Noites sem fim em Bento Gonçalves

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“Todas as famílias felizes se parecem, as infelizes não”.

(Liev Tolstói – Anna Karenina)

Entrei no bar quando faltavam cerca de vinte minutos para as quatro horas da tarde. Lembro-me bem devido a incessante mania de conferir a cada instante o relógio. Não fazia muito tempo que eu chegara a Novo Hamburgo. Havia enfrentado, claro, uma movimentação atípica, devido ao grande fluxo de veículos pintados de vermelho convergindo rumo a Serra gaúcha. Mas não me incomodei. Era domingo, e aquela movimentação era típica de tardes de futebol, mesmo que restrita às cores das quais não visto e em absoluto compartilhava de tal sentimento.

Aquele bar era simples e, embora fosse muito a Novo Hamburgo, jamais havia entrado lá. Possuía uma pequena área aberta, cercada por tapumes baixos, com um pequeno muro de tijolos de cerca de setenta centímetros. Havia uma mesa de sinuca, daquelas com fichas que podiam ser compradas no caixa. Em uma das extremidades, havia uma jukebox antiga, na qual os freqüentadores poderiam escolher seus sons preferidos, desde que estivessem dispostos a inserir ali algumas moedas para ouvi-las. Na parte destinada ao atendimento, encontrava-se por sobre o balcão uma tampa amarela – provavelmente para quando o estabelecimento fosse fechado – e três pessoas, dois homens e uma mulher, revezavam-se na atenção aos poucos clientes que ali se encontravam.

Pedi um pastel e uma cerveja, porque apesar de os dias já estarem mais amenos em março, fazia um calor ainda esperado para a época, sobretudo no Vale dos Sinos. Lembro de ter vislumbrado, a caminho do bar, um termômetro marcando mais de trinta graus. Enquanto aguardava o meu pedido, esquadrinhei rapidamente o ambiente, e percebi que um dos clientes era um senhor de cabelos grisalhos, que devia ter cerca de sessenta anos. Calçava chinelos e vestia uma bermuda marrom clara, com uma camisa pólo branca que pouco combinava com o boné tricolor que ostentava um escudo do Grêmio, como a desafiar a televisão ligada prestes a iniciar a transmissão da semifinal da Taça Piratini, entre Inter e Esportivo, em Caxias do Sul. O copo de uísque na mão dava a ele um ar displicente, pouco preocupado com a partida que começaria em instantes.

Fiquei observando o movimento – ou a falta dele – no lado de fora do bar. A cidade parecia deserta, entregue a qualquer coisa, menos à rotina ou à vida normal. Talvez por se tratar de um domingo, como em tantos outros pelos quais eu já tinha passado ali.

– Essa cidade não é mais a mesma, garoto. – Disse ele, aproximando-se da minha mesa com o copo na mão e o guardanapo embaixo, como a proteger a bebida que tinha em guarda. – E eu sei o que eu digo, porque não é de hoje que conheço isso aqui.

Resolvi prestar atenção; não sei exatamente por que, mas parecia que ele iniciaria um relato de qualquer coisa relacionada à própria vida. Como de fato o fez.

“Não sobrou nada nessa cidade que um dia remetesse a qualquer tempo de glória que já foi vivido aqui. Um dia, guri, essa cidade viveu na opulência. Se refestelou com a indústria do calçado, que tanto deu a essa cidade, mas que fez dela também a sua própria ruína. O auge e o fracasso andaram juntos por aqui. De mãos dadas, lado a lado. E hoje não sobrou nada além de uma burguesia falida, que insiste em ostentar o que não possui, apenas para viver da aparência. Aparência essa que parece ruir a cada dia. É só olhar em volta.

Eu sempre morei por aqui, pela região metropolitana. Às vezes até cheguei a morar em cidades diferentes, mas nunca me afastando dessas bandas. Nasci em Estância Velha, aqui do lado. Conhece, guri?”

Apenas acenei com a cabeça, confirmando, para não interromper o relato que a essa altura já tinha minha total atenção, mesmo com a televisão mostrando que a bola já rolava no Estádio Centenário.

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“Pois é. Meu pai era dono de um daqueles locais de curtir couro, os curtumes mesmo. Sim, eu sei, o cheiro era horrível. Mas desde pequeno, eu e meus irmãos – éramos entre sete – nos acostumamos com aquilo. Começou a fazer parte da nossa vida de tal maneira que ficou impossível até esquecer esse cheiro, mesmo tempos depois. Esses locais foram, enquanto se permitiu que fossem, a base dessa indústria de calçados aqui dessa região. Por muito tempo, se vomitou uma arrogância de ‘capital nacional do calçado’, mas ninguém nunca se lembrou dessa vizinha esquecida, que sustentou essa base burguesa, hoje falida, da cidade.

