Catarse úmida e simbiose orgástica: a volta do bom futebol e da vitória anilada

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Torcida não ganha jogo sozinha, por questões óbvias, mas ajuda, e muito, quando pode. A noite chuvosa da última quarta-feira espantou a já diminuta torcida anilada, juntamente com a campanha pavorosa recente do time. No entanto, num acordo mútuo e silencioso, feito no fio do bigode e apenas na troca de olhares, quem esteve ontem no Estádio do Vale apoiou sua equipe durante os 90 minutos, negando-se – como esse escriba – até a xingar o Fred, algo tão difícil quanto à recusa de um copo de whisky por um alcoólatra.

Cachorro picado por cobra tem medo de linguiça e depois que come ovelha, late até para pelego. Assim é a relação com o rebaixamento por parte de quem já chafurdou nos mais lamosos potreiros do subsolo do futebol gaúcho, procurando a dignidade perdida em algum lugar entre Taquari e Bagé. Olhando mais para a ponta de baixo da tabela do que para o topo, o Novo Hamburgo entrou em campo especulando a vitória a qualquer custo contra o Passo Fundo e a torcida, mais do que ninguém, sabia que o triunfo era necessário para espantar qualquer fantasma mais nebuloso.

Na casamata, o auxiliar-técnico Gerson Gusmão assumiu o lugar de Itamar Schulle, que ficou nas cabines devido à suspensão – quando a fase está ruim, até o treinador fica de fora. Zé Carlos voltava ao miolo de zaga, Paulinho à lateral-esquerda, Preto à regência da orquestra e Lucas Santos ganhava nova chance no ataque. Nas bancadas, uma torcida vibrante, que jogou junto, e teve a companhia dos lesionados Rafael Mineiro, Mário Larramendi e Sousa, do suspenso Juan Sosa e do terceiro goleiro Simão. Atletas, comissão técnica e torcedores urraram em tom uníssono toda e qualquer instrução dirigida a quem estava em campo – e de forma propositiva.

Com a bola, o Noia armava um 4-4-2 em losango, priorizando as triangulações

Com a bola, o Noia armava um 4-4-2 em losango, priorizando as triangulações

Como há tempos se clamava nessa tribuna, o Noia assumiu as rédeas da peleia, ditou o ritmo de jogo e promoveu o retorno das triangulações. Com Preto na meia-cancha o jogo fluiu com maior facilidade, Lucas Santos arrastou a marcação para todos os cantos possíveis, Douglas trombou – e ganhou – da zaga adversária e Zé Rafael trouxe malemolência à zona do agrião. E o mais importante: o sistema defensivo não falhou em momento algum.

Quando o Passo Fundo atacava pelo alto, o Noia posicionava-se no 4-1-4-1, com Chicão fazendo a lateral-esquerda e aumentando a estatura; Alberto recuava quase até o miolo de zaga e Lucas Santos fechava na meia-direita

Quando o Passo Fundo atacava pelo alto, o Noia posicionava-se no 4-1-4-1, com Chicão fazendo a lateral-esquerda e aumentando a estatura; Alberto recuava quase até o miolo de zaga e Lucas Santos fechava na meia-direita

Após gols perdidos por Lucas Santos e Zé Rafael, ambos em belas tramas, Douglas pifou o meia proveniente do Coritiba, que, com categoria, bateu de canhota no canto de Bruno Grassi. Na comemoração, um símbolo das equipes de Itamar Schulle: todos os jogadores abraçando-se na casamata e comemorando junto ao torcedor que berrava na grade.

No intervalo, enquanto esfriávamos os ânimos no restaurante do estádio e confabulávamos sobre o futuro do clube, uma cena me chamou a atenção: além dos brigadianos, um senhor, com abrigo preto e a camisa anilada, jantava silenciosamente e solitário. Se tem uma coisa que sempre parte meu coração é ver um idoso comer sozinho. Estaria ele aproveitando o horário da refeição que faria em casa fazendo-a na cancha? Ou sua relação carnal com o clube é tanta que até a janta é realizada no estádio?

Após estufar os cordeis da cidadela rubro-verde, Zé Rafael junta-se aos companheiros na casamata (Foto: Giovani Junior)

Após estufar os cordeis da cidadela rubro-verde, Zé Rafael junta-se aos companheiros na casamata (Foto: Giovani Junior)

Essa simbiose se desenhou com maior nitidez ao voltarmos para segunda etapa, quando esse mesmo senhor ignorou a chuva cada vez mais forte, os eventuais puxões de orelha de sua senhora, e manteve-se junto à grade, levando água na cabeça e empurrando o time para frente – se não de forma literal, de forma metafórica; como se o futebol não representasse os sonhos e angústias de uma vida inteira, não é?

