tornado realidade. Embora imaginássemos, nós, os forasteiros do dia a dia dos vestiários, que Ben Hur havia já renovado com o Aimoré (o que foi noticiado nos últimos dias), aparentemente isso não havia acontecido CONCRETAMENTE. Além disso, o clube índio estaria com problemas pelo fato de receber apenas meia cota de televisionamento em 2014, o que implica em uma certa readequação no planejamento e redução de custos, o que apenas NATÃO O CAPILEZÃO pode confirmar na caixa de comentários desse belo post.

De qualquer forma, a história era que o treinador neo-hamburguense (por que diabos esse gentílico genial não é oficializado?) estava de volta ao Vale do Taquari. Inegavelmente uma bela forma de se iniciar um dia chuvoso, destinado a só trazer tristeza ao cotidiano e que, instantaneamente, tornou-se o melhor dia dos últimos meses.

14819036Flávio assumiu o Lajeadense após DESERÇÃO de Picoli (E), que abandonou o barco pra pegar o Caxias na Série C

Mas, você que não acompanha o Lajeadense, me pergunta – ou não, pois não tenho como saber já que isso não é uma videoconferência – “por que demitir o treinador que levou o clube ao vice-campeonato gaúcho?”. É, claro, uma pergunta justa, mas que não faz sentido. Foi o suficiente para justificar a permanência de Flávio Campos após o fim do certame regional, mas para por aí.

Nada pessoal contra o eterno capitão do Juventude. No trato com torcida e imprensa, pelo menos, sempre foi correto e educado, inclusive instituindo uma preocupação maior com o profissionalismo no clube, acabando com o que me foi definido uma vez como “casa da mãe Joana em que qualquer um tem acesso a tudo do vestiário”. Acabar com isso, evidentemente, é errado a partir do meu ponto de vista de torcedor, porém, pensando pelo lado profissional da coisa, fazia sentido e inclusive foi saudado. Mas aí mesmo começou a derrocada, desde o primeiro dia de trabalho. Distanciando-se da torcida, no primeiro revés já eram vários os que queriam a sua saída, e, quando amadurecia a ideia, ninguém fez força alguma para salvá-lo. Mas isso é apenas uma curiosidade, claro, que não fez nem cócegas na situação toda – porém, achei um bom momento para criticá-la enquanto ESTRUTURA.

O que irritava realmente os torcedores era a aparente falta de sentido nas ações do treinador, começando pelo próprio Gauchão. Quem tiver um pouco mais de memória (ou souber usar a busca deste belo blog) vai lembrar do que foi a estreia celeste na competição. Um ARRODEÃO do Juventude que não era visto há muito tempo por essas bandas, com um meio-campo ofensivo inexplicavelmente formado por Maico Gaúcho e Léo Franco que, alturas somadas, não atingem os MAMILOS de um NEGRO ESPADAÚDO como REI ZULU e que, obviamente, nada fizeram no jogo por não se aguentarem em pé. E, pior ainda, descoberto da pior forma pela torcida, já que o treinador bateu o pé e proibiu qualquer amistoso de pré-temporada contra algum time de verdade, treinando – na verdade simplesmente fingindo – contra times amadores do estado que em nada esticavam a corda do elenco FRUKISTA.

Neste jogo, também, Flávio Campos substituiu Rudiero no intervalo pelo fato de o mesmo ter recebido um amarelo, sendo que era o único do meio pra frente que estava jogando algo. Sentido? Nenhum. Além disso, Rennan Oliveira, Reinaldo e Maycon, que deveriam ser titulares absolutos, foram deixados no banco e, após entrarem em campo, mudaram o time. O que entendeu o treinador? Que Rudiero, o melhor volante que passou por Lajeado em muitos anos e extremamente querido pelo torcedor, deveria ficar no banco. A loucura durou apenas dois jogos, já que em ambos Rudiero entrou no decorrer da partida e continuou sendo o melhor jogador do time, obrigando o treinador a escalá-lo.

