Introduzam os números nos recônditos da retaguarda

Torcida Xavante

Não me sinto autorizado a acreditar na matemática como ciência exata. Exatas são as certezas, pois, mesmo sob temperaturas hediondas como as deste verão, não derretem. Seguem sólidas como as coxas da Sabrina Sato. A flacidez da matemática se deve à nossa disposição de violentar os números em favor de crenças e, justamente por isto, amo a dúvida cada vez mais. Bueno, já estou velho para resmungar das canalhices da espécie. O homem é um desonesto por natureza. Mas me permito uma pergunta: por que, Nossa Senhora do Arroio do Pepino, a gente precisa de estatísticas para legitimar sentimentos?

Longe de mim superestimar a inteligência do torcedor, sobretudo o gaúcho, dominado por adeptos do estica-embaixo-e-puxa-e-vai incapazes de compor mais de uma estrofe, a não ser em espanhol. Desde que saiu no Globoesporte uma pesquisa de um certo Instituto Pesquisas de Opinião, vulgo IPO, lá da minha Pelotas, fomos dominados por um debate ao estilo meu pinto é maior que o seu. Que gremistas e colorados se prestem a tal papel, nada mais previsível. Mas me caem os butiás do bolso vendo meus irmãos xavantes sucumbindo ao impulso matemático incompatível com paixões artesanais. São eles, os grandes, que gostam de contabilidade e balancete. Nosso negócio é manufaturado.

Nem entrarei em pormenores dos números do IPO, em protesto. Só pinço um fragmento para ilustrar meu comentário. Lá está dito que, em Pelotas, gremistas somam 40% dos afetos, contra 9% dos xavantes. Ok, embora cegos de arrogância fiquem enchendo o saco do pessoal de Caxias, há também uma penca de pelotenses lambendo as botas de clubes da capital, e não é de hoje.

Mas alguém poderia me explicar por que, em mais de um século, o Grêmio jamais foi maioria no Bento Freitas? Naquele fatídico um a um com o sub-16 deles, dias atrás, havia uma faixa de Santa Maria na arquibancada dos castelhanos genéricos. Se há tantos pelotenses “gremistas”, por que importaram apoio do centro do Estado? Fiz estas perguntas por pura retórica. A resposta é simples. Os tais “torcedores” auferidos pelo IPO são como católicos não praticantes: só veem o padre quando se casam ou batizam os filhos, não necessariamente nesta ordem. E liturgia que se preza, na igreja ou no estádio, só deve considerar os que têm fé sincera. O resto é, bem,… estatística.

Os xavantes professam um consciente coletivo não exatamente discreto. Somos ruidosos quando em bando. Talvez venha desta sonoridade bruta a impressão de que somos protegidos, queridinhos da imprensa da capital e outras maledicências. É um rugido que chama mais a atenção do que meia-dúzia de playboys escondidos por trapos, ladeados por senhores comendo amendoim. Entendo, portanto, meus colegas. Jornalismo se faz na exceção, não na regra. Mas eu seria um cretino se acreditasse que o amor se mede pelo grito. Mais: seria um cretino se acreditasse que amor se mede para fins de comparação. Os xavantes que gostaram desta pesquisa, inclusive a assessoria de imprensa do clube, que saiu-se fazendo marketing apressado, têm pendores para a cretinice.

Outro dia, estive no Canindé, meu estádio preferido em São Paulo, até porque, em razão daquela desonestidade humana ancestral, ainda não fui à Rua Javari. Nunca vi tanta amargura numa arquibancada. Aos cinco minutos do primeiro tempo, estavam todos sentados, sofrendo num silêncio cortante interrompido por rosnados. E o time jogava bem, hein. Jamais conseguiria ser um deles, pois sou mais expansivo. Preciso dar publicidade às minhas dores. Mas vi ali, no semblante corroído dos torcedores da Lusa, que a potência na expressão do sentimento não define a profundidade.

Portanto, sugiro pararmos de nos preocupar com quantas almas compartilhamos a dor e a delícia de ser quem somos. Não sou nenhum misantropo, adoro pessoas e vivo em função delas. Mas se eu esperasse os outros para definir do que gosto, estaria agora assinando o pay per view do MMA e comprando passagem para fazer compras em Miami, porque, na Europa, não tem shopping, tudo é muito velho e cheio de museu chato.

As melhores coisas da vida não precisam da matemática nem da multidão para fazer sentido, em resumo.

Fabrício Cardoso

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10 Respostas a Introduzam os números nos recônditos da retaguarda

  1. ivan diz:

    Fabricio, achei excelente teu artigo. Fiquei muito irritado com tantas postagens sobre a tal pesquisa, no facebook. Acredito que a foto que usastes mostra que são bem mais numerosos os torcedores xavantes em Pelotas do que qualquer outro time. 40% de gremistas na cidade deveriam ter lotado o espaço destinado à torcida visitante…

  2. mais do que isso, ivan.

    a análise do fabrício vai muito mais a fundo, passando por cima dessa punheta grenal de quem é maior que quem, que insiste em contaminar o interior. e este, por sua vez, deveria estar mais preocupado em sobreviver e seguir dando valor aos malucos que seguem seus clubes do que entrar nessa paranoia de números que, na boa, nunca levou a nada.

  3. Régis diz:

    Esse vídeo, bom e velho, sublinha o que o Fabricio disse:

  4. Gilberto Xavante diz:

    Uma pesquisa en que Luverdense ter mais torcedores em Porto Alegre do que o Xavante, assim como o Três Estrelas (quem?) na grande Porto Alegre, é de doer …

    Nem gre nem nal, Xavantes da Capital que ontem lotaram o trensurb para ir a Novo Hamburgo.

  5. Gilberto Viola diz:

    Luverdense ter mais torcedor que nós em Porto Alegre, assim como o Três Estrelas (quem?) na grande Porto Alegre, é de doer …

    Para a torcida do Três Estrela, só a GraXa já basta. Nem precisa da AXaSinos.

  6. Ivan, Franco, Régis e Gilbertos: o cara passa a vida inteira acossado por números. É nota na escola, é meta para atingir, um sufoco geral. Porra, poderíamos deixar o futebol fora desta, né? Também pesquisa de opinião está transformando o mundo no reino dos medíocres. Se uma pesquisa tivesse aconselhado Machado de Assis a deixar mais claro que a Capitu meteu uma guampa no Bentinho, clássico reduzido a uma historinha de adultério – e um povo babaca feliz. Abraçaço a todos

  7. Leandro áureo-cerúleo diz:

    faço parte dos “playboys”, vejo vários tios comendo amendoim… questão de identidade, combinam mais comigo que charanga com samba, mas sou só E.C.Pelotas!!! essa soberba Xavante é triste, eu respeito demais a torcida de vocês, este desmerecimento constante e imortal que vcs têm com os outros , a meu ver, acaba apequenando o Brasil. De qualquer maneira sempre gosto do que escreves Fabrício. Abraço

  8. #7
    Leandro, aceito o carimbo de arrogante. Só esclareço que, neste caso, exagerei nos traços para criar uma caricatura e ressaltar diferenças mais como jornalista do que como xavante. A turma vive exigindo tratamento e espaço igual, o que acho um erro. Primeiro, porque isto não e assim tão importante. Segundo, porque, como disse no texto, notícia se faz na exceção. Mas esta exceção não nos faz mais apaixonados do que ninguém. Nem melhor. Estamos no mesmo barco, irmão. Grande abraço

  9. Alexandre Maciel diz:

    Fabrício, o teu forte é exatamente tocar nas coisas que saem totalmente do senso comum. Aliás, tu consegues destoar até de quem está de fora. É justamente por situações como a que colocaste sobre Machado de Assis, Capitu e Bentinho que acabam colocar os teus textos em destaque, mesmo que a citação tenha sido nos comentários.
    Em relação ao comentário do Leandro, tem algo em que concordo plenamente: questão de identidade. Gostar de uma torcida mais ao estilo platino ou ao estilo “carioca” é pura opção de pertencimento. Quanto à arrogância, é dominante em toda e qualquer torcida. Todas costumam se julgar “maior”, “melhor”, “que mais…” e daí pra fora. Creio que o diferencial do caso xavante é o fato de ter quantidade e de ser ruidosa, portanto, acaba destacando-se no meio e recebendo reconhecimento alheio, seja através de comentários jornalísticos, seja por críticas ferrenhas de outrem.

  10. Ivan diz:

    Bah! Excelente texto.
    Tocaste no ponto da questão.
    Por que torcemos para um clube, no nosso caso o Xavante?
    A resposta é simples. Porque é bom, porque nos faz bem.
    Abs.

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