O mexicano da Zona Norte

Foto - Fernando Gomes - Agencia RBS

A novidade veio dar a praia
Na qualidade rara de sereia
Metade o busto de uma deusa maia
Metade um grande rabo de baleia

No último final de semana a bola correu solta pelos verdes gramados do Estado. Claro, não em todos os rincões, nem tão solta e nem tudo é grama. Era fevereiro de 2011 e o São José recebia o Paulista de Jundiaí, na primeira rodada da Copa do Brasil. Na ocasião, o Zequinha começava uma caminhada inédita na Copa Nacional vencendo por 1 a 0 o Galo do Japi. Mas, sem dúvida, a grande novidade daquela quinta-feira noturna na Zona Norte era a inauguração do relvado de plástico PADRÃO FIFA do Passo D’Areia.

Uma semana depois todos já sabiam que o tento solitário de Xavier não foi suficiente para segurar os paulistas no Jayme Cintra, onde os locais impuseram um inapelável 3 a 0 ao quadro portalegrense. Desde então o São José não voltou a disputar a Copa do Brasil e a grama de sua casa continuou plastificada. Como tem ocorrido desde então, no domingo passado novamente a grama que não é grama do Zeca foi notícia na estreia no Gauchão em casa contra o Grêmio.

Num calor DELIRANTE que em Porto Alegre oprime moleiras e empresta fisionomia escaldante aos populares sem rosto, o time de Beto Campos triunfou calientemente sobre a base gremista. Mas isso, inclusive o bonito gol marcado por Jean Silva, ficaram em segundo plano. A questão central voltou a ser o retângulo plastificado. Pela primeira vez ouvi dizer, que a ideia do então presidente do clube Francisco Novelletto Neto em sacar as gramíneas do campo nasceu quando esteve na cancha do Chivas Guadalajara, um ano antes. A novidade e seu grande rabo de baleia representaria poupança com a fácil manutenção e credenciaria o estádio para receber espetáculos além-bola.

Que Chico tenha sonhado em transformar o Gauchão em um campeonato mexicano do extremo sul não duvidamos, mas também é inegável que lhe tenha escapado que viventes com sonhos variados já faz tempo que optam por apartamentos sem carpetes, mesmo que não exista tapete capaz de diminuir o assalto imobiliário vigente no país. Não se trata de sonegar que o presidente e a engenheira agrônoma da FGF tenham conseguido melhorar as relvas do interior gaúcho. No último dia do senhor mesmo, não sei se está no pacote, muito me impressionou a aparente qualidade entre as quatro linhas do Antônio David Farina, a cancha do VEC, que abrigou dois jogos na primeira rodada do Costelão. E no geral, pelo menos na primeira divisão gaudéria, o futebol de potreiro é pura (e necessária) abstração de poetas erráticos. Aliás, esse dado faz transbordar a questão: por que raios transformar o Zequinha em um mexicano da ZN? A resposta não levou em conta o futebol e suas exigências basilares, suponho.

Do final de tarde de domingo pra cá ecoa um conjunto significativo de vozes a condenar o projeto regado a Chivas de Chico, algumas insuspeitas e outras praticando o tradicional e corriqueiro bate & assopra. Mesmo com o fim do negócio entre o comerciante e o clube anunciado no apagar das luzes de 2013, nada indica que sua herança de plástico corra algum risco.

A atmosfera que uma quadra de futebol 7, tal qual o Polideportivo Sur de Envigado, às costas da baliza protegida pela torre da Igreja, empresta DIGNIDADE inarredável ao campo de SAN JOSE. Além disso, a cancha encravada ao norte da Capital é parte do patrimônio compacto e no melhor estilo clube de bairro do Santo José.

Nem tudo que é novo é ruim e nem tudo é bom. Há de se ter cuidado com as novidades que brotam nas areias e no asfalto da Zona Norte.

Saludos,

El Viejo Balejos

A foto é do Fernando Gomes/Agencia RBS.

Publicado em Gauchão 2014, São José com as tags , , , , , , , , , . ligação permanente.

3 Respostas a O mexicano da Zona Norte

  1. sempre é gratificante ler um texto de EVB por aqui. mesmo que seja sobre o são josé.

  2. Matheus Almeida diz:

    Grande EVB.

    Uma pergunta que me vem a mente: todo mundo reclama – torcida, jogadores do Grêmio, direções – mas e os próprios jogadores do Zéquinha? Me parece que o próprio São José é o mais prejudicado e se abstém de opinar. Medo de represálias do Chico?

  3. Balejos diz:

    #2 Acho que é por aí, Matheus. A relação entre o Clube e seus “gestores”, “sócios”, investidores” ou seja lá que nome devam de fato ter não parece suficientemente clara. Agora, que jogar no plástico não é bom pra ninguém isso parece bem claro. Como ex-morador do Bairro Passo D’Areia eu seria adepto do SAN JOSE, já frequentei a cancha em várias ocasiões enquanto vivia próximo, mas a coisa não é clara.

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