Se “evitar superstições é outra superstição”…

diogo23.527. Esse o número exato de ANFÍBIOS presentes no Alfredo Jaconi na tarde de ontem. Se é pouco ou não, não é disso que pretendo tratar (aliás, acredito que até os torcedores de clubes da série A nacional prefiram não debater isso…).  O fato é que provavelmente estavam no estádio – tomando chuva por gosto ou sentados no seco com um quentão nas mãos – aqueles mesmos que, independente de chuva, sol, adversário, promoção de ingresso ou seja lá o que for, sempre estão e estarão lá. Independente de divisão.

Imagem 002Não me considero um cara de todo supersticioso (apesar de me pegar algumas vezes tentando lembrar, antes de ir pro estádio, se a camiseta escolhida ‘deu sorte’ ou não nos últimos jogos). Mas  gosto de imaginar se o que fazemos influi ou não em alguma realidade ocorrida depois. É o que penso em relação à reedição da Kombassa (invicta) dos Papos da Capital que rolou ontem pra ir ao jogo contra o Penapolense, pela última rodada da fase de grupos da série D nacional.  Será que alguém de Caxias, que pensou em não ir ao estádio em função do clima bizarro que se abateu sobre o estado, mudou de ideia ao saber que pouco mais de meia dúzia de doentes decidiu se tocar serra acima, em meio a estradas encharcadas e deslizamento de barreiras, só pra estar ao lado do Juventude? Não sei, pode ser que não, mas gosto de pensar que sim.

O Ju chegou praticamente classificado na última rodada, dependendo de uma combinação pouco provável de resultados pra ser eliminado em casa, apesar de possível. Bastava perder pros paulistas e, no outro jogo, haver algum vencedor entre Santo André e Marcílio Dias (o que aconteceu, vitória do outro interiorano campeão do Brasil de outrora).  No sábado, assistindo ao jogo do Caxias do Zilli pela TV Brasil, o receio deste pessimista de plantão tomou forma: com campo molhado, poças d’água tomando conta, por mais que o campo fique ruim pros dois, o time visitante sempre joga de sangue doce. Sem contar que quem abre o placar dificilmente deixa a vitória escapar. Esse era o meu medo.

Imagem 004Após dar um tempo na ‘sorveteria’ próxima ao estádio pra dar aquela esticada nas pernas e conversar com a turma que ali se junta antes de todos os jogos – inclusive o pessoal do Juventude Gladiators, time de futebol americano que havia conquistado sua primeira vitória, no campeonato e na história do clube, em Porto Alegre no dia anterior, ainda deu tempo de pegar o time aquecendo no gramado, que se mostrava surpreendentemente bom mesmo com tanta água caindo desde sexta-feira.  Algumas poças visíveis na lateral próxima dos reservados, mas dava pra jogar.

Apesar disso, e mesmo que demonstrando superioridade ao adversário, o Papo insistia em jogar como se o campo estivesse seco, privilegiando muito mais o toque de bola do que o METE NO FEDOR, muito mais adequado ao tipo de piso ontem. Assim mesmo, uma bola no travessão dos paulistas aconteceu, sendo praticamente a única chance mais viva de alguma coisa no primeiro tempo pros dois lados. No segundo, Luciano Dias, treinador adversário, pareceu adiantar um pouco mais seu time, o que fez o jogo ficar mais parelho, mesmo que, nas poucas chances construídas por ambos os times, a zaga e as poças d’água – que iam se fazendo mais aparentes – impedissem lances mais perigosos.

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Se não era o ideal, ao menos o Ju ia se classificando, ainda mais que no outro jogo o Santo André, após abrir 2 a 0, cedia o empate aos catarinas do Marcílio, o que mantinha Papo na liderança do grupo A7.  Até que a luz se fez no gramado do Jaconi.  Não, não foi o sol, mas após tabela pela intermediária direita de ataque, o lateral Murilo foi lançado no fundo e cruzou/chutou forte pra área (METE NO FEDOR, lembram?).  O goleiro espalmou pro meio da área, Rogerinho – que entrou muito bem no time substituindo Bergson, que se fue pra Lusa, relembrando AQUELE Rogerinho do começo do Gauchão – pegou o rebote, que explodiu no zagueiro e foi sobrar nos pés do ídolo máximo de Pedrinho Torres (e muitos mais atualmente), o maestro Diogo Oliveira, que deu um corte no marcador e, de fora da área, chutou sem chances de defesa, abrindo o placar aos 35 minutos e, como disse antes sobre jogos em campos castigados pela chuva, definindo a bagaça.