Flávio se despede do clube com 9V 10E 4D, 53% de aproveitamento, com um retrospecto invicto de 8V e 3E em casa. Além, claro, dessa foto para seu book fotográfico

E isso explica muito da campanha do Lajeadense no Gauchão. Aos poucos, as lesões, suspensões e o tempo foram ajudando Flávio a arrumar seus erros. Maycon EL DIABLO Bamberg tornou-se titular, marcou 47 gols por jogo e depois foi embora para o Catar; Maico Gaúcho e Leo Franco se lesionaram ou foram suspensos, dando espaço para Reinaldo e Rennan Oliveira. E, ainda, depois de 500 rodadas o inoperante Rafael Aidar finalmente deu lugar a Josimar, até então aparentemente escondido em alguma CATACUMBA, pois nem no banco mais ficava até receber uma chance em Pelotas e, adivinhem, marcar um TENTO, o que Aidar não fez no campeonato inteiro.

No fim, apenas após 10 rodadas o Lajeadense entrava em campo com uma escalação quase correta e, pra nossa sorte, sem sofrer nenhum prolema com isso, já que as vitórias em casa e empates ou vitórias (todas elas jogando de uma forma completamente inofensiva e sem graça) fora de casa também aconteciam.  Ancorado na segurança do eixo Micael-Gabriel-Rudiero, que já estava no clube há mais tempo e composto apenas por excelentes jogadores, e também nas grandes atuações de Eduardo Martini, Reinaldo e Márcio Goiano, o time teve sucesso no COSTELÃO, embora tenha deixado tudo para o ÚLTIMO MINUTO em Passo Fundo.

É óbvio que Flávio e sua comissão tiveram contribuição nisso. O treinador de goleiros, Ivair Gomes, e a preparação física, de Luiz Paim e Gustavo Menezes Leão, estavam em boas mãos e isso deu resultados. Além disso, Flávio mesmo teve um grande papel, acima de tudo, como DISCIPLINADOR. Junto com a direção, não deixou que o foco se perdesse, e manteve todos os jogadores interessados, além de, claro, ter aceito todos os indícios que o mundo lhe dava de que alguns jogadores deveriam estar em campo e outros não.

Com o ótimo resultado final – o melhor da história do clube, inclusive – embora existissem vozes contrárias desde lá por todos os argumentos listados acima e pela alegada falta de treinamentos do treinador e seu auxiliar, a direção optou pela manutenção da comissão técnica. O que, obviamente, foi justo para o momento, pois com tão pouco tempo, que ainda por cima era preenchido com jogos dia sim dia não, não dava para saber se aquelas eram coincidências ou realmente práticas do treinador. Além disso, o Lajeadense necessitava remontar um time de uma hora para a outra, graças ao brilhante calendário montado pela CBF em virtude da Copa dos Confederações, e a manutenção do PADRÃO auxiliava nessa árdua tarefa. E, bem, aqui sim até dava pra se argumentar que não se demite um treinador vice-campeão.

Principal legado da ERA CAMPOS é o vice-campeonato gaúcho de 2013

Porém, as coisas começaram se desenhar mal logo no início. O treinador bancou as renovações do volante Ramon e do meia Léo Franco, que mostraram futebol para serem no máximo reservas, e ainda trouxe figuras como Felipe Athirson. Dá para se arriscar que, caso houvesse ocorrido uma mudança na comissão técnica, provavelmente nenhum dos três movimentos aconteceria – talvez apenas a renovação de Ramon. O que, convenhamos, demonstra um grande caráter humano de Flávio – não se pode culpar alguém por ser LEAL, esse belo valor desaparecido – mas que, no futebol profissional, esse meio sem qualquer vestígio de humanidade, torna-se um problema. É o clube que interessa, no fim das contas, e a lealdade de Flávio estava sendo prejudicial ao time.

Desde aí, também, o time começou a se tornar uma paçoca. A cada coletivo, inclusive na parada para o torneio bilionário da FIFA, Flávio escalava um ONZE completamente diferente do anterior, e a cada jogo uma outra escalação era utilizada. Em uma competição ridiculamente curta, como a Série D, queimávamos nossas diminutas chances de criar qualquer tipo de ENTROSAMENTO.

