Eutanásia Ypiranguista

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Domingo à tarde, não pego o ônibus que destina ao estádio. Tampouco ligo o rádio na estação da cidade limítrofe. Meu time não joga nesta data. Não disputou partidas na tarde de sábado e nem durante a semana.

Meu clube não jogará futebol antes do final deste ano. E nestes finais de semana que se sucedem sem que nenhuma representação com as cores canárias tente levar o esférico rumo ao gol do adversário, qualquer que seja ele, meu Ypiranga morre mais um pouco.

Sim, o processo de morte do Ypiranga vem de longa data. Eram meados dos anos 90, quando os calendários começaram a priorizar as competições nacionais. Nelas participa uma pequena parcela dos clubes, que detêm grande parte dos torcedores e dos recursos. Aqueles, menores, que não perceberam a importância de seus torcedores como garantia de sobrevivência às tormentas que se avizinhavam, definharam.

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Quando o final dos anos 90 chegou, dos 5 tradicionais clubes de futebol da região Alto Uruguai, apenas um continuava na prática profissional. Mas os diretores canários não perceberam que tinham a responsabilidade de manter a última manifestação popular esportiva de toda uma região.

Apertando o calendário, os participantes da elite do SUL-RIOGRENSENZÃO diminuíram. Na LEVA de 6 rebaixados no ano de 1999, estava o Ypiranga. Na ânsia de voltar ao primeiro escalão, irresponsavelmente, começou-se a gastar mais do que se tinha.

Usada como eufemismo, a gastança não demorou a cobrar seu preço, e em 2003, rebaixado à recém recriada Terceira Divisão, e acumulando dívidas, o último reduto do futebol da terra banhada pelos rios Uruguai e Abaúna fechou. Não sei se por caridade ou por interesse no considerável patrimônio, os Anglicanos do Instituto Barão do Rio Branco entraram em cena. Pagando dívidas, colocando um time em campo em 2006 e planejando ascender ao rol de times sustentados pelas migalhas da dupla da capital até 2009.

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Por mais que a posição fosse de destaque no certame gaúcho e a situação financeira fosse estável, os verde-amarelos iam encolhendo. Porque perdiam, ano após ano, a oportunidade de, valorizando os que estavam consigo, se aproximar de Erechim e do Alto-Uruguai.

No processo de individualização da sociedade, os poucos que pareciam dispostos a fazer um Ypiranga melhor, foram se afastando. Afastavam-se porque se viam excluídos dos processos de decisão do clube, porque tinham apenas as poucas partidas das competições mais viáveis economicamente para assistir, porque na contramão dos tempos, não viam planos viáveis de associação, porque não viam, nos dirigentes, projetos claros para que a instituição crescesse. Foram, então, sugados pelo processo de globalização. Estreitaram os laços com os clubes da capital que a mídia lhes atirava e, diante da impossibilidade de fazer parte, verdadeiramente, de um time regional, esqueceram dos prazeres de ver o Colosso da Lagoa pulsando.

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Sem que ninguém percebesse, os ventos do destino atravessaram a Avenida 7 de Setembro. Não há mais volta. Nós, ypiranguistas de verdade, dispostos a colocar as cores canárias no peito e torcer mesmo contra Grêmio, Inter, Riopardense ou Juventude de Vila Campos, já não somos muitos. Não voltaremos a ver torcedores de times da capital exprimidos em um canto do imenso Colosso da Lagoa nem bons públicos em jogos de importância secundária. Aquele canário grande e vistoso, cujo canto poderia ser ouvido em qualquer canto da província não existe mais.

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MAS, apesar da globalização, apesar da pressão constante da mídia, apesar de que, ao invés de recebermos gratidão por mantermos vivo um dos poucos traços que nos diferenciam dos outros pedaços de terra desta querência, somos ridicularizados por nossos conterrâneos, INSISTIMOS EM BATER NO PEITO E DIZER QUE SOMOS YPIRANGUISTAS.

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Sim, nós, mesmo gerando receitas ínfimas e ocupando um cinquenta avos do nosso estádio, somos o único motivo para que este clube siga vivo. Como se fôssemos culpados pelos milhares que desertaram, MIJAM EM NÓS!

Quando se afundam em dívidas para subir de divisão e viver dos restos que vem de Porto Alegre, quando aumentam a mensalidade da associação e cobram valores exorbitantes para o jantar de aniversário do clube, deixam claro que não somos prioridade para os mandatários. Deixam claro que não estão contentes com o tamanho que podemos dar ao Ypiranga.

