Foram-se a taça e a dignidade

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Daqui umas décadas, quando um historiador com excesso de tempo livre vier investigar a trajetória do Xavante, 2013 certamente vai compor um capítulo simpático. Foi um ano em que o clube foi a todas as finais possíveis. Voltou ao Gauchão, campeonato eternamente vencido e desdenhado por aquelas equipes capazes de pagar o PIB de Uruguaiana a um camisa 10. Manteve um grupo praticamente intacto, fazendo um favor a quem se excedeu em ervas medicinais na adolescência. Agora até conseguimos decorar a escalação do time.

Até o último jogo da temporada, apesar do dissabor de ver o rival levantar a taça no Bento Freitas, conservava uma aura de bravura. Quando os caras fizeram um gol no finalzinho do primeiro tempo, soltei todos os impropérios em língua portuguesa, desliguei o rádio e fui ler um pelotense, Carlos de Oliveira Gomes, autor do maravilhoso A Solidão Segundo Solano López. Abandonei a guerra do Paraguai e voltei à da Baixada quando o Aroldo dos Anjos, xavante também desgarrado aqui de São Paulo, mandou um torpedo sucinto: “2 a 1, viramos!” Religuei o rádio e vesti a camisa do Milar. Chuveiramos a área deles por longos 15 minutos, tempo em que os áureo-cerúleos esculpiram freiadas nas cuecas, mas não deu. Acontece, menos com eles, de quem costumamos ganhar, mas acontece. Desliguei o rádio, porque não sou masoquista.

Agora de manhã, tomei coragem de chafurdar a derrota. Lendo a repercussão, me vi metido numa vergonha colossal. Sejamos honestos: poucos clubes nos oferecem tanto contato com a pedagogia da derrota como o Xavante. Estamos invariavelmente no quase, caindo pelo caminho, mas sem que nenhum de nós deixe de amar o clube. Porque todos sabemos que, mais do que a vitória, vale a dignidade. O que renova a fé no Brasil de Pelotas não é a possibilidade de um título, mas a certeza de que nenhuma derrota será permitida sem a parte traseira do calção suja de barro e grama. É isto que nos importa. O resto é perfumaria, coisa de torcida jovem do Barcelona em Brasília.

Pois o esperneio da direção do Xavante diante do infortúnio, a meu ver, corrói a dignidade. Até as pombas da Praça Coronel Pedro Osório sabem que o saldo qualificado estava posto no regulamento. Buscar reverter a decisão na Justiça vai nos fazer perder estes Brapeis duas vezes: uma no gramado, outra nos tribunais. Aliás, pelo histórico recente, nossos advogados merecem rebaixamento. O Xavante foi arrancado criminosamente da Série C em 2011, fomos para a Justiça comum e não nos sobrou culhões para levar a briga com a CBF até o fim. O Treze perseverou e ganhou. Se a gente não vence nem causa cristalina, imagina esta aí. Enfim, o Claudio Montanelli e meu xará Fabrício Marin poderiam nos deixar curtir a fossa sem esta papagaiada.

Ademais, se a taça ficou com eles, ganhou o futebol pelotense. Apesar da maioria da torcida deles ter 32 dentes na boca, dos guarda-chuvinhas, daquele estilo castelhano de torcer que indica a ausência de criatividade, quero muito bem os áureo-cerúleos. Nutro boníssimos amigos entre eles. São nossos parceiros nesta insistência quase patológica de se valorizar a paróquia, quando a globalização nos enfia goela abaixo paixões alienígenas.

O esperneio tresloucado do Xavante vai cobrir toda esta beleza numa névoa de várzea.  Depois a turma lá de Caxias diz isto com um palito de dentes pendendo dos beiços e a gente se ofende.

Fabrício Cardoso

(foto: Alisson Assumpção/Diário da Manhã)

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16 Respostas a Foram-se a taça e a dignidade

  1. Fabrício como sempre muito inteligente. Obrigado por escrever.

    Eu não tô pensando muito no que o Brasil está fazendo. Observo de longe. Eu tenho quase um trauma com essa história de briga judicial, visto aquela nossa luta pela série C – luta legítima porque existiam provas a favor – que acabou não dando em nada e hoje sentimos MUITA falta daquele calendário e projeção que tanto nos fez bem. Parece que ainda rola um processo sobre isso, mas não tenho maiores detalhes.

    No entanto, cancheiros e cancheiras, vocês me conhecem e procuro não colocar o que sinto na frente da razão. E sem clubismo nenhum digo que essa gritaria do Brasil pode ajudar, de alguma forma, a termos melhores regulamentos.

    É um desrespeito a qualquer clube – incluindo a entrevista do sr. Chico sobre o assunto – esse regulamento que NÃO cita, Fabrício, o gol qualificado na fase final da Taça Sul Fronteira. O Pelotas venceu o clássico em casa, perdeu fora, e levou a taça. Ponto.