Em Londrina, em mais um jogo fora de casa no qual o Lajeadense atuou de forma patética (embora no segundo tempo tenha melhorado e muito), ainda ocorreu um outro problema grave. Cléverson, meia de Série A e maior contratação do clube nos últimos anos, que estava sendo o principal jogador do time nos jogos em que atuou, foi substituído sem nenhuma explicação plausível. O jogador, com menos explicação ainda, atirou sua camisa no chão, socou o vestiário e tudo mais, num show de horrores que ocasionou o seu afastamento do grupo, bancado muito pelo próprio Flávio Campos. É óbvio que Cléverson merecia uma punição, e alguma não muito leve, mas o afastamento dele prejudicou o próprio time, que ficou sem nenhum meia-atacante confiável e, obviamente, naufragou do meio pra frente, principalmente na goleada sofrida no interior paulista.

Além disso, algumas outras opções, como a retirada do volante Moisés, a manutenção de Ramon e a insistência em um meio-campo formado por Léo Franco e Junior, que não deu resultado algum, entre outras coisas, também ajudavam na IRRITAÇÃO da torcida e, suponho, também da direção. E, ainda, surgiram boatos nesta terça de que o clube também estaria incomodado com o fato de Flávio estar entrando em dimensões clubísticas que não caberiam a um treinador, mas isso eu não tenho idéia se é verdade – até porque, desde que conheço o Lajeadense, os treinadores sempre tiveram um papel mais ou menos de FAZ-TUDO. Caso isso seja verdade, Flávio estaria sendo vítima do próprio profissionalismo que incutiu ao clube, o que é, até certo ponto, triste.

Em resumo, até prova em contrário, todo o enredo me parece ter ocorrido de forma CORRETA para ambas as partes. A única coisa que eu mudaria é que, sendo minha decisão, Flávio teria caído já após a derrota em Londrina, mas um espaço de míseras três semanas não é algo extremamente relevante. E, no fim, o ano de 2013 foi certamente bom para todos. O Lajeadense colheu os frutos da contratação do COACH carioca (após a DESERÇÃO de Picoli, sempre bom lembrar), a qual eu também aprovei na época, garantindo inéditos vice-campeonato gaúcho e participações em competições nacionais. Além disso, apesar de tudo, Flávio Campos entrega o time ainda vivo na Série D, praticamente dependendo apenas de uma vitória em casa no domingo, contra o Metropolitano, e eventualmente algo mais na última rodada contra o asqueroso J. Malucelli em Curitiba. Já o treinador despede-se do clube com muito mais cartaz do que quando chegou, em uma época em que andava sumido das planilhas dos clubes gaúchos após passagens pelo futebol nortista e nordestino. Nesse ponto, chegou a ser especulado até no Grêmio de forma séria nos últimos meses, então, bom, arranjar um novo e melhor emprego não deverá ser uma tarefa muito dura.

A demissão é um fato novo ao qual não estávamos acostumados, pois não havia acontecido no clube desde a sua reabertura em 2009. Os efeitos dela ainda foram potencializados pelas saídas também de Paim e Ivair, que pelo menos PARECIAM ser muito bons em suas funções, e de Gustavo Menezes, uma das boas amizades que o futebol me trouxe, que foi responsável pela estruturação das escolinhas do clube antes de retornar à área que domina, a preparação física – além deles, rodaram também o lateral-direito Jefferson e o meia Leo Franco, que pouco mostraram em suas estadias em Lajeado. A tristeza pelos ocorridos, porém, é diminuída pelo retorno de Ben Hur Pereira, que já havia comandado nossa esquadra com GALHARDIA recentemente.

Ben Hur treinou o Lajeadense entre julho de 2010 e maio de 2012

Não vou me alongar para falar sobre Ben Hur pois já o fiz nesse blog quando de sua saída do Lajeadense há um ano atrás e porque, bem, este texto já tem mais caracteres do que Lajeado tem de habitantes. Porém, acho que basta dizer que desde a sua saída (que no fim se comprovou acertada, já que o Lajeadense ficou lamentavelmente fechado no segundo semestre do ano passado), o treinador continua fazendo coisas como mandar mensagens de feliz ano novo e dia do amigo a todos em Lajeado, além de conversar animadamente em encontros esporádicos pelas ruas do Estado sempre que encontrado.

