Diante do pior dos cenários, a melhor das estreias

GolDesde que o homem saiu das cavernas para tomar banho de sanga e morar em tapera, sabe-se que clássico é o jogo mais esperado e que mais se quer ser evitado por ambas as torcidas. Quis, no entanto, que o destino colocasse o Clássico do Vale, de volta ao Gauchão depois de 21 anos, justamente na primeira rodada, com a TV COM o transmitindo para todo estado – e todos nós, residentes das duas margens do Rio dos Sinos, nos contorcemos em ódio, calor e uma vontade indefectível de nos trancarmos no banheiro.

Minha PEREGRINAÇÃO ao Cristo Rei mais parecia uma caminhada sem rumo por um deserto de concreto. Morar na Zona Norte de Porto Alegre implica diversas dificuldades LOGÍSTICAS para quem depende do transporte público para rumar à Região Metropolitana. Num domingo essas dificuldades aumentam e o calor ensurdecedor que se fez ontem só potencializou esse sofrimento.

A caminhada de 20 minutos até o ponto de ônibus foi parcialmente amenizada pelas sombras das árvores, porém não se via uma viva alma nas ruas. Cada vez que RESPIRAVA imaginava a sensação mortífera pela qual passam as vítimas de erupções vulcânicas – parte das causa mortis provém da inalação de cinzas vulcânicas que TORRAM os pulmões dos transeuntes.

No ônibus passei perto do Passo D’Areia, onde jogavam São José e Grêmio, e imaginei os dois times desfalecendo naquele inferno verde sintético. A outra caminhada, do ônibus ao Trensurb, fez-se na Avenida Sertório, em que sequer os postes faziam sombra. Me vi de volta ao enorme deserto tórrido, seco e JURÁSSICO que formou os arenitos da formação Botucatu, que embasa o Vale dos Sinos.

Torcedor visitante sofre em todos os estádios.  No primeiro degrau da arquibancada esse escriba que vos fala, de camisa branca, calça jeans e protegendo-se do Sol; ao lado, outro colaborador cancheiro e comentarista desse douto site, Denis Utzig (Foto: Giovani Junior/ECNH)

Torcedor visitante sofre em todos os estádios. No primeiro degrau da arquibancada esse escriba que vos fala, de camisa branca, calça jeans e protegendo-se do Sol; ao lado, outro colaborador cancheiro e comentarista desse douto site, Denis Utzig (Foto: Giovani Junior/ECNH)

Felizmente o TRANSLADO do Trensurb ao Cristo Rei foi feito sob um tempo mais humano e logo nos instalamos nas bancadas do simpático estádio leopoldense, prostrado num bairro residencial muito agradável. Éramos cerca de 100 torcedores anilados, de todas as cores, credos e idades; (des)organizados e arquibaldos, crianças e idosos; bêbados e abstêmios, muçulmanos, cristãos e pagãos; retranqueiros e ofensivistas. Como sói ocorrer em toda torcida com um pingo de dignidade.

No centro da cancha uma OCA de pano, numa grande jogada da direção aimoresista. Não é preciso ser o ZÉ MAYER do marketing para pensar numa forma de promover a imagem do clube – ainda mais um clube que reestreava na elite do TARSÃO após duas décadas. Assim que o trio de apitadores adentrou ao relvado, um ÍNDIO saiu da oca e fez a festa de sua tribo. Minutos depois foi a vez dos gigantes do Vale entrarem em campo – o Aimoré, de azul, e o Noia, de branco.

3-5-2 que iniciou o jogo, em forma de escadinha: Mazinho mais agudo provocou um desequilíbrio na meia-cancha e Rafael Mineiro jogou sozinho

3-5-2 que iniciou o jogo, em forma de escadinha: Mazinho mais agudo provocou um desequilíbrio na meia-cancha e Rafael Mineiro jogou sozinho

O primeiro tempo foi de domínio Capilé. Embora inferior tecnicamente, o Índio foi mais compacto em seu 4-4-2, ganhou a segunda bola, encaixou bem seu meio-campo e fez sua motivação superar a maior qualidade anilada. Por duas vezes os donos da casa quase arrombaram a porteira anilada: em cruzamento da direita, Fred falhou e Cleiton bateu rente à trave; minutos depois, Diego Torres pegou o rebote de fora de área e bateu forte, espantando a coruja de Marcelo Pitol. O Noia, por sua vez, só assustou em uma CASQUINHA de Jonatas Belusso após falta cobrada por Alberto.

A repetição do esquema 3-5-2, dessa vez, não surtiu efeito no Anilado, que mostrou lacunas enormes na ligação entre o meio e o ataque e quase fez Rafael Mineiro morrer de INANIÇÃO na banda direita. Douglas matou três contra-ataques por deficiência no último passe. A torcida se entreolhava e se contentava com um empate sem gols.

Noia voltou no 4-4-2 quadrado e mostrou evolução, com setor ofensivo mais compacto e defesa mais segura

Noia voltou no 4-4-2 quadrado e mostrou evolução, com setor ofensivo mais compacto e defesa mais segura

Na segunda etapa, Itamar Schulle retirou o nervoso capitão Juan Sosa – amarelado após cometer uma dúzia de faltas em Paulinho Macaíba – e colocou Anderson Pico, o LOTHAR MATTHAUS NEGRO e levemente roliço. Armou o Noia no 4-4-2 e passou, enfim, a dominar a peleia.

