Viva o S.C. São Paulo!

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Adolpho, Alexandre e Bartolomeu gostavam de assistir aos treinos no relvado atrás do cemitério. Era aquele tal de foot-ball que os ricos jogavam antes de ocuparem seus cargos nas ferrovias e máquinas têxteis. Sabiam que para eles restariam as olhadelas para o campo barrento e de traves de madeira. O esporte aristocrático e branco é imune a classe operária. 

“Quem chuta busca!” – gritou o goleiro do Sport Club Rio Grande.

A bola estava perdida nas macegas. Perdido, também, estava um dos amigos que correu assim que viu a bola voar, voar, subir e subir. Além do esporte, surgia o posto de gandula. Se os veteranos foram os pioneiros no futebol, somos os pioneiros nos gandulas. Como que o esporte bretão teria sucesso no RS sem o sumiço deles, sem a falta de bolas e o caos que eles causam?

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Enfim, o artefato sumiu. Sem problemas, na sacola havia outra bola produzida pelos bretões. Melhor para o piá que levou a pelota pra casa. Feliz, o taura chamou os amigos para uma primeira partida. Olhavam aquele objeto com curiosidade. Era pesada, de couro, bem costurada. Não sabiam muito bem como usá-la, muito menos as regras desse tal de foot-ball. O mais novo se arriscou, largou no chão, reuniu toda a força que podia na ponta do pé direito e soltou a sapatada. Não foi o melhor dos chutes, não seria gol, tão pouco passaria perto da goleira adversária. Mas foi ali, meio sem querer, que o pontapé inicial foi dado.

O mais velho era reservado, tinha medo por terem pegado uma bola que não lhes pertencia. Fingia que não era com ele, quando a moranga rolava próxima de seus pés. Guardava consigo aquela vontade de correr, chutar e dar carrinho. Sempre ouviu dos seus pais que os esportes não colocavam pão na mesa, então tratava com indiferença àquela pelota encardida de barro.

Domingo tem jogo, os quadros tricolores se enfrentam num amigável em comemoração a data de fundação do clube. Os amigos resolvem dar uma olhada. Encantam-se. Não pelos jogadores duros, sem malemolência, mas sim pelo foot-ball. O jogo cheio de gols fez com que cada um deles imaginasse a sensação de colocar a bola pro fundo do barbante. Até o sisudo velhote da trupe se derreteu em adoração ao esporte bretão.

Decidiram, naquele dia, que fundariam seu próprio clube. Mas esse seria do povo, da rapa, do coração. Não importaria a renda, o status ou o sobrenome, mas sim a vontade de jogar, de defender o manto daquele que apelidaram de o “clube do povo”. As cores foram definidas sem muita confusão, a bandeira de Portugal era bonita, imponente e rubro-verde, assim como a bandeira do Rio Grande. O nome, por outro lado, foi definido pela cidade natal de Adolpho – o “Paulista” -: São Paulo. Local? A linha do parque. O trem diariamente passava ao lado, levando e trazendo centenas de trabalhadores e operários. Passavam e viam surgir, naquele campo, o Leão da Linha do Parque.

Outubro se inicia. O ‘foot-ball’ passa a ser ‘futebol’. O primeiro clube do país já excursionava pelos rincões gaúchos. Na capital, um dos diabos já havia nascido, trajado em azul, preto e branco.

– Chegou a hora! – berrou Adolpho.

– Hoje vamos, finalmente, fundar o nosso SPORT CLUB SÃO PAULO. – completou Alexandre.

04 de outubro de 1908. O futebol brasileiro ganhava, sem saber, o campeão estadual de 33, o campeão da Bento Gonçalves de 85 (eliminando e exorcizando os dois diabos capitais), o clube que estaria entre os melhores do país na década de 80.

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“Aos quatro dias do mez de outubro do anno de mil novecentos e oito, reunidos por iniciativa dos srs. Bartholomeu Casanova, Adolpho Corrêa, José Sartori, José Bernardelli e Hermenegildo Bernardelli e diversos associados, às duas horas da tarde , no terreno à rua Rheingantz, fronteiro ao cemitério católico desta cidade, e pertencente à Compagnie Auxiliare de Chemins de Fer du Brézil, da qual obteve licença para exercícios de foot-ball, o Sport Club Rio Grande e, gentilmente cedido a nós pelo mesmo club, foi fundado o Sport Club São Paulo, sendo seu fim exclusivamente esportivo. Logo depois foi aclamada interinamente a seguinte directoria: para presidente, o sr. Adolpho Corrêa; para vice-presidente o sr. Ítalo Gagliardi; para secretário o Sr. Bartholomeu Casanova e para tesoureiro o sr, Hermenegildo Bernardelli. Não tendo mais nada a tratar, o sr. Presidente agradeceu o comparecimento dos srs. Associados e convidou-os a reunirem-se às duas horas da tarde no dia onze do corrente para a eleição da effetiva directoria ficando encerrada a secção. Secretaria do Sport Club São Paulo, no Rio Grande, quatro de outubro de mil novecentos e oito.”