    Mas o regulamento não prevê saldo qualificado. Tava tipo uma Libertadores da vida. Inclusive o TROÇO não previa PENAIS. Seria interessante ver o que aconteceria caso o jogo tivesse terminado 1 a 0 a favor do Brasil… seria decidido na moeda? no par ou ímpar? pedra-papel-tesoura? número de cartões? números de acessos ao textos de Brasil e Pelotas no Toda Cancha? (ns)

    É uma discussão pertinente. O que ocorreu não é certo, independente do time. MAS AÍ É QUE TÁ A QUESTÃO. É o Brasil. Não pode. Tem esse histórico da série C. E os rivais utilizam em LARGA ESCALA – natural – o fato para deboche. Aliás, tem muito time se achando rival do Brasil. Vamos com calma aí. hahaha O Brasil é do interior. Já tem rivais fortes pra caramba pra enfrentar. Não quero mais força contrária. rs

    Posso estar errado dessa vez como já estive em outras vezes. E se eu estiver errado meu apelido será regulamento (ns)

    Abraço em todos.

  2. Pedrão, o problema é se lembrar do regulamento omisso depois de perder.
    Ou vencer sem levar.

  3. Marcelo Barcellos diz:

    Precisamos, agora, é pensar no que está por vir e deixar que as feridas se fechem. Precisamos é de melhorias em todos os setores do nosso clube, começando por aqueles lá dentro do campo. Não é possível um zagueiro errar num momento tão decisivo, um centroavante perder gols que até a minha querida avó faria, não é possível ter apenas volantes na meia cancha… Em fim não é possível irmos para o Gauchão 2014 assim!

  4. #2

    Entendo. Mas no dia do jogo, horas antes, o Brasil entrou em contato com a FGF e eles responderam (inclusive com a colocação dos PENAIS pra desempate, caso desse 1 a 0; assumiram a cagada! haha) dizendo que tinha saldo qualificado.

    Mas não pode alterar regulamento com campeonato em andamento. ACHO que é isso que o Brasil quer defender judicialmente.

    Vamos aguardar.

    E Fabrício, obrigado por escrever. Não consigo representar o Brasil como antes por aqui, mas fico feliz em tê-lo com a gente.

    Abraço.

  5. Jessica Gebhardt diz:

    Esse regulamento foi escrito por um DEMENTE, de boa. Noveletto tá pouco se importando com os times do RS. Mais tarde pode acontecer com qualquer clube do interior, não só com o Brasil.

    Quando o Brasil subiu, diziam que tínhamos subido com a “ajudinha” do Noveletto, que o regulamento tava errado e blá blá blá. E é isso aí, cada um puxa pro lado que mais lhe convém. Mas com essa Federação ridícula, não dá pra aguentar.

    Mas enfim, a casa estava cheia, ganhamos de virada e isso é o que importa.
    Foda-se a taça, regulamento e o escambal! :P O que importa é que acordei mais rubro-negra ainda HAHAHAHAHAHAHA Arrogante, macumbeira e pronta pro gauchão!

    ABS

  6. XAVANTE MACUMBEIRO diz:

    Quando o G.E.Brasil deixou um “furo” na contratação de um jogador na Série C, outros clubes (Joinville, Santo André) juntamente com a CBF, Federação Paulista se valeram disso, aliados à omissão da Federação Gaucha. Nos tiraram da Série C na Justiça. Ok! Beleza!
    Jogamos Copas e Campeonatos com regulamentos contradirórios, mal redigidos pela “FGF”, com “clausulas” que dão autoritários poderes de decisão ao Presidente Novelletto em questões omissas. Agora que achamos um furo no regulamento, por que nós (clube/torcedores) não podemos nos valer disso?
    Não vejo problema algum do Clube questionar as falhas de um regulamento mal redigido por uma federação na qual o proprio presidente classifica as copas de segundo semestre como uma “SURUBA”

  7. Xavante diz:

    Longe de mim duvidar da sapiência das pombas da Praça Cel. Pedro Osório, mas nesse caso em particular estão equivocadas. Não tem nada sobre saldo qualificado no regulamento. O que existe é uma notinha da federação EXTRA-REGULAMENTO dando conta que o saldo qualificado seria considerado.

    Supondo que os dirigentes dos clubes tenham se reunido e concordado com o regulamento ANTES DA COMPETIÇÃO, um adendo posterior a isso deveria ser submetido a todos novamente e não lançado aos céus como foi. Mesmo um advogado que tenha feito o exame da OAB 18 vezes até passar, poderia fazer uma grande lambança nesse campeonato, não tenham dúvida.

    Agora, a direção deveria ter alertado para o fato do saldo qualificada não estar no regulamento ANTES do jogo, sem dúvida. Agora é tarde, muito tarde.

