O mais difícil de todos os textos

Eliomar perde pênalti na etapa inicial - e o Noia perde a vaga à Série D (Foto: Jornal NH)

Eliomar perde pênalti na etapa inicial – e o Noia perde a vaga à Série D (Foto: Jornal NH)

Todo torcedor que se preze jura de pés juntos que há certas coisas que só acontecem ao seu respectivo clube. O mesmo torcedor costuma dizer que para seu clube tudo é mais sofrido. Suas vitórias são mais épicas, suas derrotas são mais doloridas. Assumido como anilado há pouco mais de uma década são vários os fracassos e mortes na beira da praia que vi e vivi e só escrevo esse texto pois sei que há outros tantos torcedores que anseiam em compartilhar da mesma dor para tentar entender a morte do ente querido.

O presente ano foi uma montanha-russa de sentimentos aos torcedores do Novo Hamburgo. Começou com uma campanha pavorosa no Gauchão, o rebaixamento que parecia inevitável, a ressurreição e a salvação nos estertores do campeonato, o fechamento do departamento de futebol, a volta às competições, as vitórias, as taças. A esperança renovada. E a desgraça.

Após as conquistas da Copa FGF e do Campeonato Metropolitano, o Anilado credenciou-se para disputa da Supercopa Gaúcha, que dá uma vaga à Série D. Futebol não é estacionamento para comemorar vagas, mas para um clube do interior gaudério a existência de um calendário nacional, ainda que curto, vale mais do que uma taça. A necessidade de sobrevida constante é mais bem-vinda do que um troféu no armário.

A vitória do Internacional diante do Passo Fundo transformou o duelo entre Pelotas e Novo Hamburgo, na Boca do Lobo, em confronto de vida ou morte para os dois postulantes à Série D. Chega a ser triste e injusto ver como o Rio Grande do Sul tem mais clubes aptos a disputas nacionais do que vagas destinadas, porém isso é reflexo da nossa incompetência institucional em ocuparmos as séries B e C com maior contundência.

O triunfo diante do mesmo Pelotas na Copa FGF e as taças posteriores permitiram ao torcedor anilado sonhar com a vitória e o consequente retorno ao Brasileiro. Além disso, o Noia teve uma semana de treinos e descanso entre a final do Metropolitano e o jogo de sábado, enquanto o Lobão se garantiu após bater o Brasil somente na terça-feira.

Mazinho foi um dos poucos que tentou algo durante o tempo normal, mas não apareceu para bater pênalti (Foto: Giovani Junior)

Mazinho foi um dos poucos que tentou algo durante o tempo normal, mas não apareceu para bater pênalti (Foto: Giovani Junior)

Entretanto o que se viu em campo foi um time cansado mas com ganas de viver para garantir seu calendário nacional e outro time desinteressado, amorcegando o jogo, como se a partida fosse mais um encontro enfadonho de fase classificatória. O problema é que para time do interior não há jogos sem valores.

O pênalti desperdiçado por Eliomar aos 44 minutos da etapa final foi apenas o prenúncio do que estava por vir – e que o anilado vacinado bem conhece. É incompreensível a displicência empregada na cobrança do tiro penal por um dos mais experientes jogadores do Noia. Se é para errar, fecha o olho e enfia um bico na bola, não vá caminhando à marca da cal e chute fraco para fora.

Com um jogador a menos, o áureo-cerúleo se desdobrou em campo, fazendo um catenaccio à costa doce e apostando na velocidade de Mithyuê e na gerência do esférico por parte de Gadelha e Jeferson Luís. A mesma galhardia não teve o Novo Hamburgo, que rondou pacientemente a área do Pelotas, mas não teve a contundência necessária para adentrar o recinto. Poucos arremates de longa distância, poucas jogadas de flanco, poucos homens na área. E nas faltas próximas à área, jogadas ensaiadas inúteis, sem a velha batida no fedor para casquinha redentora.

O apito final de Fabrício Neves Correa mostrou os jogadores pelotenses caídos no chão, extenuados por conseguirem sobreviver à maratona insana de jogos e à inferioridade numérica. Aos anilados sequer uma feição de indignação, raiva ou esperança. Tudo parecia placidamente normal naquele final de noite na Boca do Lobo.

Jô era o melhor em campo, mas teve que sair para não ser expulso (Foto: Jornal NH)

Jô era o melhor em campo, mas teve que sair para não ser expulso (Foto: Jornal NH)

E o mesmo descaso para com o presente que nos leva ao futuro foi visto na decisão por pênaltis. As cobranças de Bruno e Puyol foram de uma displicência irritante. E não culpo somente os batedores: é um crime colocar um zagueiro de 18 anos para bater um pênalti decisivo num jogo que vale vaga.

