“O cara tem a sorte de ser xavante a ainda quer ganhar?”

PAPA

– Pai, vamos ficar aqui.

Inácio, meu guri, balbuciou a frase em tom de súplica, trêmulo, e se ajoelhou nas lajotas de cerâmica.

Estendi-lhe a mão e ali, no escuro da cozinha, silenciamos por segundos que pareceram décadas.

Um tempinho antes, aos 48 do segundo tempo, o juiz marcara um pênalti para nós contra o Grêmio. Empatávamos em 1 a 1.

Ok, era o sub-16 dos caras, alguns nasceram minguados cinco anos antes do sujeito ajoelhado à minha frente na cozinha.

Mas, enfim, era o Grêmio. E o papel do Davi é incomodar o Golias, caramba.

Não sei se foi justa, a marcação. O sinal da internet fraquejava e imagem ameaçava congelar.

Só havia uma certeza: nenhum dos dois teria nervos para ver o chute ao vivo.

Ficamos ali encolhidos, esperando a confirmação do gol redentor, que faria ecoar dois gritos isolados pelo céu de São Paulo.

Nada.

Quando tomei coragem e, a passos vacilantes, voltei ao computador para conferir o desfecho, cai no sofá com o rosto escondido nas mãos em concha.

É uma linguagem corporal de desespero, que o Xavante está transformando em lesão por esforço repetitivo.

*

Pensei em correr lá na Cracolândia, onde uma tenda com psiquiatras foi montada para socorrer os “noias”, que é como o paulistano chama, ainda não consegui decifrar se carinhosamente, a horda de zumbis do crack.

Também me dedico com sofreguidão a algo que me faz mal, que me provoca sofrimento, que me acentua um vazio.

Sou um doente e estou, desgraçadamente, infectando o resto da minha família.

*

Fiquei imerso nesta solidão de moribundos enquanto coava a dor ouvindo as rádios de Pelotas. 

Como não me vinha o sono, estava em vigília quando o Rogério Zimmermann começou a coletiva.

E foi ouvindo aquele discurso pleno de serenidade e autoconhecimento que, aos poucos, enxerguei a inconsistência do meu sofrimento e até da metáfora politicamente incorreta sobre o crack, ali no primeiro parágrafo.

Disse o Rogério: “Somos um clube do interior. Temos a obrigação de estar felizes por termos vivido esta noite, que, aliás, só vivemos porque o Rafael (Forster) acertou muitos pênaltis no ano passado”.

Pode soar um discurso conformista, até certo ponto apático, de quem fica resignado às pequenezas. Mas é sobretudo a tradução da essência de um jeito de enxergar a vida que só nestas paixões não correspondidas por “clubes do interior”, como diz o Rogério, encontra um sentido mais amplo.

*

Foi graças ao Xavante, e aos sentimentos que nele orbitam, que passei a semana inteira em contato com gente de quem gosto muito. Daqui de São Paulo, nos cotizamos para financiar 600 balões para a festa no Bento Freitas. Para movimentar naco não desprezível do PIB paulistano para este fim, articulei transações financeiras com o Fábio, o Michel e Aroldo – os dois primeiros, profissionais de TI, caras “do sistema”; o último, professor de alemão.

Bem, como é sabido, jornalista é uma espécie do reino animal que só anda em bando e se reproduz em cativeiro. Devo portanto ao Brasil de Pelotas a amizade com eles, formalizada na razão social Xasampa (Xavantes de São Paulo), traduzida em churrascos onde diluímos a solidão crônica numa cidade de 11 milhões de almas.

Minha irmã, a Milena. Ela trabalha muito. Mora a mais de 1,1 mil quilômetros da minha casa. Raramente travamos horas de prosa. Mas ontem, graças ao Xavante, passamos o dia em contato, rindo, falando besteira, exatamente como no tempo em que dividíamos o beliche lá na casa de nossos velhos.

cici

No meio desta conversa, chegou-me uma foto da minha sobrinha, a Maria Cecília, com o corpanzil de um metro de altura envelopado por uma camisa do clube. Apesar do calor para lá de senegalesco de Porto Alegre, a guria, mesmo gotejando espessamente, se recusava a tirar a camisa. Há um certo masoquismo genético neste negócio de ser xavante.

*

Ontem antecipei a ida ao cinema para não perder o jogo do Xavante, que é isto aqui ó, >, do que o Scorsese.

Entrei na sala às 17h20, o que me permitiria desfrutar das três horas de “O Lobo de Wall Street” sem prejuízo de segundo sequer da partida.

Foi bom ter visto este filme justo ontem. Depois de tudo o que vivi antes do jogo, seria uma ganância capitalista-escrota desejar algo depois.

Como ensina um sábio da arquibancada do Bento Freitas: o cara tem a sorte de nascer xavante e ainda quer ganhar?