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Se estamos acostumados às megalomanias e irresponsabilidades, o que nos mata, como resistentes, é a bola que não rola. Porque sabemos que um clube de futebol não pode ficar maior sem que a bola role. Nenhuma criança poderá sentir a vibração do gol no finalzinho, nenhum forasteiro poderá se apaixonar por uma massa que não tem o que fazer em um estádio e nenhuma cidade se sentirá representada por um esquadrão que não existe.

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Se nossas vozes e nossas presenças não forem suficientes para evitar que esta instituição de 89 anos siga vivendo, pedimos, encarecidamente, que nos deixem aproveitar os últimos momentos de convívio. Deixem-nos sofrer com revezes e comemorar os empates. Permitam que vivamos os últimos suspiros do time que amamos com o máximo de bola rolando, porque não sabemos quantos invernos como este nosso coração aguentará sem a companhia do time que amamos.

Ouvindo as trompetas do Apocalipse, Álisson Giaretta.

As fotos são, em ordem, de: Gabriel Z. Guedes, disponível no site Panoramio (http://www.panoramio.com/photo/26083484), de um blog antigo do Ypiranga (http://ypirangafc.zip.net/),  Impedimento (http://impedimento.org/atalho-para-a-libertadores/), do site atual do Ypiranga (http://www.yfc.com.br/site/?l=1), de Rodrigo Finardi, disnponível em (http://www.jornalboavista.com.br/site/noticia/18328/sitemap.xml), de Juliano Fagundes Barcellos, Dino e  Luiz Eduardo Kochhann. 
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4 Respostas a Eutanásia Ypiranguista

  1. Franco Garibaldi diz:

    Nada pior que ter um time e não vê-lo jogar. Não por não poder acompanhá-lo, mas por ele não participar dos campeonatos. Começa assim, só abrindo durante um semestre… não há como formar um torcedor desse jeito.

  2. Ivan Ritta diz:

    Tem razão o autor do artigo. Não somente o Ypiranga agoniza, mas muitos clubes do futebol do interior gaúcho. Já de muito tempo que a Federação Gaúcha de Futebol deveria ter trocado o nome para FEDERAÇÃO GRENAL DE FUTEBOL. O que vemos nos últimos 20 anos ou talvez mais, é o aniquilamento de muitos clubes… além do Ypiranga, que com o fôlego criado pela injeção de dinheiro feita pela igreja anglicana conseguiu retornar a primeira divisao (não dá pra tirar o mérito de quem tem e, eu morava em Erechim quando isso aconteceu), outros clubes foram praticamente tirados de cena como os clubes de Passo Fundo, o Bagé e o Guarany de Bagé, clubes tradicionalíssimos e que faziam os times da capital passar trabalho. Hoje eu moro em Pelotas, cidade que tem 3 clubes de futebol, vivos, graças a teimosia porque se fosse pela vontade da fereração ja teriam provavelmente fechado. E como prova de que estou correto, é a marcação de um clássico – diga-se de passagem provavelmente o mais disputado depois da duplinha da capital – o BRAPEL, para uma segunda feira à noite, em total desrespeito com quem? com o clube? NÃO! com a TORCIDA. E olha que só morando aqui pra ter idéia de o que é a torcida do Brasil de Pelotas. Na decisão da segunda divisão deste ano, tinha mais de 10 mil torcedores…. isso mesmo… em uma decisão de segunda divisão. E nem assim, tem o respeito dos mandatários do futebol gaúcho.

  3. Izael diz:

    Sim, tudo isso é verdade. Mas também é necessário frisar que quando os grandes clubes se dirigem ao interior, essa torcida, em grande número, torce a favor das grandes equipes da capital. Outros deixam de ir assistir a equipe da própria cidade para ir ver jogos em POA. Não pensam eles que sem receita, e sem equipes, os grandes não virão mais pro Interior…

  4. Matheus Almeida diz:

    Graças a Deus o SP me poupa desse sofrimento de não vê-lo jogar. Já vivi dentro de uma diretoria de clube do interior e sei quão difícil é mantê-los na ativa. Uma série de fatores que demandam umas boas cevas, uns petisco e muitas horas de ócio para debater.

    Ivan, a marcação da final da Metropolitana e da Fronteira Sul pra uma segunda feira foi uma absurda sacanagem da Federação Grenal de Futebol. Uma pena, mas o clube também perde. Já trabalham com um orçamento deficitário e acabam perdendo uma das maiores rendas que podem ter: final com clássico regional. Com relação ao público da final, 10 mil é excelente, mas o próprio Ypiranga já colocou mais no seu jogo decisivo pro acesso em 2008.

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