  8. Rosângela Vieira diz:

    Olá Fabrício, te confesso de coração, teu texto expôs completamente os meus sentimentos. Está amargo engolir esta derrota, estas na verdade. Procurei também me ausentar, sem tomar muito conhecimento dos comentários, porque está doendo. Quando soube dessa “papagaiada” como tu te referes, eu me senti menor ainda, deprimida. Dignidade deveria ser inerente ao Xavante, e nenhum dirigente poderia ter essa atitude que desqualifica à nós.
    Um abraço, prazer grande ler o teu texto. Rosângela.

  9. andre diz:

    Acostumados a ganhar deles? Me diz aí caro colunista, além de uma série de braPEIS sem importância jogando contra times de juvenis e apostas do Lobão, qual foi jogo que decidiu alguma coisa importante ou um título que vcs ganharam do Áureo-cerúleo??? Acho que o último foi a seletiva na dedada de 70 (aquela que o Torino de vendeu), de la pra cá todos jogos que valiam alguma coisa perderam! Essa megalomania doente de vcs, que não deixa enxergar a realidade que está levando os vermelhinhos a ruína, e provável extinção dentro de algumas décadas!

  10. Fabrício Cardoso diz:

    #9
    Porra, André, quanto azedume por uma flautinha inocente. A direção xavante não sabe perder e tu, não o clube, carece da leveza de vencedor. Só falta xingar em caixa alta. Te larguei…
    E não sou colunista. Quem escreve aqui é torcedor, mas uns só conhecem a retórica chinelona da arquibancada.

  11. Fabrício, realmente tens total razão quanto a essa papagaiada do guri executivo (pra mim, fraco demais para realizar um trabalho – que até aqui não apareceu – num clube da expressão do nosso Xavante). Uma vergonha que o jurídico do GEBrasil não poderia, jamais, se ver envolvido. Concordo com tudo o que postastes a esse respeito. Quanto ao Treze ter permanecido na Série C, contrariando o que aconteceu com o nosso Xavante, o amigo se equivocou. O GEBrasil lutou até onde pôde. Foi derrotado no TJRS por dois votos canalhas de desembargadores gaúchos. Inversamente, o TJPB manteve a liminar concedida ao Treze, o que lhe possibilitou jogar a Série C (que, inclusive, contou com um clube a mais este ano em virtude de tal decisão). De resto, sem reparos. Parabéns e saudações Xavantes!

  12. Murilo diz:

    Melhor pensar no gauchão. Pra cair tá ficando cada vez mais fácil e as premiações cada vez menores. É um campeonato mais caro, a folha mais extensa e vai ter mais concorrência nas contratações, não é que nem no Acesso que o Brasil tinha mais peso para contratar. E o Pelotas se conseguir a vaga poderá oferecer contrato de ano inteiro aos jogadores, o que tornaria a concorrência ainda maior, no caso dos dois clubes do município e isso pesa na escolha de bons atletas veteranos.

  13. Leandro Lopes diz:

    “O que renova a fé no Brasil de Pelotas não é a possibilidade de um título, mas a certeza de que nenhuma derrota será permitida sem a parte traseira do calção suja de barro e grama. É isto que nos importa. O resto é perfumaria, coisa de torcida jovem do Barcelona em Brasília.”.

    Gênio.
    Isto é o interior.

  14. Paulo Real diz:

    Independente de ter ou não razão no jurídico , nossa falha foi não ter qualificado o Grupo de jogadores pois não estamos mais na segundona mas mantivemos o time e sabendo ke teríamos vários brapeis nossa direção não fez NADA resultado vaga da D ke tava de barbada foi pra eles …. TOTAL FALTA DE PLANEJAMENTO .

  15. Rogério Cardoso diz:

    Calma galera,

    Só para lembrar, ainda há uma vaga para a Série D do Campeonato Brasileiro 2014 em aberto e esta será destinada ao campeão do interior no Gaúchão 2014.
    Portanto, o negócio é o Xavante montar uma grande equipe e conquistar o título do interior.
    Assim, a dupla Bra-pel estará disputanto a série D.
    Escutei alguns boatos sobre possíveis contratações Xavantes para o Gaúchão que me deixaram animado se forem realmente concretizadas. São jogadores renomados e para serem titulares em qualquer equipe, jogadores a nível de série B de Brasileiro.

    Aguardemos e que venha 2014.

    Saudações Xavantes

    Rogério Cardoso

  16. Alexandre Maciel diz:

    Só pra botar um pouquinho mais de lenha naquilo que o Gerson falou, os votos canalhas que derrubaram a liminar que botava o Brasil na Série C foram do desembargador que havia dado a própria liminar e da desembargadora mãe da deputada Manuela. Isso no dia seguinte a uma reunião-almoço com Aldo Rebelo, ministro dos esportes, que prometera à CBF em resolver o caso, alguns dias antes!

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