Seu estilo, amigável, de bom trato e respeitoso a todos, sempre foi o que mais agradou a todo mundo que frequenta um pouco mais os clubes por onde passou, talvez acostumados a outros treinadores, não raros embora também não tão comuns, que sobem em um pedestal imaginário e se auto-intitulam semideuses. Não foram poucas as vezes em que Ben Hur, após treinos e jogos, parou espontaneamente nas churrasqueiras do antigo Florestal para conversar e explicar sobre o dia a dia do time e suas decisões aos torcedores.

Isso tudo, como já era esperado, acabou virando-se contra o técnico de futebol profissional, esse meio sem qualquer vestígio de humanidade. Não ser um cuzão automaticamente transforma a pessoa em “sem pulso”, que não consegue disciplinar o elenco e muito menos blindá-lo do ambiente externo. Tipo, hein? Não consigo contar nos dedos as vezes em que ouvi esses argumentos.

Para calar a boca de todos, porém, basta puxar as últimas quatro temporadas de Ben Hur. Acesso inesperadíssimo com o Cruzeiro em 2010 (o ano da loucura na Segundona), vice-campeonato da Copa RS 2011 com o Lajeadense, ressurreição e salvamento do Cruzeiro no Gauchão 2013, e acesso do Aimoré há pouco mais de um mês. Além disso, também realizou campanhas seguras embora não brilhantes nos Gauchões de 2011 e 2012 e na Copa RS 2010 em Lajeado, e na Série D 2012, com o Cerâmica, eliminado do mata-mata na última rodada em uma situação muito parecida à atual do Alviazul e que, torcemos, não se repita.

Integrarão a nova comissão técnica frukeña o auxiliar Edinho Costa, o preparador de goleiros Édson Girardi e o preparador físico Pedro Francke, promovido do elenco de juniores do Lajeadense.

Que Jorjão nos ilumine.

(As fotos são de Porthus Junior, Frederico Sehn, Adriana Franciosi e Caco Konzen, creditadas no título das mesmas)

Alegre porém triste,
Guilherme Daroit

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4 Respostas a A volta da esperança

  1. Caroline de Oliveira diz:

    Bah, fiquei super feliz em saber que o preparador de goleiros Edson Girardi fará parte da nova comissão técnica do Lajeadense. Baita cara. Trabalhou em FW por 12 dias neste ano, e fez parte da “equipe salvação” do União. Boa sorte, tchê!

  2. Angelo Afonso diz:

    Genial!!!
    A Série C nos espera!
    Grande abraço pra ti também, Guilherme Daroit!

  3. Pozolha tchê!

    Estamos realmente dando uma segurada nos valores, pois além de receber só meia-cota, a direção aimoresista aposta muito no número de associados para o ano que vem. Nesse momento o clube tem quase 1000 sócios em dia e o intento para 2014 é ter cerca de 2000.

    O Ben Hur, por sua vez, era visto como um dos capitães do POJETO, devido ao bom tino dele para indicar jogadores e trabalhar com jovens. Sem contar, como o TALENTOOOSO Daroit mencionou, o homem da BIGA é muito bom no trato com as gentes e com isso, faz o seu trabalho com calma. Só o que eu estranhei é que o mesmo Ben Hur havia falado que estava feliz de ficar próximo à sua família em NH….

    Entretanto, pelo que se fala pelos lados da UNISINOS, a tendência é que venha um treinador com o mesmo perfil do Ben Hur para cá. Aguardemos.

    PS: Por que diabos a TV Unisinos não cria um programa ao estilo do “Tá em Jogo” da TV Univates?

  4. Saudade dos textos do Daroit. Até porque, mesmo grandes, sempre me fazem parar na metade com algum trecho nonsense, tipo os ‘mamilos do zulu’, uhueahaeuheauhae

    (nah, li até o fim, como sempre :D)

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