Enquanto assistia à partida com gosto de fel na boca, lembrei-me daquele Brasil x França da Copa de 1986. Naquela tarde de 21 de junho, no México, Zico errou pênalti no tempo normal, entretanto não hesitou em cobrá-lo novamente na decisão – e o converteu. Onde estava, então, Eliomar, que teve peito para bater – e errar – no tempo normal, mas que se eximiu na hora fatal?

Tal como em 1986 restou ao jovem zagueiro Julio César a cobrança final, enquanto Careca e Edinho viam a banda passar. Sábado, o jovem Puyol foi à marca da cal enquanto Mazinho e João Neto somente rezavam no meio-campo. O que se torna mais bizarro quando recordamos que Mazinho bateu pênalti decisivo contra esse mesmo Pelotas, em Outubro, e João Neto foi contratado por sua qualidade na bola parada.

Por ter sido pusilânime na hora decisiva, o Novo Hamburgo joga praticamente no lixo o belíssimo trabalho de um semestre inteiro. Terá que reforçar o atual plantel – que é bom – e buscar uma mísera vaga no Gauchão enfrentando Lajeadense, Brasil de Pelotas, Esportivo, Passo Fundo, São José, Cruzeiro e tantos outros adversários valorosos.

Filmes tristes sempre estão em cartaz no cinema do torcedor anilado. E quando ele foi à telona para assistir uma película de final feliz, esqueceu-se de agraciar a amante que estava ao seu lado, oferecendo-lhe amor tórrido e duradouro. Dessa vez o final triste não se deu no mundo virtual mas na vida real do anilado, que deixou a amada escorrer-lhe pelas mãos pois a tratou como mais uma. E ela fogosamente arderá no merecido colo áureo-cerúleo.

FICHA TÉCNICA
pelotas_45x45Paulo Sérgio; Tiago Gaúcho, Pedrão, Heverton e Carlos Alexandre; Jovany, Paraná, Mithyuê, Régis e Jefferson Luis; Kayron (Gadelha). Técnico: Paulo Porto

NovoHamburgo_45x45

Max; Rafael Mineiro (João Neto), Zé Carlos (Puyol), Juan Sosa e Peixoto (Alex); Bruno, Eliomar, Mazinho e Geovani; Jô (Lucas Santos) e Brandão (Diogo). Técnico: Itamar Schulle

O elenco para 2014

Na minha opinião, eis os jogadores que podem ficar para o ano que vem:

Goleiros
Max
Vitor
Simão

Laterais
Rafael Mineiro
Alex

Zagueiros
Zé Carlos
Juan Sosa
Peixoto
Puyol
Diego
Léo

Volantes
Alberto
Roberto Lopes
Magno
Rafael Ceará

Meias
Giovane
Mazinho
Meirellis
Eliomar

Atacantes

Diogo
Lucas Santos

Brandão: centroavante que não sabe chupar uma buceta não me serve (Foto: Jornal NH)

Brandão: centroavante que mais parece um volante meia-boca (Foto: Jornal NH)

Assim, o Noia precisaria de dois laterais a nível de titularidade, um meia que coloque a bola embaixo do braço e mostre quem manda no gueto e um centroavante rompedor menos cristão e mais pagão. Os demais podem pegar seu bilhete do Trensurb e rumar à rodoviária ou ao aeroporto.

Tá foda,
Zezinho

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2 Respostas a O mais difícil de todos os textos

  1. Marcelo Alves diz:

    Como sempre, belo mas triste texto do Zezinho, retratando a pura realidade neste final de ano….que comecou muito mau para o Noia, derrepente ficou maravilhoso e termina com um gosto amargo na boca, estou triste como todo torcedor e simpatizante anilado….

    Novamente a mesma historia estranha de acertos e desacertos de valores no vestiario voltam a tona na vida deste clube…que coisa, logo na ultima taca….

    Saudacoes a todos e que 2014 para o Noia seja acima de tudo brilhante e com jogadores HONESTOS !

  2. Denis Utzig diz:

    Pois eu posso dizer que perdi alguns fios de cabelo logo após a cobrança de pênalti no final do primeiro tempo.. aquilo era um mau sinal.
    O Pelotas mereceu pelo empenho e força de vontade, já que no toque de bola o Nóia apresentou superioridade. Mas só isso não bastou.
    Falando em lista Zezinho, pode ter certeza que a lista de dispensas que a direção vai apresentar vai mostrar direitinho aqueles que não demon$traram vontade $uficiente na $upercopa, e que e$tavam no aguardo de algum incentivo para levar o Nóia à Serie D.
    Agora é aguardar o ano que vem e reiniciar a batalha.
    Abraço!

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