Na segunda etapa, apesar da entrada de Peixoto no lugar do lesionado Chicão e formando um 3-5-2, o Noia não se acadelou, recuando brevemente, mas ditando o destino da partida. A segunda bola era sempre do Anilado, que ganhava todas as disputas individuais. Alberto mostrou-se um leão na cabeça de área e Lucas Santos puxou todos os contra-ataques pela banda direita. Magno, improvisado na lateral-direita, não permitiu a passagem de nenhum rubro-verde naquele setor, além de apoiar o ataque com a posse de bola.

A formação do segundo tempo permitiu ao Noia jogar no contra-ataque e não perder a meia-cancha

A formação do segundo tempo permitiu ao Noia jogar no contra-ataque e não perder a meia-cancha

As chances aumentaram e o desperdício também. Zé Rafael, querendo se consagrar, falhou duas vezes diante da baliza. Douglas chegara atrasado em cruzamento de Magno. E foi Jonatas Belusso, começando uma partida do banco pela primeira vez, após ingressar no lugar do extenuado Lucas Santos, que consolidou a vitória: cabeçada de Alberto, linda infiltração no meio de três defensores do Passo Fundo, e a calma que só os bons atacantes tem para anotar o tento redentor.

Jonatas Belusso, o Cristiano Ronaldo hétero: 'eu estou aqui'. (Foto: Giovani Junior)

Jonatas Belusso, o Cristiano Ronaldo hétero: ‘eu estou aqui’. (Foto: Giovani Junior)

Ainda tivemos que amargar o gol de honra de Rodrigo Vareta, porém também é verdade que quase ampliamos o placar em duas oportunidades, com Paulinho e Alberto. O triunfo anilado vem em boa hora e, sobretudo, com ótimas atuações individuais e coletivas. É possível o Novo Hamburgo jogar bem e vencer, basta o empenho de todos e jogar com a corda esticada.

Preto, 'EL ZAPATERO', voltou ao time - e o bom futebol também (Foto: Giovani Junior)

Preto, ‘EL ZAPATERO’, voltou ao time – e o bom futebol também (Foto: Giovani Junior)

Quando precisar, a torcida jogará junto. E jogadores e adeptos poderão gozar em catarse coletiva das chamas das vitórias, que nem as últimas tormentas poderão apagar.

Ficha técnica

NovoHamburgo_45x45Max; Magno, Zé Carlos, Fred e Paulinho; Alberto, Chicão (Peixoto), Preto e Zé Rafael (Bruno); Lucas Santos (Jonatas Belusso) e Douglas. Técnico: Gerson Gusmão (interino)
PF  Bruno Grassi; Rodrigo Vareta, Ediglê, Gustavo e Vavá (Cassiano); Bruninho,      Everton Garroni, Mateus Santana e Lenilson; Hyantony e Felipe  (Ramazotti). Técnico: Luiz Carlos Winck

Como eles foram

Max: 6,5 – mais uma atuação segura, sem culpa no gol;
Magno: 7,5 – improvisado na lateral, não deixou passar nada por seu setor e ainda apoiou o ataque;
Zé Carlos: 7,0 – ganhou todas as disputas com o ataque adversário, por cima e por baixo;
Fred: 6,5 – primeira boa partida no campeonato;
Paulinho: 7,5 – outro que não pode ser reserva;
Alberto: 7,5 – redimiu-se do erro grosseiro contra o Grêmio e mandou prender e soltar na meia-cancha;
Chicão: 7,5 – fechou bem como lateral-esquerdo sem a bola e deu opção no ataque;
(Peixoto: 6,0 – entrou para ajudar a bola aérea e não comprometeu);
Preto: 8,5 – um maestro na armação e um leão na marcação;
Zé Rafael: 8,5 – construiu todas as boas jogadas de ataque e ainda deixou o seu;
(Bruno: sem nota – entrou no final só para matar tempo);
Lucas Santos: 7,5 – ainda que tenha perdido um gol, puxou todos os contra-ataques e voltou para marcar;
(Jonatas Belusso: 8,0 – na primeira jogada, matou o jogo);
Douglas: 8,0 – teve seu dia de garçom, pifou Zé Rafael no gol e deu outros diversos belos passes.

 

Em chamas,
Zezinho

Publicado em Gauchão 2014, Novo Hamburgo, Passo Fundo com as tags , , , , , , . ligação permanente.

Um comentário em Catarse úmida e simbiose orgástica: a volta do bom futebol e da vitória anilada

  1. Denis Utzig diz:

    Redentora esta vitória.. Boas atuações, tanto individuais quanto coletivas.
    Quanto ao texto, novamente muito bom! Mas onde eu estava no intervalo que não vi aquele senhor citado sentado à mesa? Acho que algum copo qualquer ofuscou minha visão.
    Se jogar hoje contra o São Luis com a mesma intensidade, jogamos de vez pela janela qualquer chance de rebaixamento.

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