Ensinando a amar o que está ao nosso toque

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Saímos de casa rumo ao “logo”, como diz o Vicente, no alto de seus três anos de idade. Levei-o junto (como deixá-lo longe dessa possibilidade de ver o time sair campeão de novo em 2013?).  Além de dar uma folga pra patroa na lida com a ferinha, é claro que levei outras artimanhas pro guri: o celular com o “gatinho”, um joguinho que ele fica falando com o celular, o “paninho” (pano sujo, que comprei no Big quando ele nasceu e hoje está em 1/8 do tamanho original), o ursinho Pimpão, presente dado pelos tios Carla e Cachoeira, que ele batizou assim por causa da antiga música do Balão Mágico (que apresentei na tentativa de torná-lo o mais “retrô” possível ) e o “bibi”, a chupeta do mini áureo-cerúleo.  O irmão mais velho Augusto, muito preocupado em torcer pra torcida, junto na aventura.  Digo isso porque ele idolatra a UPP de forma INSANA (tem é que estudar, guri!!!).  Ao adentrar a cancha, começaram os problemas.  Não com o Inter sub-23, mas com o pequeno torcedor, é claro. 

O primeiro gol nem vi, fiquei sabendo depois pelo rádio que tinha começado com o polêmico Igor, tipo de jogador “ame-o ou deixe-o”, mas que vem em fase de amor com a torcida.  Estava administrando a localização de minha turma.  Deixamos o kit mini-torcedor na arquibancada.  Com ele já pendurado na tela, vai dar bom quando crescer!!!  Lembrei do bisavô Carlinhos, em 1995, pendurado – aos 72 anos – após vitória nos pênaltis em um Bra-Pel.  De repente, ao olharmos pra trás, o cusco torcedor estava a “lamber” o bibi.  Nada como ser torcedor de “estádio” e não de “arena” – arena nem cusco tem!!! Iniciou a choradeira do guri… Calma, o cão não levou o bico!  Fui no banheiro e lavei o artefato. Trocamos de lugar e encontramos um simpático casal, que tentou ajudar: enrolaram o garotinho na bandeira azul e amarela, tentaram muito mesmo, mas nada feito. Confesso que já estava louco pra voltar pra casa, mas como alijar o guri de uma possível taça e comemoração de título?  Seria coisa de pai cruel.  Me coloquei no lugar dele.  Imaginem daqui uns 20 anos ele lendo isso aqui…  deve ser muito legal!!!

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Seguimos na Boca, eu hora dando “cacunda”, ora aguentando o chororô do pequeno, mas firme.  Eis que veio o gol de empate, numa linda cabeçada do volante colorado. Pensei: “mais tempo de sofrimento, agora sim tô perdido”.  Já nem me massacrava tanto com o Lobo, percebia que o áureo-cerúleo cansava, a gurizada do Inter com os hormônios a milhão, será que aguentaríamos?  O Vicente fazia o papel de me distrair, assim o tempo passava mais rápido.

Vieram as cobranças de pênalti, o guri despertou: a cada gol do Lobo a carinha se enchia de felicidade! Foi a primeira vez que o vi emocionado com a coisa mais importante entre as sem importância alguma no mundo, materializando nossos desejos de ver em nossos filhos nossa continuidade, a coisa mais linda que existe. Segue Lobinho, meu filho!  Não importa só vencer, importa amarmos o que está ao nosso toque, sempre!

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Foi linda a festa.  Taça, invasão do campo, um torcedor preso pelos fundilhos ao alambrado tentando pular a tela, essas coisas que só no INTERIOR temos.  Lá estávamos nós, eu, Vicente e Augusto dentro da cancha, comemorando com nosso time, campeão do nosso mundinho pequeno e cheio de amor.   Que recordação de um dia tão especial.

Um abraço,                                                                                                                                                                       Leandro Maia Ramalho

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4 Respostas a Ensinando a amar o que está ao nosso toque

  1. Solano diz:

    Sensacional! São essas coisas que me levam ao estádio. Não gosto de futebol na televisão. Gosto é da Boca do Lobo, de correr na tela, de cantar com a torcida. Um dia vou ensinar isso aos filhos também! Vamo Lobo!

  2. Alemao ICO diz:

    Tive que entrar para ler na íntegra. Sensacional, emocionante. Imagino o momento que tivesses. Acho que compartilho com essa mesma filosofia sobre o amar…..Grande abraço meu brother.

  3. Maravilhoso relato, cara. Passei por emoção semelhante, mas sem taça, porque daí já seria pedir demais. :)
    Meu moleque mais velho saiu de Pelotas com nove meses de idade, mas não sem passar por um batismo na Baixada – aliás, a única religião em que o introduzi formalmente.
    Quando ele entrou no estádio de Xavante, o pessoal perto da garra puxou um coro de “é xavantinho”.
    O bicho ainda não caminhava direito, e ficou se equilibrando no alambrado, onde foi beijado por nove em cada 10 bêbados que passavam.
    Quando voltei para casa, com o guri fedendo a cana barata, por pouco não fui corrido por minha minha mulher, que, por desventuras da vida, compartilha da tua paixão.
    “Na Boca do Lobo isto não se passaria”, disse. Vou mostrar teu texto para desmenti-la.
    Vida longa aos homens de tocam as paixões.
    Abraçaço, tchê

  4. Ines Nasser diz:

    Lindo texto, adorei e vou passar para meus filhos. Emocionante… ainda bem que todo trabalho foi compensado com a entrada no gramado para festejar. Abraço!!!

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