Fabrício Cardoso

(com fotos de Ítalo Santos e arquivo pessoal)

Publicado em Brasil de Pelotas, Gauchão 2014 com as tags , , , , , , , . ligação permanente.

19 Respostas a “O cara tem a sorte de ser xavante a ainda quer ganhar?”

  1. Fernando Pinto diz:

    Perfeito, Fabrício! Ontém, depois do pênalti, a mesma linguagem corporal e a pergunta martelando na cabeça: “será que o preço de ser Xavante é não ganhar?”.

  2. Fabrício tá de brincadeira com esse texto. SENSACIONAL. Não dá nem vontade de escrever mais. Chegamos ao ápice.

    Sensacional. Obrigado. Eu tô rouco, xinguei muito o Forster, mas hoje já coloquei a minha camisa preta do Xavante nesse sol de 40 graus. Eita nóis! :D

    Abração!

  3. Marlene Dorneles diz:

    Esse sentimento que tu descreve só quem é Xavante sente e te entende, quanto a chingar o Foster, não consegui, afinal ele é humano, pacivo de erro, não posso chingar mas posso silenciarme embora já esteja planejando a proxima viagem ao Bento Freitas!!!
    Realmente não posso querer mais, fui presenteada, nasci Xavante!

  4. Otávio diz:

    Desde pequeno, especificamente quando o Luizinho errou aquele pênalti contra o grêmio no Olímpico ( eu tinha 10 anos ), eu lembro de pensar um daqueles pensamentos que viram, se não uma promessa, uma marca de caráter.
    O Luizinho é o maior ídolo do futebol que já tive, e antes que alguém estranhe, Milar é muito maior que ídolo apenas, coisas que só o Xavante consegue, transcender qualquer expectativa normal de paixão e idolatria por um clube de futebol. Milar é um Deus da Baixada. Deus=Jesus. Brasil=Milar.
    Isto posto, digo que Luizinho é um ídolo.
    E errando aquele pênalti, muito mais importante que o de ontem, mais que o do Cassel, mais significatvio, pois o Luizinho bateu dezenas de pênaltis dos quais o Torcedor xavante nunca viu um desperdiçado. Apenas aquele. Justo aquele.
    Luizinho desconsolado, chorando como uma criança, foi levado até a Torcida. Que só soube fazer uma coisa: Gritar “ÉLUIZINHOO!!ÉLUIZINHO!!”
    A transmissão que havia sido interrompida na TV antes da prorrogação, permitiu a emoção de ouvir no rádio aquilo que acontecia, enquanto a torcida vencedora dirigia-se pra casa em silêncio.
    Naquele momento lembro de pensar, ” não importa se o Brasil perder, mas essa Torcida tem que ser pra sempre essa Torcida”.
    Até hoje, jogando a segundona 9 dos últimos 15 anos, tenho orgulho. Sou da Maior e Mais FIEL. Para um Xavante, nada emociona mais do que isso.

  5. Fabio Dutra diz:

    Baita texto! Inacreditável o poder de escrita desse Fábricio. Só podia ser XAVANTE!!!!!

    Parabéns pelo texto! Vamos ganhar do grêmio quando precisar, nos mata mata!!!!

  6. # 2

    Pedrão, larga a mão de ser fresco, vai ler um metro de livro por ano e praticar. O mais difícil, que é o coração, tu já tens. Abração!

  7. Aroldo Garcia diz:

    “Há um certo masoquismo genético neste negócio de ser xavante.”

    Amigo Fabrício, torcer pelo XAVANTE é algo como um constante estar entre a sofreguidão e a redenção, é um estado de espírito para além de qualquer ambição vitoriosa.

    Abração!

  8. Peri diz:

    Morando em Porto Alegre ha 11 anos e com um filho de 2 anos e 10 meses, essa foi a primeira vez que consegui estabelecer um contato real dele com o rubro-negro. Sentamos para ver o jogo juntos, mas foi no gol do Papa que ele virou Xavante! Abri a janela e gritei pra vizinhança ouvir: “Vamo meu rubro-negro!!”. Depois disso, a cada lance de quase gol eu tinha um micro-infarto e era ele quem ia até a janela, subia num banquinho e gritava: “rubo-nego!”. É o masoquismo genético dando seus primeiros sinais.
    Sensacional esse texto do Fabrício Cardoso

  9. Eduardo Campelo diz:

    Maravilhoso texto, estou lendo no trabalho e tive que me conter para não chorar. Eu moro em Pelotas, mas já morei um ano em Porto Alegre(1993), e posso dizer pra todos, com toda propriedade, que foi o pior ano da minha vida, era muito difícil ficar longe do nosso templo. Esse amor nunca acaba!!!

