Todos os corações (enfartados) anilados do Vale

A primeira taça anilada erguida no Estádio do Vale (Foto: Rodrigo Rodrigues/Jornal NH)

A primeira taça anilada erguida no Estádio do Vale (Foto: Rodrigo Rodrigues/Jornal NH)

Algum pensador moderno, da estirpe de Slavoj Zizek ou Igor Natusch, certamente já comparou o sofrimento por um amor mal acabado ao do torcedor que é refém do rádio para acompanhar o seu clube. Poucas coisas nessa vida terrena se comparam às todas emoções vividas durante uma transmissão via rádio, quando o miocárdio enfarta a cada ataque narrado pelo comandante da latinha e a respiração para por dez intermináveis segundos até que o ouvinte entenda qual time está com a bola e em qual altura do campo.

Porque colocar fones de ouvido e procurar a estação que transmite o jogo, seja no DIAL ou na internet, é o início de um ritual sadomasoquista semanal ao qual os adeptos do esporte-bretão se prestam a passar voluntariamente. É a arte de passar duas horas imaginando uma história repleta de vilões e mocinhos e como as mandingas inerentes a cada um de nós influenciará no andamento de uma partida disputada por duas dezenas de homens, num egoísmo que sobrepõe nossa mente individual ao pensamento coletivo. É viver na escuridão na época da eletricidade, é andar de carruagem na era das grandes montadoras, é negar o ceticismo dos números e acreditar no imponderável, tornando-se uma figura nebulosa do ser concreto que ali se debate tentando entender o que se passa a quilômetros daquela sofreguidão singular.

Eu faço isso há 9 anos ininterruptamente com o Esporte Clube Novo Hamburgo, ignorando os 700 km que nos separaram, com a união entre as partes sendo possível somente pelo éter físico cibernético ou pela visita sazonal nas viagens de férias. Torcer pelo Noia é mais do que um sentimento, uma paixão, um amor, um destinado traçado ao nascer. É uma escolha para me lembrar sempre de onde vim e porque estou aqui. É a minha ligação umbilical com o local onde fui parido e do qual parti há mais de uma década em busca de um futuro que dizem ser bom.

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Nosso companheiro Denis embalando um pastel copeiro em meio à fumaceira (Foto: Rodrigo Rodrigues/Jornal NH)

Despido do último pingo de dignidade que um dia pensei ter, livrei duas horas do meu dia, último antes da última longa viagem de campo que terei pela faculdade, para obliterar meus órgãos internos com uma chave de fenda enquanto escutava a decisão do 1º turno do Metropolitano, entre Novo Hamburgo x Aimoré. Porque se um jogo acompanhado pelo rádio é tudo aquilo e pouco mais do que foi escrito acima, uma decisão com o rival na mesma situação é uma colonoscopia em praça pública.

E por duas horas seguidas eu me contorci sozinho no quarto, silencioso, com o suor exalando pelo corpo inteiro ignorando a noite fria de Curitiba. O passar do tempo e o crescimento dos co-irmãos de poucas roupas e algumas flechas me sentir como a personagem de Ewan McGregor em ‘Trainspotting’, na cena que o cabra sofre com a abstinência de heroína e delira. O gol de Lukinhas, aos 35 minutos da etapa final, quando restavam pouco mais do que dez giros do ponteiro para levantarmos a taça, foi como o bebê engatinhando no teto e girando seu próprio pescoço em 360º.

Léo trava Lucas Silva, num duelo constante nas duas finais (Foto: Rodrigo Rodrigues/Jornal NH)

Léo trava Lucas Silva, num duelo constante nas duas finais (Foto: Rodrigo Rodrigues/Jornal NH)

A partir daí mergulhei num universo pantanoso adimensional recheado de desculpas esfarrapadas, um local em que os números não tem importância. E quando navegava pelos mares mais revoltos sem um fim no horizonte, Lucas Santos, esse enviado de Deus e lambuzado de chocolate em suas ventas, anota o gol impossível do título aos 49 minutos do segundo tempo. Um roteiro hollywoodiano para uma mera decisão de turno. E quem se importa?

Àqueles que vieram aqui em busca de uma crônica do jogo, meu sincero perdão. Não há capacidade, por parte desse escriba, de fazê-lo em tão pouco tempo hábil. Talvez eu o faça daqui a uma semana, quando tudo tiver se tornado pó e o segundo turno já estiver iniciado.

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Os apóstolos rezam juntos ao Cristo Careca – esse enviado de Deus viajou à Santa Catarina, ainda de madrugada, para ajudar familiares afetados pelas enchentes (Foto: Rodrigo Rodrigues/Jornal NH)

Foi só uma taça de final de turno, porém foi o primeiro passo para nossa longa caminhada de volta ao Campeonato Brasileiro. Que seja assim e venham novos trunfos para que possamos testar nosso coração e nossos sorrisos transformem a tensão do sofrimento no tesão peala glória.

Matando e morrendo em Cerro Azul,
Zezinho

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6 Respostas a Todos os corações (enfartados) anilados do Vale

  1. Aimoré foi roubado, com um gol anulado do anilado pelo bandeira e pelo juiz que, depois de 10 minutos de discussão com o quarto juiz, pilhado por uma rádio de Nóia City, acabou sendo validado. Ter a amizade do Noveletto é tudo.

  2. Denis Utzig diz:

    Jogo parelho, onde o Novo Hmaburgo mandou no primeiro tempo, e o Aimoré reagiu no segundo. O gol anilado surgiu do abafa, depois do Aimoré ter abdicado do jogo e cuja única preocupação era matar tempo. E tanto mataram tempo que, numa bola recuada, o goleiro capilé rebateu em cima do jogador anilado, e este marcou o gol.
    Impedimento de bola recuada? trombada no goleiro na marca do pênalti? Ninguém entendeu o que o bandeira marcou (nem o juiz), e por isso da busca do entendimento durante 10 intermináveis minutos.
    Justiça feita. Gol validado. 1º turno merecido!

    Dênis

  3. Getulio diz:

    Uma vergonha esse árbitro Marcio Chagas. Já havia roubado descaradamente o Juventude na final da taça Piratini. Certamente o pior árbitro e mais mal intencionado árbitro do estado.
    Infelizmente o título do Nóia ficou manchado, não por sua culpa mas pela do péssimo marcio chagas, uma chaga da arbitragem gaucha.

  4. paulo diz:

    o Denis falou tudo, o goleiro do Aimoré falhou, o gol foi legal, além do mais o Noia teve um gol legítimo anulado pelo Márcio Chagas no 1º tempo.´, é só ver no site da tv anilada, olhei os 2 jogos e nos 180 minutos o Noia foi melhor em 135 minutos, somou mais pontos no turno, sendo justo e legítimo o tíitulo de Campeão, o resto é choro de índio capilé, o eterno freguês do Noia.

  5. Weber diz:

    Se o gol foi roubado, melhor ainda. DÁ-LHE NOIA!!

  6. Marcelo Alves diz:

    Gol roubado ?????….melhor ainda sendo sobre o nosso ETERNO FREGUES de caderno….SAUDACOES ANILADAS !!!!!!

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