Quando janeiro enfim passar

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“[…] gosto de minha vida, ainda que ela te pareça tão miserável e precária como a de um cão raivoso no último dia de agosto.”

(Moacyr Scliar – Mês de cães danados)

É bem provável que janeiro tenha se tornado o nosso agosto.  Ou talvez nunca seja o nosso agosto, pelo simples fato de que este – o injustiçado agosto – não seja nada além de outro mês no calendário. Como todos os outros. Como janeiro. Não é possível mensurar pequenas derrotas; assim como é impossível medir a tragédia pessoal de cada um – seja onde for.

O fato é que janeiro deixa tudo em suspenso. Adia o inevitável, mas, enquanto não chega ao fim, pendura no tempo qualquer coisa que não seja fugaz a ponto de sumir aos nossos olhos. Assim, pode ser – numa metáfora mal e parcamente escrita – qualquer coisa que nos cerque a vida. Inclusive a Divisão de Acesso. Talvez pela mania insistente que temos nós, os únicos loucos que se importam com essa loucura (e que aos olhos dos outros possa sequer fazer o mais remoto sentido) de querer acreditar que o futebol imite a vida, ou vice-versa.

Então, chega janeiro, e tudo para. A bola teima em não rolar mais, mesmo que saibamos que logo ali a frente ela se ofereça a nós e a qualquer um que possa buscar a glória através dela, vencendo a si e amenizando a sua própria derrota, seus próprios fracassos, e trazendo consigo alegrias palpáveis a cada um de nós. Mas isso só virá em fevereiro.

Enquanto ele não nos traz a tranqüilidade nem nos deixa vislumbrar mais de perto a Divisão de Acesso que se avizinha, sem que possamos respirar qualquer resquício de futebol, aguardamos. Como aguardamos que resista ao tempo (ou a janeiro) aquela paixão arrebatadora que surge do nada, numa noite qualquer. Aquela que passa incólume ao inverno, mas que ao primeiro sinal de que as coisas não darão certo, desmorona. Talvez porque os encontros daquelas noites frias de agosto pudessem estar apenas esperando por um desencontro numa tarde quente de janeiro.

Talvez porque nosso maior pesadelo sempre seja – como no futebol – de que as coisas cheguem ao fim antes do tempo. Que acabem antes sequer de começar, e tudo não passe de um devaneio a espera do campeonato que nunca começa. Vivemos da esperança que ele sempre comece. Quando janeiro chegar ao fim.

Por algum motivo, talvez seja o tempo da espera. Da incerteza. Como naquele tempo em que nada era garantia, e a incerteza fosse o que nos movesse a seguir tentando. Se aquelas metáforas sobre o futebol e a vida realmente existem, será sempre um eterno mata-mata. E que nunca haja a monotonia que nos lembrem que tudo pode acabar como qualquer coisa morna como um campeonato de pontos corridos.

O fato é que janeiro vai passar. Como passou qualquer outro dos meses; como passou agosto para quem se entrincheirou às sombras do Palácio Piratini enquanto ouviam aquele homem esbravejar naqueles porões com sua arma a tiracolo, esperando que o mês dos cães danados passasse e viesse a calmaria de um início de primavera. E passará para nós também. Como passará em todos os lugares. Talvez fique ainda a sua sombra, como numa lembrança dos nossos fantasmas, em outra metáfora de nossos medos e temores; ou apenas para que não esqueçamos que ele está ali.

Essa semana, a apresentação do Inter-SM nos trouxe à realidade. Mostrou-nos que, de fato, a bola está por rolar. Para o Inter-SM, janeiro finda quando o reencontro com a torcida acontecer. No dia 23 de fevereiro, enfim, o colorado receberá o Glória, de Vacaria. Badico estará lá novamente, no comando alvirrubro. Ali, saberemos que as coisas estão de volta ao seu lugar. E, num sorriso aliviado, meio de canto, nos tranqüilizaremos. Ali, saberemos que janeiro acabou. Nossos medos – ainda que sejam eles apenas pela incerteza de não ver a bola rolando, por mais infantil que pareça – já devidamente superados, não voltarão a aparecer. No calor dos braços – e abraços – da torcida, serão apenas fantasmas de um janeiro distante.

E, quando ele enfim passar, ainda dê tempo de sentar em algum lugar qualquer de uma praia em Capão, onde nos lembraremos de janeiro. Talvez nesse período leiamos qualquer coisa de Moacyr Scliar ou Rubem Fonseca maldizendo agosto – e nos identifiquemos com isso. Ou apenas leremos qualquer sacanagem do velho Bukowski e sobre como sua única preocupação àquela sua época fosse escrever, beber e foder – e no fundo talvez busquemos apenas isso, enquanto aguardamos que a vida nos jogue de volta ao nosso lugar; às tragédias pessoais – pequenas ou imensuráveis –de cada um. No interior, as batalhas recomeçam, e tudo estará em seu lugar. Quando janeiro enfim passar.

Aguardando ansiosamente que o mês finde,

Nicholas Lyra

Publicado em Divisão de Acesso 2014, Inter SM com as tags , , , , , , , , . ligação permanente.

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