  10. Nilvio Benitez Severo diz:

    Excelente texto.Cumprimentos, isto é ser xavante. A vitória é secundária, mas importante, o principal é SER XAVANTE, amar,sofrer,revoltado,pequenas desilusões,grandes e inesquecíveis vitórias, feitos maravilhosos(1950 c/Uruguai,Torneiro da Morte, etc.)Tudo isso nos torna cada vez mais forte e surpreende quem nos conhece.
    Pertenço à Onda Xavante de Porto Alegre. Apreciaria teu e-mail para possíveis contatos.
    Grande abraço, sofras, vivas e permaneça alegre em nome do G.E.Brasil

  11. # 10

    Nilvio, meu e-mail é fabbcardoso@hotmail.com. Apreciaria muito contato de vocês. Abração!

  12. Xavante diz:

    É nóis!!!

  13. Júlio Brauner diz:

    Bah, depois deste texto só resta…torcer mais e sofrer mais ainda com o Xavante.

  14. Marcio Lotufo Valli diz:

    Prezado Fabrício, sou do interior do interior gaúcho, nasci em São Gabriel e vim para Pelotas, quando tinha o tamanho da tua sobrinha na foto acima. Contra o que seria o normal, por ter um pai torcedor do colorado, me tornei torcedor xavante, e ao ler o que escreveu, senti exatamente o que teu texto, através das palavras significa: sentimentos que somente um torcedor pode ter ao rever amigos, que há muito não vê ou que durante a semana sequer falou, mesmo estando perto, e por aí vai… Atualmente, depois de ter ido embora de Pelotas, votado por saudade da minha filha que mora com a mãe, ter sido novamente convidado para trabalhar fora da cidade, tenho orgulho de dizer que faço parte do departamento jurídico do GEB, e pela primeira vez sinto que tenho realmente sorte por ter nascido torcedor xavante, em especial por poder ter outros como eu, apaixonados e capazes de escrever algo como tu escreveu! Sabe que pretendo levar pela primeira vez ao estádio minha filha de 05 anos, no fim de semana – a foto acima confirmou o que sempre soube, filha de xavante, nasce xavante mesmo que não saiba. Abraço!

  15. Leandro áureo-cerúleo diz:

    Fabrício Parabéns!!! tchê, apesar de ser áureo-cerúleo ROXO, “loco de medo de la B”, impossível não se emocionar com tuas palavras, vivemos o último sonho do interior gaúcho, já disse o Vacaria na ZH de hoje, tá muito barbada pra dupla, sinceramente é masoquismo fazer o q fazemos por nossos clubes, já tentei explicar isso pra vários camaradas da “muy leal e valorosa” Porto Alegre, eles insistem: é mentira que tu torce só pro Pelotas!!! O mainstream acaba à conta-gotas com nosso futebol, mas… continuamos sonhando!! e que não nos acordem!!!

  16. Andrea Leripio diz:

    Querido, que lindo texto.
    Moro na España há 12 anos. E nao tem dia que não tenha saudades do meu Xavante.
    Sofro com a distancia e com a diferença horaria. Sofro, grito e me desespero sozinha. Ja nao tenho amigos xavantes por aqui.
    Algumas vezes chamo minha mae por skype e digo: vamos sofrer juntas? Poe o radio ai. Tb pra me certificar q ela nao vai pro campo. Ela é muito pe frio.
    Ser xavante é suficiente pra mim. Sou so xavante e pronto.
    Nao fui seduzida pelos milhões de barcelona e do madrid. Tem q ter mais q dinheiro. Futebol tem q ter alma.
    Em Pelotas, moro na esquina do campo. Lembro de pequena subir no telhado do edificio pra ver os jogos. Ja q guria e pequena nao ia pro campo.
    :-)
    Depois que cresci nao perdia um. Ate vir pra ca. E cada vez q volto pra casa. Vou ali. Pra ver um amistoso. Um jogo. Pra ver o campo.
    Paixões inexplicáveis.

  17. Galo diz:

    RELATO SENSACIONAL! Parabéns ao autor e toda a equipe do Toda Cancha pelo trabalho com o futebol gaúcho do interior. Sou de MG e não costumava saber muito do futebol gaudério, limitando-se ao óbvio Grenal e os incansáveis Juventude e Brasil, mas desde o final de 2013 tenho acompanhado a história desse Gauchão aqui e para ser sincero nem preciso buscar os vídeos das partidas na maior parte das vezes, tamanho a fidelidade, o conteúdo informativo e as peculiaridades recém-descobertas.
    Os relatos feitos com alma e na base da raça muitas vezes jogam o futebol para o segundo plano, sobressaindo a paixão pelo futebol de cancha interiorana. Além da qualidade de prosa e textos muito bem feitos, que só cabem à raríssimas exceções hoje na grande imprensa. Longa vida ao Toda Cancha!

  18. Everton Samuel Marques Costa diz:

    Sensacional !!! A sensação é de um nó na garganta.

  19. Everton Samuel Marques Costa diz:

    Sensacional !!! A sensação é de um nó na garganta.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *