Nos trilhos da ilegalidade

1967

Na madrugada do dia 31 de março de 1964, tropas militares comandadas pelo general Olímpio Mourão Filho saíram de Juiz de Fora, em Minas Gerais, em direção ao então estado da Guanabara para romper com a constituição e deflagrar um golpe militar contra o governo legal de João Goulart. Essa ação emergiu brevemente em 1961, mas fraquejou diante da Campanha da Legalidade constituída por Leonel Brizola. Três anos mais tarde, o movimento ganhou força e a falta de reação do governo e dos grupos que lhe davam apoio foi notável.

Além das Forças Armadas, o golpe contou com o apoio de pessoas e entidades da sociedade civil, de importantes órgãos de comunicação, de religiosos influentes na igreja católica e, especialmente, com o substancial amparo norte-americano. Em 1964, Santa Maria possuía o segundo maior contingente militar do país, atrás apenas do Rio de Janeiro. Pouco mais de 120 mil pessoas habitavam a cidade, que já recebia a condição de núcleo ferroviário mais importante do Rio Grande do Sul, por estar localizada na região central do mapa.

Santa Maria se dividiu diante da intervenção militar. Enquanto o lado contrário ao golpe, capitaneado pela classe ferroviária junto aos representantes civis alinhados ideologicamente a Jango, tentou resistir, o aparato militar e as forças conservadoras, em especial do segmento rural, integraram o polo golpista.

A articulação da nova tentativa de impedir João Goulart de realizar as reformas de base previstas em seu plano de governo ganhou força em Santa Maria, em 1962, quando Olímpio Mourão Filho era comandante da divisão local do Exército. Mourão Filho foi transferido para Juiz de Fora em 63 e Mario Poppe de Figueiredo assumiu e, imediatamente, tomou conhecimento da estrutura político-social da cidade e passou a monitorar os ferroviários.

No transcorrer de 31 de março para 1º de abril, os ferroviários aderiram ao pedido do Comando Geral dos Trabalhadores e entraram em greve. O momento era de tensão na cidade. A greve e as informações inconsistentes sobre a situação no restante do país traziam ainda mais desconforto. Logo na manhã do primeiro dia de abril, a 3ª Divisão de Infantaria acata ao golpe e sitia Santa Maria, ocupando os pontos mais sensíveis, como a Viação Férrea, a central telefônica, os correios e as rádios Imembuí, Guarathan, Santamariense e Medianeira.

Quando a capa do jornal A Razão, então integrante dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, anunciou no dia três de abril que o presidente da Câmara Federal, Ranieri Mazzili, era presidente, consumou-se o golpe. E foi A Razão que consentiu que a ditadura se confirmasse e ganhasse simpatizantes por meio de suas páginas. Militares, diretores da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado, a Farsul, liberais elitistas e religiosos conversadores tinham espaço garantido no jornal para exaltar a “revolução democrática” e agradecer a coragem das Forças Armadas em salvar o país da “ameaça comunista”.

rio branco

Os ferroviários encerraram a greve forçadamente. A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), fundada quatro anos antes, tinha no seu idealizador e reitor, José Mariano da Rocha Filho, um incentivador da conjuntura ilegal. A Universidade abrigou no prédio da reitoria a Assessoria Especial de Segurança e Informações (AESI) que tinha como objetivo delatar pessoas da comunidade universitária pejorativamente chamadas de subversivas. O órgão funcionou até 1986 e o cofre que continha as informações de alunos, professores e servidores jamais foi encontrado.

Além da perseguição e autocensura, a UFSM, inserida na estrutura proposta pela ditadura, atuou como incentivadora do golpe por meio de sua administração. O contato próximo com o regime, desde o seu início, é comprovado pelo título honoris causa concedido ao marechal Artur da Costa e Silva, em 1969, pouco antes de sua morte. O Diretório Central dos Estudantes, na época presidido por Paulo Jorge Sarkis, hoje ex-reitor e réu na Operação Rodin, adotou uma postura comedida e que contentava aos militares.

Embora houvesse força de esquerda na UFSM, a resistência mais notável emergia dos secundaristas. A criação do Grupo de Vanguarda Cultural (GVC), em outubro de 1964, trouxe para a sociedade santa-mariense a contestação política por meio da arte. O primeiro presidente do grupo foi o atual governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro. Dois anos mais tarde, os componentes do GVC realizaram a Passeata dos Bixos de 1966, que se opôs ao regime e aos estudantes que formavam o DCE. O Grupo de Vanguarda se dissolveu em 68 com o AI-5 e seus integrantes entraram na resistência clandestina.

Perto da Gare da Viação Férrea, ponto de alto controle militar, estava o Estádio dos Eucaliptos, casa do Riograndense Futebol Clube. O clube foi fundado por ferroviários no dia 7 de maio de 1912, momento em que a ferrovia movimentava praticamente toda cidade, trazendo progresso econômico e desenvolvimento social e cultural. Nos idos de 1960, o Riogradense ainda sustentava o fôlego acumulado nos anos de hegemonia do setor ferroviário como principal meio de transporte. Em abril de 1955, o esmeraldino inaugurou os refletores dos Eucaliptos, efetivando a primeira iluminação de estádio de futebol do interior gaúcho.

Além do tradicional clássico citadino, o Rio-Nal, times de fora excursionavam por Santa Maria, como aconteceu com o Bangu e o Botafogo, do técnico João Saldanha, em 1957.  Em 1958, o Riograndense foi Campeão Regional de Futebol, seguido pelo título de Bi-Campeão Regional da Zona 3 em 59. Em 1963, um ano antes do golpe militar, o Periquito de Santa Maria sagrou-se novamente Campeão Regional da Zona 3. A Zona 3 era formada por clubes de Santa Maria, Cruz Alta, Passo Fundo e Cachoeira do Sul.

No final da década de 1960, devido ao mau momento vivido pela Viação Férrea e ao panorama político que envolvia os ferroviários, o Riograndense foi atingido na sua gestão e na construção das equipes de futebol. Coube ao Internacional de Santa Maria ter domínio sob o cenário local. Com o intuito de resgatar os times vitoriosos, no início dos anos 70, jogadores de expressão no futebol vestiram a camisa rubro esmeraldina. Como consequência vieram os títulos municipais de 1973 e 76. A torcida acreditou que os tempos áureos poderiam voltar, mas os novos tempos haviam começado, os problemas estruturais e financeiros cresceram e até mesmo a identidade ferroviária se desgastou.

1978

Em 1978, o Riograndense reuniu todas as suas forças para buscar o acesso. E conseguiu. Com um elenco recheado de jogadores considerados de alto nível no cenário regional, o clube perdeu apenas uma partida das que disputou. Dos 82 pontos, conquistou 59. Campeão da Divisão de Acesso, o Riograndense quase não disputou a Série A em 79.

O Conselho Nacional de Desportos, órgão regido pela ditadura militar, exigia que todos os clubes apresentassem um documento para disputar competições oficiais. O então presidente, Ronald Garcia, no entanto, disse que a possibilidade de não disputar era grande, pois não havia tempo e dinheiro para conseguir a liberação. O atual secretário do clube e ex-cabo do Exército, Arizoli Vaz, contatou um amigo que trabalhava no Conselho e que presenteou o clube com a documentação. Disputou o Gauchão e fechou as portas. O desmantelamento da Viação Férrea e a falta de incentivo governamental fizeram o Riograndense enfraquecer e se desfiliar da Federação Gaúcha de Futebol.

Os principais patrimônios do Riograndense, como os refletores que tanto empolgaram a torcida na década de 1950, viraram moeda de indenização. No tempo em que ficou fechado, o gramado dos Eucaliptos virou até uma pista de motocross. A instituição reabriu as portas apenas em 2003, quando sagrou-se Vice-Campeã da Série C do Campeonato Gaúcho. Desde lá, disputa a briosa Divisão de Acesso em busca de uma vaga na elite.

Cinquenta anos mais tarde, a esfera política em Santa Maria mantém suas raízes conservadoras. Atitudes da administração do atual prefeito César Schirmer resgatam algumas memórias sombrias da ditadura militar. A truculência da polícia e a falta de punição aos órgãos públicos se assemelham ao que era apresentado nos 60, 70 e 80. O Riograndense, por outro lado, não apresenta o futebol vitorioso de décadas atrás, mas trabalha para que o torcedor esmeraldino volte a sentir, dentro dos Eucaliptos, o orgulho da força ferroviária.

Bernardo Zamperetti.

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6 Respostas a Nos trilhos da ilegalidade

  1. Ivan diz:

    Bernardo.

    Muito bom artigo.
    Informativo, saudoso e com uma certa esperança por dias melhores.

    Abs.

  2. Pingback: Impedimento.org » Nos trilhos da ilegalidade

  3. Bruno diz:

    Muito bom!
    Minha única ressalva, a adoção de “madrugada do dia 31 de abril” foi uma pequena manobra dos militares pra evitar que sua “revolução” fosse lembrada no dia 1º de abril, dia dos tolos.

  4. Balejos diz:

    Ótima retomada, Bernardo!

    Além de recuperar o tempo sombrio do Regime Militar em Santa Maria, também é bastante interessante, pelo menos eu acho, a relação entre a constituição da malha ferroviária brasileira e o surgimento da prática do futebol em várias localidades. 2014 marca 50 anos do Golpe Civil Militar e, por algumas manifestações já realizadas em defesa do regime autoritário implantado e da materialidade das homenagens aos ditadores, a memória desse período ainda está (e deve continuar por um bom tempo) em disputa. Grande iniciativa do Toda Cancha discutir o tema.

  5. Matheus Almeida diz:

    Que texto!

    O São Paulo também surgiu sob trilhos. A alcunha Leão do Parque deve-se justamente ao fato de o Aldo Dapuzzo ser construído na Linha do Parque, onde os trens circulavam diariamente. Inclusive a construção da ferradura foi impulsionada por alguns “saques” dos vagões que passavam carregando materiais de construção. Linda história do Esmeraldino!

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