Por um tempo, não ouvir-se-ão mais rugidos vindos de Livramento.

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Me peguei agora chorando feito um bebê, sem conseguir parar e sem conseguir imaginar quando é que vai passar isso que estou sentindo. Não consegui nem dar a notícia por telefone pro meu pai sem abrir o berreiro de novo, e acho que durante um bom tempo não vou conseguir falar disso sem que venham as lágrimas e que eu fique com o rosto todo inchado de novo.


Não tenho a mínima expectativa de que quem não é desse meio entenda, ou que muitos compartilhem do sentimento que eu tenho agora, por que sempre fui consciente de que são poucos. Loucos e muito apaixonados, mas poucos.

Hoje a diretoria do Esporte Clube 14 de Julho informou o encerramento definitivo das atividades do departamento de futebol profissional. E acho que minha capacidade de “informar” tecnicamente sobre os fatos não vai muito além dessa frase. Hoje sou só sentimento, e não tenho vergonha disso.

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Esse clube sempre foi muito mais que futebol pra mim, muito mais que o Gauchão, muito mais que a tão disputada copinha. Esse clube foi o que me introduziu no mundo do futebol, que me fez ser tão apaixonada por essa arte, foi a primeira versão de futebol de verdade que me foi apresentado. Vai bem além dos campeonatos, da disputa dentro das quatro linhas.

Ir ao estádio foi um costume que criei quando meu pai começou a me levar desde pequena, e ele apaixonado por “tudo isso” acabou me contagiando e criando mais uma louca apaixonada pelo futebol interiorano. Um costume que se tornou parte necessária de uma relação que é tudo na minha vida, aquele negócio de pai e filha. Ir pro João Martins nos dias e horários mais inusitados, pegar o carro e viajar por aí feito dois loucos atrás do time pra não perder os jogos fora de casa, se meter com a torcida adversária e dar uma de dois leões pra defender o nome do nosso 14, essa é uma coisa que sempre vão ser as “nossas coisas”.

E, além disso, o 14 de Livramento me proporcionou aflorar mais um paixão que até então era desconhecida. As palavras. A entrega e o envolvimento com o clube acabaram me levando a começar a escrever sobre o que estava acontecendo em Livramento, mostrar pra quem tá na cidade que pela falta de informação nem sabe o que tá acontecendo, e mostrar pra quem é de fora que em Livramento também se fazia futebol. E não só pela divulgação, mas como meio de expressar uma parte do sentimento tão grande que me desperta o rubro-negro.

E em mérito disso, que acabei sendo convidada pra participar desse projeto tão GENIAL que é o TODA CANCHA. Escrever junto com torcedores de todo canto do Rio Grande, direto da arquibancada para a arquibancada, foi uma experiência inusitada e MARAVILHOSA, e não sei nem como agradecer pela oportunidade e pelo espaço que me foi dado.

O que foi dito até agora é uma síntese do papel que o 14 de Julho teve na minha vida durante o tempo em que esteve ativo, por que depois da notícia de que não vai mais estar, a única coisa que consigo pensar é no filme que passa pela minha cabeça de tudo que eu vivi e já senti dentro da minha segunda casa que é o João Martins.

Definitivamente não existem palavras que traduzam o meu sentimento agora, minha cabeça ainda não aceita ideia de não vamos precisar procurar novo técnico, de não gritar mais com o juiz, de não poder mais cobrir os jogos, por que não vão ter mais jogos.

Acho que não pode deixar de ser dito e lembrado, que o 14 como um time pequeno e pacato do interior, mesmo com pouca torcida, sempre teve sua torcida. E torcida apaixonada, falo por mim e por quem nunca poupou esforços para apoiar, cobrar, sorrir e chorar junto. E em um momento como esse, o sentimento que fica é praticamente o mesmo de que se eu tivesse me despedindo de um familiar ou de um melhor amigo que está partindo pra longe e sem data pra voltar.

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Não pretendia me alongar tanto, mas acabei usando mais esse espaço para desabafar do que qualquer outra coisa. O que posso deixar de minha parte, é o MAIOR e MAIS SINCERO agradecimento como torcedora. Para cada jogador, técnico, dirigente, membro da comissão técnica, funcionário e torcedor que contribuiu de qualquer forma para que mais uma parte da história do Leão da Fronteira fosse escrita. E a nossa história é linda, não baseada em resultados ou títulos não alcançados. Mas baseada no esforço e na entrega de cada um, no sentimento que sempre nos fez acompanhar o Leão, e no que ele proporcionou pra cada um de nós.

Espero sinceramente que essa não seja minha última oportunidade de escrever sobre o Rubro Negro de Livramento, e que não seja o meu adeus para com o futebol arte do Rio Grande, mas sim um (dentro do possível) até breve.

Com o coração apertado e lágrimas que não param de cair,

Natália Campos.

Publicado em 14 de Julho com as tags , , , , , . ligação permanente.