Imagem 013Após o gol, o jogo se abriu e João Henrique, que havia entrado não fazia muito no lugar do próprio Diogo Oliveira, ainda teve uma boa chance de ampliar o placar, mas que acabou não fazendo falta, pois o Juventude chegava aos 15 pontos, mesmo com o Santo André achando um gol no finalzinho na outra partida e também garantindo classificação.  Fim de jogo, muita festa na arquibancada, mais do que merecida para todos que deixaram o conforto do FOGÃO A LENHA pra bater queixo na friaca que não perdoava ninguém.  Ainda no gramado, todos os jogadores e comissão técnica se reuniram no círculo central e depois se dirigiram ao alambrado para vibrar e agradecer pelo apoio. 

Já de volta à Kombi, o que se ouvia de jogadores e do Lisca me animou. Nada de discursos efusivos de ‘agora vai’, mas demonstrações de comprometimento interno bastante grandes, todos dando a entender que o sucesso do clube seria o provável sucesso dos jogadores, visando um futuro em suas carreiras. Não me importo que pensem também em si. Acho isso fundamental até, pois só com esse tipo de pensamento o sucesso pessoal se transforma em sucesso coletivo. Mas isso só passa pelo comprometimento interno, que é o que me parece estar em prática nos vestiários do Jaconi.

Imagem 010Londrina agora é o obstáculo a ser superado, provavelmente nos próximos dois finais de semana.  Nem penso no que pode acontecer no outro confronto entre classificados de A7 e A8, Metropolitano x Santo André. A vida me ensinou nos últimos dois anos que, também em termos de série D, de nada adianta se pensar no amanhã se não se fizer o hoje. Primeiro jogo no norte paranaense e o segundo em casa. Casa na qual, pro Lisca (‘Lisca doido!’, como canta a torcida) – seja em sua estatística pessoal como treinador do Juventude, seja na que contava mais de 50 jogos invictos do clube jogando em seu chão (mesmo que, por ter perdido com seu time basicamente de juniores pro Passo Fundo, pela Copa Willy Sanvitto, competição oficial, tenha caído) – a mística de soberano jogando em casa siga viva, valendo e seja um diferencial a favor do time nesta primeira decisão.

Como vi que essa equipe, mesmo não encantando os olhos, não está jogando agarrado apenas nesse pensamento mágico, que acredita em si, que não esquece de 2011 e 2012 e quer levar o Ju de volta, degrau por degrau, ao lugar que merece, quem sou eu – que acha que uma Kombi tenha inspirado alguém mais a ir pro jogo ontem – pra duvidar?

Franco Garibaldi

* a frase entre aspas do título é creditada ao filósofo inglês Francis Bacon

(com fotos de Juan Barbosa/Agência RBS e arquivo pessoal)

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8 Respostas a Se “evitar superstições é outra superstição”…

  1. Saulo Morés diz:

    Franco como sempre de parabéns pelo excelente texto e pela excelente percepção do jogo…

  2. Felipe Pizzolato Grandi diz:

    Excelente crônica, meu velho! Soube ilustrar muito bem tudo o que ocorreu na friaca caxiense. Debaixo de tempo feio, tive um dos melhores fins de semana da minha vida, ganhando com os Gladiators no sábado e vendo o glorioso verdão classificado no domingo.
    Que venha o Londrina, pois essa vai ser mais uma peleia braba!

    Abraço!

  3. Primieri diz:

    Baita relato Franco!

  4. Franco Garibaldi diz:

    Valeu, gurizada! Fico devendo uma ceva :D

  5. Vitor VEC diz:

    Os números deste ano são piores q os anteriores.
    Mas agora são 2 + 2 jogos q definem tudo.
    Resta saber se o MIRASSOL DA VEZ, aka Londrina, fará um estrago irreversível no jogo da ida.

  6. É outro campeonato, completamente diferente. Como disse o Gladir no facebook, em que sequer é necessário vencer, bastando empatar todas desde os empates com gol (ou mais gols) sejam fora de casa.

    Tem bastante gente no grupo e na direção que já viveram essa situação. Fora o Lisca, que viveu isso no ano passado. Experiência na ruim quase todos já tiveram. Vamos ver se isso ajuda a mudar a história dessa vez, velho.

  7. Pedro Torres diz:

    Que baita, Franco!

    Só consegui ler agora o teu relato, interessantíssimo como sempre. E parabéns a todos da peleadora e mística KOMBI dos Papos da Capital. Como tu disse, não é qualquer um que deixa Porto Alegre e sobe a Serra num tempinho desse, como estava.

    Agora, no meu ver, é completamente outro campeonato. Agora é que nós vemos quem é quem!

    Seguimos na luta!

  8. baldasso diz:

    vamo JUVEEE!

    é hoje, estamos confiantes!

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