Essa, senhores, é a primeira ata do SCSP. Entre ortografias vetustas e personalidades ignotas na sociedade, o rubro-verde mais querido do Brasil surgia. Graças aos senhores ali presentes, Darcy Encarnação chegaria ao porto papareia e, carregado nos braços da multidão, traria consigo a taça de campeão estadual. Graças a eles, o Aldo Dapuzzo é erguido com braços fortes e rendas de milhões de cruzeiros nas peleias pelas séries nacionais. Graças a eles – porque não? – estávamos unidos dia 19 de maio deste presente ano e embebidos de orgulho invadimos o gramado bradando cânticos exaltando o Sport Club São Paulo – e injustamente esquecendo os seus três idealizadores.

No ground fronteiro ao cemitério católico jogaram ante-ontem animadamente os teams encarnado e verde desse futuroso club, sendo vencedor o último. (coluna Sport do Diário, 1908)

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Dois anos de enfrentamentos caseiros separaram o SCSP dos jogos com os rivais. Os quadros rubro-verdes duelam até que o primeiro plantel de fato é formado. Os primeiros adversários são os conterrâneos Rio Grande e Riograndense. Em uma confusão de primeiros, segundos e terceiros times, a rivalidade se constrói. Rivalidade que se estende pelo canal São Gonçalo. Na primeira viagem rubro verde, vitórias contra o União e o Pelotas – dois e três tentos a zero, respectivamente.

A primeira confusão também acontece do lado de lá. Os diretores comunicam-se por telegramas:

Estamos prontos para amanhã. Responda hoje se devemos seguir. Ramos, presidente SP.

Fazendo bom tempo podem vir. Caso queiram jogar mesmo mau tempo aceitaremos. Qualquer modo iremos estação saber resolução tomaram. SC

Dessa vez, vitória áureo-cerúlea. 2×1 com uma das primeiras arbitragens confusas da história do futebol gaúcho, como narram os bairristas jornais sulistas:

Um grupo de populares simpáticos ao SP invade o campo exigindo que o referee não considere goal. A descabida reclamação causou surpresa geral e, entre os manifestantes, estava o próprio presidente do SP. (…) Então, ficou no 2 a 1 para o Pelotas. O SP seguiu para Rio Grande no trem das 18h. (Diário Popular, 1912)

Cento e poucos anos depois, o tio do apito reencarna no rebelde juizão que estava no Dapuzzo. Os clubes são os mesmos: São Paulo e Pelotas. Centenários e guiados por milhares de torcedores, que agora são conduzidos por automóveis e não mais pelos saudosos vagões. Algumas coisas mudaram, inclusive o placar. Agora, é vitória do Leão – que continua sendo – do Parque. 1×0.

Ninguém na falange gremista acredita num triunfo dos rio-grandinos. (Correio do Povo, 1933)

Assim falava a imprensa da capital antes da final do estadual de 1933.

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Com energia insuperável, o SP abateu o Grêmio por 2 a 1; o conjunto de Rio Grande fez jus à vitória; Darcy, mais uma vez, consagrou-se como craque de valor, o melhor dos 22 homens em campo; oferecendo resistência formidável ao adversário e, conhecendo a capacidade técnica de Lara, Luiz Carvalho e Foguinho, os comandados de Darcy pisaram o gramado com uma força de vontade e capacidade de resistência física quase sobrenatural. (Correio do Povo, 1933)

E assim falava a imprensa da capital após a final do estadual de 1933.

Fla vence clima hostil e empata com SP (…) o placar de 0x0 não deixou de ser bom resultado para o Flamengo (…) levado por sua torcida o SP iniciou mais ofensivo, enquanto o fla se manteve mais na defesa. (Jornal do Brasil, 1980)

A imprensa carioca comemorava o empate do Flamengo de Zico, Junior, Adílio e Andrade com o São Paulo de Carlão, Radar, Astronauta e Paulo César Tatu. O campeonato nacional da primeira divisão deu ao Aldo Dapuzzo seu maior público na história.