20 Respostas a Por um tempo, não ouvir-se-ão mais rugidos vindos de Livramento.

  1. o que dizer… na real, o que dizer mais além do que foi escrito acima e do que já escrevi aqui, em textos e comentários, sobre o escárnio a que vem sendo submetido o futebol do interior nas últimas décadas.

    e o mais surreal de tudo: ler essa notícia no mesmo dia em que uma boa notícia é divulgada sobre o meu clube. se pode dizer que são realidades diferentes, mas a realidade atual do 14 é algo que temia em médio prazo pro meu se o que é imposto aos clubes do interior não for afastado.

    minha solidariedade, natália.

  2. Natália Campos, um belo texto, infelizmente com esta triste notícia, sou Xavante e entendo este teu sentimento pelo Rubro Negro de Livramento. O que nos deixa irritados é saber que a FGF apoia tantos clubes “sem expressão” e deixa um clube com a grandeza e tradição do 14 de Julho chegar a esta decisão. Esperamos que seja por um curto tempo, esse afastamento.
    Grande abraço

  3. Cleber Bender diz:

    A verdadeira expressão de amor por um clube, tenho o mesmo carinho pelo TUPY de Crissiumal, e digo, eu vinha me angustiando com a não participação do clube no em competições, este ano fomos abençoados com a conquista do título da série a 2 e classificação para a divisão de acesso, PARABÉNS A DIRETORIA, COMISSÃO TÉCNICA E JOGADORES DO TUPY.”NUNCA ESQUECENDO QUE VÃO SE PASSAR 100, 200 ANOS E ESSE ATLETAS QUE CONQUISTARAM O TÍTULO SERÃO LEMBRADOS. MAIS A FEDERAÇÃO GAÚCHA BEM QUE PODIA OLHAR COM MAIS CARINHO PARA ESSE CLUBES DO INTERIOR QUE FAZEM A ALEGRIA DE TANTA GENTE E DÃO TANTO EMPREGO QUE INDIRETAMENTE, GERA SUSTENTO PARA MUITAS FAMILIAS.

  4. Gladir Azambuja diz:

    E diante desse relato simplesmente emocionante, fica a pergunta: algum dos “craques” que desencadearam o besteirol chamado BOM SENSO F.C. já se manifestou? É nos porões do futebol brasileiro em que se encontram os verdadeiros problemas. É no futebol do interior, esquecido, relegado, segregado, abandonado – claro que tudo feito de forma intencional pelos gestores do esporte no país – que se encontram os maiores dramas. Por isso que sou uma das poucas vozes a se erguer contra essa bobagem protagonizada por esses milionários fanfarrões da bola. Mas não arredo pé! Estão soterrando a rica história do futebol do interior desse país em nome da pasteurização, onde pouquíssimos ganham muitíssimo. E assim, a tradição ficará, em breve, resumida às lembranças de quem ainda tem coragem de escrever um relato como o que lemos aqui.

  5. antonio santos da silva diz:

    É triste saber que um dos mais tradicional clube do nosso Estado, esta fechando seu departamento de esportes. Como aconteceu aqui em Cruz Alta, onde tivemos o S.C.GUARAY, Grêmio Riograndense F.C. e E.C.NACIONAL fecharam as portaspra o futebol E é assim com muitas cidades que estão terminando o futebol, pelo que vejo no futuro só ficara a dupla GRENAL.

  6. carlos alberto de macedo ducos diz:

    NEM O TEU LINDO TEXTO VAI APAGAR A TRISTEZA Q SENTIRÃO TODOS OS AMANTES DO FUTEBOL DO INTERIOR.UM BEIJO

  7. Sergio diz:

    Segundo o site oficial do 14 de Julho, o clube encerrou as atividades profissionais em 2013.
    O 14 não fechou, não parou e etc. Apenas não terá mais jogos profissionais no atual ano.
    Basta olhar o site oficial do clube http://www.14dejulho.com
    O presidente atual vai esperar a próxima eleição e o novo presidente é que vai definir o que será feito. Não há ninguém que diga que não teremos jogos do 14, em 2014.

  8. marcos rossato diz:

    Triste, mais um time. Espero que seja por pouco tempo!! A elite do Bom Senso FC não pensa no futebol de verdade, o futebol do interior!

