Um gigante adormece na Fonte, mas não nos corações sarandinenses

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Exatamente há 67 anos, nascia o Esporte Clube Ipiranga, fundado no dia 14 de abril de 1947 na simpática cidade de Sarandi. Ali se erguia um gigante, talvez não reconhecido nas capitais do Sul onde os investimentos são maiores, mas um clube que marcou o coração de quem desta localidade é ou meramente foi, não há como não lembrar da paixão que o tricolor de Sarandi despertava em seus torcedores e até hoje é relembrada com carinho e até certo ponto com um gostinho de “poderia mais”.

Resido na cidade há pouco mais de 10 anos, me recordo bem do fascínio que despertava o estádio da Fonte Sarandi, aconchegada em dias de jogos da segundona ou durante as competições de base, com sua simples capacidade de pouco mais de 5 mil pagantes e muitas vezes sem ter sua lotação garantida.

O Ipiranga galgava seus humildes feitos, passo a passo, sonhando com a primeira divisão do charmoso gauchão e tinha sonhos mais pretensiosos, por que não chegar a disputar uma série C de brasileirão?

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Realmente os anos passam, em um passado ainda mais distante do tempo que eu vivi, a esquadra passava por suas batalhas mais ardilosas em busca de um acesso que foi por tantos anos esperado pelos torcedores instigados por elencos pobres em investimento, mas aguerridos em força de vontade.

Lembro me bem do sentimento onipresente de um clube que o povo mantinha com a paixão, pois os investimentos sempre foram escassos, fato talvez que justifique o declínio da atual administração, duvido que algum torcedor em Sarandi não sinta um aperto no peito ao falar do nostálgico tempo em que formávamos times para disputar a Segundona gaúcha, quando havia torcedores apaixonados para acompanhar nos domingos as partidas acirradas na Fonte Sarandi.

Nesse tempo que citei, passamos realmente perto de encontrar, de forma inédita, a elite do futebol gaúcho e afrontar aqueles que têm o monopólio do capital da bola, os grandes de Porto Alegre, Caxias, Pelotas, era com todo esse sentimento que Sarandi esperava ser reconhecida algum dia dentro do futebol.

É  decepcionante ver que o grande Ipiranga, aquele que era guerreiro dentro das quatro linhas, hoje conduz apenas as categorias de base, sem menosprezar o que é feito com a gurizada, pois creio realmente que estejam formando bons jogadores para o futuro e o trabalho dentro da cidade para ajudar as comunidades carentes, através do esporte, é muito interessabte. Há de se registrar também o esforço da prefeitura em tentar arrecadar mais verba para os projetos do clube.

Mas especialmente, recordo aqui dos anos de 2006 e 2007. Para nós, dentro das possibilidades, foram anos incríveis. As pessoas usavam as cores do tricolor de Sarandi com orgulho nos olhos, mesmo sem alcançar o acesso tão desejado, jogamos com garra, com futebol de bom nível e quando necessário contamos com a boa sorte, que infelizmente não nos acompanhou até o final. Fizemos frente a times como São José, Aimoré, Lajeadense, Caxias, Três Passos, Esportivo e tantos outros tradicionais que estiveram na elite ou que batalham por ela, valorizando mais ainda as chaves ipiranguistas nas copas da FGF.

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Talvez o momento mais triste para nós, pudesse ter sido  o de maior euforia. Na decisão por uma vaga ao Gauchão 1992, faltava ao Ipiranga vencer a partida diante dos seus, para, de forma inédita, jogar na elite, filme que passou aos olhos de praticamente todos os torcedores naquele fatídico 1991.

Foi um tempo em que o apoio ao clube era irrevogável a tal ponto, que as empresas e industrias liberavam os funcionários em dias de jogos para lotar o estádio e empurrar o time, fazendo da humilde Fonte Sarandi, um verdadeiro caldeirão. Mesmo com a torcida pegando junto, o futebol apresentado foi pouco para superar o Inter-SM, mas até hoje são levantadas suspeitas a respeito desta partida vencida pelo placar mínimo de 1 a 0.

Dúvidas quanto a uma arbitragem ardilosa, pouco futebol e muita pancadaria esse foi o trágico final do momento que deveria ter sido o mais belo na história do clube. Sabe quando fica aquele sentimento de ausência? É o que vem à minha mente quando corro ao redor do campo ipiranguista e vejo aquela grama verde, pedindo para uma bola rolar ali.

A possibilidade de retornar ao ideal de formar equipes aptas a disputar a Segundona e galgar novamente o sonho dormente, mas presente no coração dos torcedores, alcançar, quem sabe, a Primeirona e lutar até o final por sua sobrevivência enquanto instituição, é remota, mas não impossível. Hoje em dia, o foco é total nas categorias de base, não posso deixar de parabenizar o trabalho que vem sendo feito, neste ultimo ano que passou fomos campeões na categoria 99 e este ano se espera mais ainda da base ipiranguista.

Há uma “promessa” de mais enfoque sobre o clube, espero bons ares, pois mesmo sendo colorado de coração, me apaixonei durante minha trajetória pelo gigante Ipiranga e as cores vermelho/azul do tricolor da Fonte. Em um breve futuro desejo poder relatar que meu time esteja peleando igualmente contra os outros grandes do RS, que com o apoio dos torcedores, possamos nos reerguer e brigar por lugar digno dentro do futebol gaúcho e, quem sabe, sonhar com grandes “acessos”. Por que não? Futebol é mesmo uma caixa de surpresas, já diz o ditado.

De Sarandi, com muita saudade, mas acreditando que voltaremos,

Cristian Petry

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Um comentário em Um gigante adormece na Fonte, mas não nos corações sarandinenses

  1. Fernando Pinto diz:

    Legal! Mais uma história de um time fechado de uma pequena cidade do interior do nosso Rio Grande. Se a FGF fosse um trosso sério, poderíamos ter diversas divisões de Gauchões para que os times continuassem mobilizando suas cidades; e todas as cidades, independentemente de tamanho, pudessem se sentir representadas por um time. Enquanto não ocorre, vivemos de momentos nostálgicos.

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