Aos 26 minutos, numa das poucas jogadas bem trabalhadas, Douglas escorou para Anderson Pico, que invadiu a área e tocou por COBERTURA na saída de Rafael. Rápido como uma flecha, Jonatas Belusso apareceu na pequena área para completar a assistência a abrir o placar para o Anilado.

Jonatas Belusso estufa os cordeis da cidadela aimoresista e abre o placar no Cristo Rei (Foto GIovani Junior/ECNH)

Jonatas Belusso estufa os cordeis da cidadela aimoresista e abre o placar no Cristo Rei (Foto GIovani Junior/ECNH)

Após o tento, o Aimoré quis tomar o FORTE APACHE anil a qualquer custo, principalmente pela bola parada. Qualquer falta cometida pelo Novo Hamburgo na intermediária era arremessada para área do Noia e cada torcedor sofria um microinfarto do miocárdio. Preto e Magno, sem pernas, passaram a acertar menos as bolas e mais as canelas leopoldenses.

Perto dos estertores da partida, o Noia prendia a bola na ponta-esquerda. Quando o Aimoré foi afastar a bola, Anderson Pico deu um bico para defesa, Fred devolveu com outro BAGO, a bola subiu, Lucas Santos fez que não era com ele, a zaga indígena dormiu no ponto e Douglas, até então numa estreia apagada, surgiu das sombras, dominou aquele esférico errante e fuzilou Rafael. Ainda teve tempo para um gol de honra anotado para Lucas Silva, mas nada que tirasse os três pontos anilados.

Luis Henrique voltou ao Cristo Rei bem vestido e foi um gigante na defesa anilada (Foto: Giovani Junior/ECNH)

Luis Henrique voltou ao Cristo Rei bem vestido e foi um gigante na defesa anilada (Foto: Giovani Junior/ECNH)

A vitória, importantíssima, dá moral a um grupo diminuto mas coeso e homogêneo. Itamar Schulle precisa corrigir o posicionamento e movimentação do setor ofensivo – muito inferior numericamente à defesa adversária -, além da bola área defensiva, que causou diversos sustos na torcida.

Na próxima quarta-feira, o Novo Hamburgo enfrenta o Internacional no Estádio do Vale, às 22h, com o Sol escaldante disfarçado em forma de LUA e todos nós esqueceremos o calor por duas horas para nos abraçarmos em prol do Noia e transformarmos o suor natural em sonho úmido e tórrido de mais um triunfo anilado.

Ficha técnica

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Rafael; Alex Herber, Rogério (Danilo Baia), Marcelo Ramos e Juca; Luanderson, Faísca (Renato Medeiros), Toto e Diego Torres; Paulinho Macaíba e Cleiton (Lucas Silva). Tec.: Ben Hur Pereira
NovoHamburgo_45x45Marcelo Pitol; Juan Sosa (Anderson Pico), Fred e Luis Henrique; Rafael Mineiro (Chicão), Alberto, Magno, Preto e Mazinho; Jonatas Belusso (Lucas Santos) e Douglas. Tec.: Itamar Schulle

Como eles foram

Marcelo Pitol: 6,5 – embora as saídas de gol fossem restritas à pequena área, afastou o perigo;
Juan Sosa: 4,5 – só parou Paulinho Macaíba à base de faltas e teve que ser substituído para não ser expulso;
(Anderson Pico: 7,5 – mudou o jogo. Deu bela passe para o primeiro gol e qualidade técnica ao meio-campo);
Fred: 5,5 – inseguro na maior parte do jogo, falhou no gol de Lucas Silva;
Luis Henrique: 7 – um dos melhores em campo, comandou a zaga anilada e saiu bem pro jogo;
Rafael Mineiro: 5,5 – sempre deu opção pelo flanco, mas foi pouco acionado;
(Chicão: 6 – entrou para fazer marcação individual em Macaíba e estancou a sangria no lado direito da defesa);
Alberto: 6 – mais preso à defesa, segurou bem o meio-campo índio;
Magno: 6,5 – muito bem na transição ofensiva. Cansou no segundo tempo;
Preto: 6,5 – prendeu bem a bola e distribuiu bem o jogo. No segundo tempo sacrificou-se mais na marcação;
Mazinho: 5,5 – apagado na ala-esquerda, cresceu na meia no segundo tempo;
Jonatas Belusso: 6 – pouco acionado, não deixou de lutar e foi recompensado com o gol;
(Lucas Santos: 6 – deu vitalidade ao ataque e retornou para marcar);
Douglas: 6 – brigou muito com a bola, mas foi iniciou a jogada do primeiro gol e mostrou oportunismo no segundo.

Bronzeado,
Zezinho

Publicado em Aimoré, Gauchão 2014, Novo Hamburgo. ligação permanente.

2 Respostas a Diante do pior dos cenários, a melhor das estreias

  1. Marcelo Alves diz:

    DA LHE NOIA !, SEREMOS CAMPEOES DO INTERIOR !

  2. Denis Utzig diz:

    Foi uma estréia com o pé direito. Ganhar um clássico na estréia dá uma grande moral ao grupo, ainda mais se for acompanhado com um bom resultado amanhã contra o Inter.
    Meu destaque fora de campo fica com o policial da Brigada Militar, que após a revista nos torcedores sacou uma garrafa de Pitu e sob protestos, esvaziou-a até a metade. Ao ser questionado, ele respondeu: a outra metade fica pra mim…

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