  9. alexandre diz:

    sou caminhoneiro e por diversas vezes passei por esta cidade e escutava um programa de debate que passa as 17 e 30 a radio não me recordo toda hora os debatentes menos um deles estava jogando confetes e rojões com a probabilidade de um clássico grenal amistoso ser disputado ai. coloquei isso pq vejo na mídia uma grande parcela pelo fracasso dos times do interior através da grenalizaçao e cada vez mais me orgulho de torcer tao e somente para o meu xavante e mais orgulho de ter passado isso para meu filho que assim como eu odeia essa dupla do mal

  10. Natália diz:

    Sergio, eu não sei o quanto ja vistes dessas situações ou o quanto sabe sobre a nossa fase. Mas eu praticamento escrevo em parceria com o Sidnei que é o nosso acessor de imprensa, sempre me baseio nele. E coloco o meu texto dessa forma por que diferente dele que objetiva apenas dar as informações concretas e cruas, eu como torcedora posso acrescentar a minha opinião e a visão realista do que está acontecendo e está pra acontecer.
    Imginar que nas próximas eleições vão trazer um novo presidente disposto a do nada fazer tudo acontecer, é otimismo demais.. O pessoal é conhecido, e só nos baseamos no que já é visto e mais provável, pra sair de uma situação assim precisa bem mais que o otimismo da torcida, infelizmente.

  11. Sergio diz:

    Este é o problema de alguns do interior também. Odiar a dupla grenal e fazer faixa “Anti GRENAL”. Eu não sou anti-nada. Eu sou a favor do meu time, eu torço pelo meu time e colaboro com o meu time. Não sou anti Inter, anti gremio e nem nada. Tem que se preocupar em torcer para o seu próprio time e não contra os outros ou odiar “a dupla do mal”. Guarda esta energia de ódio e transforma ela em garra a favor do teu time e ignora os outros.

  12. Alexandre Maciel diz:

    Perfeita a colocação do Sérgio! Não tenho simpatia por nenhum clube da capital, em especial à dupla. Porém, creio que desperdiçamos uma grande energia com essa história de “anti…”. Pra mim, é ser 100% do meu clube e deu!
    Falando do 14, é uma lástima que a FGF tenha feito o que fez com os clubes da B. Retirar todos os repasses foi uma sacanagem sem tamanho! E tudo isso pensando nos valores que repassa a dois dos filiados!
    E pelo visto, em breve teremos mais torcedores chorando. O próprio Rio Grande apresenta incertezas.

  13. Natália diz:

    E essência não é ser anti o INTER ou anti o GRÊMIO e sim a situação em que cidades como a minha o pessoal como disse meu companheiro Natan, gasta os tubos pra ver a dupla uma ou duas vezes por ano e não pode desembolsar 10 reais por jogo pra ajudar o time da própria cidade, quando diz amar tanto o futebol. Mas ainda sim isso vai de cada um.. O ponto principal é ser ANTI a panelinha da fgf e contra seu sistema absurdo em que o foco é apenas pra capital e time julgados por eles com maior potencial econômico ou sei lá o que, em que pode se esquecer o MÍNIMO de respeito apoio ou consideração com os times mais antigos e tradicinais do interior.

  14. Apenas lamentando o fato do Gladir, no #4, e da Natália, no #13, não terem deixado espaço pra assinar logo abaixo de seus comentários. Nada mais a acrescentar em relação a eles.

  15. Lucas diz:

    Uma pena acontecer isso com o secular primeiro Rubro-Negro do Brasil, um time que tanto debochou do fechamento do seu rival Grêmio Santanense hoje esta indo para o mesmo caminho, sou Xavante e embora fomos muito mal recebidos por essa torcida em Livramento eu nutria uma certa simpatia com esse clube, sua história e localização geográfica. Uma pena os times de tradição cada vez indo para o fundo do poço e perdendo espaço para os clubes empresas.

  16. Ezequiel diz:

    Lamentável mesmo Natália, eu como torcedor fervoroso pelo Juventude que sou, fico triste por isto estar acontecendo mais uma vez com um clube de tradição do interior. Porém nossos dirigentes poderiam fazer a troca de direção na FGF e não o fazem e por este motivo fico me perguntando o por que não trocam de presidente?
    Pois se esta ruim troca-se, mas na hora do voto é a mesma coisa e no final quem paga o pato somos nós torcedores, pois sofremos com o coração. Um grande abraço e pode ter certeza o interior está de “luto” mais uma vez.

  17. Alexandre Maciel diz:

    Ezequiel e quem mais tiver interesse: recebi um arquivo em pdf compactado com o estatuto da FGF e posso garantir: os clubes têm as mãos atadas em relação à direção da federação. Só quem pode intervir é o Ministério Público!

  18. Alexandre, se puder, nos remete esse arquivo pro todacanchars@gmail.com?

  19. Vitor VEC diz:

    Olha, gente; penso nisso e aqui dentro da minha cabeça solucionei várias vezes o problema do futebol do interior.

    Pra Livramento – e todas as outras cidades fronteiriças, a começar pela minha amada e decadente (não necessariamente nesta ordem) Jaguarão – a solução encontrada aqui dentro foi a seguinte:

    Filiar-se à Liga de Rivera. E a partir daí traçar o caminho rumo a Libertadores.

    Mas é claro que isto poderia provocar repulsa aos orientais, até mesmo dos próprios riverenses, que prefeririam o resgate do Frontera ao mundo profesional. Ou fazer do Oriental ou do Sarandi Universitario clubes de expressão nacional.

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