Desçam mais um pouco de bebida. Uns petiscos também não cairiam mal. Temos muito mais pra falar. No livro do escritor Willy Cesar (Um século de futebol popular – A história do Sport Club São Paulo), tudo, de fato, de verídico e de mítico está escancarado para o mundo ver. A história centenária do SP já está escrita, nos resta continuar. Sejamos Adolpho, Bartolomeu e Alexandre. Sejamos Darcy Encarnação. Sejamos encarnados e verdes. Sejamos Sport Club São Paulo.

Como diriam as senhoras e senhoritas na recepção ao time campeão estadual: VIVA O S.C. SÃO PAULO!!

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Leão do Parque, glória e paixão, reina São Paulo no meu coração,

Matheus Almeida

(As fotos foram retiradas do livro Um século de futebol popular – A história do Sport Club São Paulo, do escritor e historiador Willy César)

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11 Respostas a Viva o S.C. São Paulo!

  1. Leandro áureo-cerúleo diz:

    Parabéns São Paulo, parabéns zona sul, deixemos a rivalidade só no campo, juntos será mais fácil crescer!! bela matéria, isto sim é futebol, enquanto isso Noveletto se reúne com a dupla e troca a fórmula do campeonato sem conversar com o interior. Amigos do interior, a Dupla de POA vai acabar com tudo…aguardem!!! amem os clubes de suas cidades, eles dependem de nós!!!

  2. Matheus Almeida diz:

    É bem por aí, Leandro. Eles querem nos fazer acreditar que o futebol do interior morreu, mas nós somos chatos e insistentes. hahahaha

    Aqui o Chico não se cria!

  3. Enrique Xavante diz:

    Parabéns ao S.C. São Paulo,time de tradição!VIVA O FUTEBOL DO INTERIOR,ANTI GRE-NAL

  4. ivan diz:

    Bonito artigo contando a história do clube. Mas tem uma inverdade. o Estádio que nascia não era o “ALDO DAPUZZO” e sim o “ESTÁDIO WALDEMAR FETTER”. O nome foi trocado no final da década de 70 ou início da de 80, não lembro bem. Trocado ao que tudo indica, para puxar o saco porque o dapuzzo colocou grana no clube. Na época eu morava em rio grande e lembro que a troca de nome não foi assim tão bem recebida pela torcida. Agora, com uma geração nova, ninguem mais lembra.

  5. Everton diz:

    Bela matéria, pessoal! Parabéns!

    Mais que apenas um pequeno clube de futebol, com muito mais dores que alegrias, o SCSP é uma das lembranças vivas da nossa terra e da nossa gente – a gente mais antiga do RS, que reunida, promulgou a primeira lei , que expulsou os Espanhóis para o Uruguai e que impediu que nos tornássemos uma grande Estância administrada por Latifundiários; terra que fez florescer o primeiro Comércio, a primeira Indústria, o primeiro Estado, o primeiro Direito. Gente que, hoje, pelos feitos do passado, pode levar os filhos e netos à Praça principal da cidade, sentar num banco e admirar o belíssimo monumento sob o qual descansa os restos mortais do líder máximo da Revolução Farroupilha que, por ironia do Destino, jaz sob a terra a qual tanto cobiçou e, no entanto, nunca conquistou.

    Parabéns ao nosso Sport Club São Paulo! E vida longa a todos os clubes históricos do RS!

  6. Matheus Almeida diz:

    #4 Ivan:

    A troca do nome se deu dia 10 de outubro de 1977. A construção da ferradura do Aldo Dapuzzo começou em 1979 com rendas da Taça de Prata, quando o estádio já não se chamava mais Waldemar Fetter.

  7. Gladis Chalart Pinto diz:

    Parabéns ao Sport Club São Paulo.

  8. Gladis Chalart Pinto diz:

    Parabéns !!!

    Sport Club São Paulo de Rio Grande.

  9. Carlos Louzada diz:

    Parabéns para o futebol do interior.Nossos clubes tem q se reunir para dizerem que não aceitam do Novelleto que ele acabe com o futebol do interior,afinal a dupla só tem ganho mesmo o gauchao que ainda é a principal refeição deles.VIVA SÃO PAULO PARA TODO O SEMPRE. Carlos Louzada

  10. Bruno Vasconcelos diz:

    o que dizer agora? quando as lagrimas rolam de alegria ao ver o meu clube o nosso clube, aquele que desde o principio foi do Povo batalhador que não se entrega na peleia, o clube que até hoje a torcida se inflama, não importa aonde for jogar se é na A , B, C , D, amor não se escolhe amor se sente e não se ama por classe e sim por sentimento somos o clube de muitos somos todos tecnicos presidentes conselheiros criticos e acima de tudo somos apaixonados, obrigado São Paulo.

  11. Renato Lempek diz:

    Meu tio bisavô Alexandre Lempek foi quem pegou a bola no treino tricolor.

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