A racionalidade do apaixonado

rional

Fanatismo: s.m. Paixão cega que leva alguém a excessos. Dedicação excessiva.

Acordei já meio tarde, como um costume ruim peguei o celular para dar uma olhada nas notícias do dia, logo me deparo com um assunto polêmico envolvendo meu time de futebol. Exatamente um minuto depois, recebo a ligação de meu pai, que se encontrava em Brasília, perguntando que história era essa de “união dos dois clubes“ da cidade de Santa Maria.

Os comentários de leitores dos jornais locais davam a entender uma aceitação do fato com uma ampla vantagem dos que discordavam. Quem não queria a extinção dos dois times de futebol para a criação de um terceiro e único, era considerado “bairrista” “pensamento pequeno”, e chovia os que diziam que Internacional de Santa Maria e Riograndense não tinham história, “melhor um bom, do que dois medíocres”.

Não só os leitores, como os principais articuladores da ideia inicial, gabavam-se de altas porcentagens de que os cartolas de ambos os clubes aprovavam a ideia, com aval do presidente da Federação Gaúcha de Futebol (FGF) e até mesmo do prefeito de Santa Maria.

Parece bom, não? Dois clubes que nunca ganharam nada acabariam e então, um novo clube, melhor projetado e administrado, elevaria a qualidade de futebol, choveria dinheiro nos cofres e a cidade vibraria nos jogos contra times grandes da capital.  

Mas no meio dessa festa toda, continha alguns “pequenos” poréns. A diretoria do novo clube, em vez de renovada, seria a mescla dos diretores que sempre figuram o futebol. O argumento que a cidade se identificaria mais com a agremiação se esfarelava nos ventos do passado, quando o Internacional virou Santa Maria Esporte Clube em 2002. Com um público que desastrosamente sumiu dos arredores da baixada melancólica, nove meses depois voltou com seu nome de criação. Criação essa que ocorreu em 1928, e seu rival esmeraldino, em 1912, o que acho sempre bom lembrar.

Vendo tudo isso ocorrer, resolvi mostrar o outro lado que muita gente não conhecia, a dita história que os “bairristas loucos e ultrapassados” defendem até a morte. Já desgastado com noites pensando no assunto e estresse acumulado de explicar em vão, me dei o desafio de ser racional no meio da guerra, claro que depois de muita atitude feita com os impulsos de quem vive diariamente o fanatismo pelo clube local.

Já em maio de 2013, durante projetos nas aulas de jornalismo, eu e alguns colegas saímos em busca de depoimentos em vídeo de jogadores, técnicos e torcedores, para tentar explicar o porquê que o futebol daqui era tão pouco cultivado e fomentado, procurando as falhas e as dicas de “conserto”.

Passado todos esses meses me debrucei na busca pelos vídeos em arquivos e memórias das câmeras que gravei, onde consegui salvar alguns que poderiam ser utilizados nesse novo contexto. Vi que ainda eram poucos e precisava consultar pessoas que viviam nesse meio há muitos anos e conheciam os bastidores obscuros desse esporte.

Além de algumas horas esperando nos arredores dos estádios Presidente Vargas e Eucaliptos, buscando autorizações para imagens e reuniões dos dirigentes, contamos com a sorte de “trombar” com radialistas no calçadão de Santa Maria, e também com amigos presentes dentro da rádio Imembuí, que nos convidaram cordialmente para comparecer na sede e gravar os depoimentos. Por último e não menos importante, fui à casa de minha avó, Marly Pillar, autora do hino do alvirrubro, para uma boa conversa relembrando o passado, e com o prazer de escutar a música tocada no piano, com o detalhe que lembrava “de cabeça” a melodia, como que cultiva por anos uma bela criação.

Com todo material em mãos, a criação e divulgação se formou na mais humilde forma de simplicidade, com poucos recursos e conhecimento nessa área audiovisual, o vídeo busca fazer quem o assiste esquecer os erros de edição e áudio, e convida para um debate construtivo sobre futebol e esporte.

Tentando deixar de lado a raiva fanática e a desinformação do deslocado, busca fazer a dificílima união entre razão e paixão, colocando as cartas na mesa, elucidando erros já cometidos no passado que tentam ser mascarados no presente.

As águas aqui em Santa Maria ainda vão rolar e muito nesses meses que antecedem os preparativos para os campeonatos de 2014. Isto é, se for possível disputar futebol em 2014, e se não for, que todos tenhamos consciência que não são dois clubes que freiam o avanço no esporte, mas erros e amadorismos cometidos desde quando eu não sonhava em frequentar as arquibancadas. Muito no futebol do interior se resolve com o “não tem um melhor vai tu mesmo”, mas em processos de reciclagem e debates, sonho ainda que um simples convite de: “apoie o clube de sua cidade”, comova alguns poucos, que perceberão que a energia vital de todo negócio racional e bem-sucedido é a paixão e o fanatismo dos que nunca ousaram jogar a toalha.

Como Erasmo de Rotterdam já disse em Elogio da Loucura: “Segundo a definição dos estóicos o sábio é aquele que vive de acordo com as regras da razão prescrita, e o louco, ao contrário, é o que se deixa arrastar ao sabor de suas paixões. Eis porque Júpiter, com receio de que a vida do homem se tornasse triste e infeliz, achou conveniente aumentar muito mais a dose das paixões que a da razão”.

Contribuição recebida de Santa Maria da Boca do Monte,

Por Daniel Pillar

(A foto é do Jean Pimentel/Agência RBS)

Publicado em clássicos, Clubes Gaúchos, Divisão de Acesso 2013, Documental, Entrevistas, Inter SM, Riograndense-SM com as tags , , , , , , , , , , . ligação permanente.

2 Respostas a A racionalidade do apaixonado

  1. Ansioso por ver o vídeo (que pra mim é bloqueado no trabalho). Belo texto, Daniel!

  2. Matheus Primieri diz:

    Baita! Que orgulho ver esse tipo de trabalho e dedicação, é isso que move o Toda Cancha.

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