Quando eu era guri, com mais ou menos a tua idade – talvez um pouco menos, – eu ajudava meu pai nos trabalhos. Eu era o segundo, só tinha o Francisco, que era mais velho do que eu, então sempre sobravam as tarefas mais pesadas pra mim. Mas o Francisco sofreu um acidente e morreu logo depois, então tudo que era função que antes competia a ele, passou pra mim. Mas sabe que, na verdade, o que eu queria mesmo era morar na Capital. Tinha alguns amigos que tinham ido estudar em Porto Alegre e, pra falar a verdade mesmo, eu não queria continuar ali, sustentando aquela indústria que já na época eu considerava podre. Eu até gostava de ajudar o meu pai, mas só fazia por causa dele. Mas não podia chegar e simplesmente dizer isso pra ele.”

Com um gesto rápido, ele chamou um dos garçons para calibrar em seu copo já vazio mais uma dose do uísque. Aproveitei e pedi outra cerveja, que havia se esgotado rapidamente em meio ao relato franco e direto daquele monólogo nada usual.

“Mas chegou um momento em que eu tive que tomar coragem, e decidi contar a minha vontade ao meu pai. Por mais incrível que pudesse parecer, ele acabou me apoiando na decisão de ir morar em Porto Alegre. O ano era 1972, e eu tinha só dezenove, vinte anos, e tudo aquilo era muito novo pra mim. Pude experimentar algumas coisas que eram desconhecidas, como a primeira vez em que fui ao Estádio Olímpico, assistir a um jogo do Grêmio. Sabe que, por pura coincidência – eu nem sabia contra quem seria o jogo quando saí de casa – foi um Grêmio e Novo Hamburgo, pelo Gauchão, e o Grêmio venceu por um a zero.

Não sei por que, mas eu acabei decidindo que, uma vez na capital, ia cursar Engenharia na Universidade do Rio Grande do Sul. Acho que era pela admiração que eu tinha pelo Leonel Brizola, sabe? Talvez tu nem tenha ouvido falar nele. Mas ele foi, além de um grande político, um grande engenheiro. E tudo nele ainda era muito inspirador, ainda que estivesse há alguns anos no exílio, longe dessa ditadura podre em que vivíamos na época. Aliás, foram tempos difíceis aqueles, guri. Mas nisso aposto que tu já deves ter ouvido falar.

“Enfim, eu comecei a cursar Engenharia na Úrgs, ou UFRGS, que há pouco tempo tinha recebido esse F no nome, mas que, na prática, não mudou em nada, porque todo mundo seguiu chamando de Úrgs. E foi aí que começou, nessa parte, essa história de tragédia que eu vou te contar agora”, disse ele, apontando para a televisão enquanto o Esportivo descia para o ataque. Confesso que não entendi nada. Pensei que fossem as doses de uísque que estavam começando a afetar seu raciocínio. Não enxerguei qualquer relação entre o Brizola, o curso de Engenharia, ou qualquer outro fio da meada relacionado ao jogo entre Inter x Esportivo.

“Já fazia quase um ano que eu estava estudando em Porto Alegre, na UFRGS. E, numa tarde dessas que a gente sempre acha que vão ser igual às outras, eu conheci ela. Karla, era o nome dela.” Com K, e ele fez questão de me frisar isso, ressaltando as sílabas. “Com cá, não com cê. Talvez aí eu já devesse perceber que as coisas não seriam normais”. E aqui ele fez uma parada zombeteira, rindo da própria desgraça que eu já começava a antever em seu riso profético e ao mesmo tempo catastrófico, quase sinistro.

Pareceu não se importar muito com o gol marcado por Forlán, que abria o placar para o Inter em Caxias. E seguiu descrevendo aquela personagem que, apenas por umas poucas palavras, já despertava minha curiosidade em conhecê-la melhor.

“Era muito bonita, a Karla. Morena, devia ter um metro e cinqüenta e oito. Olhos castanhos, cabelo comprido, pele clara e um sorriso encantador. Conheci ela entre um intervalo de uma aula e outra, a caminho do almoço num início de tarde que se apresentava gelada em Porto Alegre. Amiga de uma colega. Era um ano mais velha que eu. A paixão foi arrebatadora – por mais tosco que isso possa soar hoje. Mas era verdade. Gostei dela desde o primeiro instante que a vi. Ela ainda foi um tanto reticente, hesitou, no início. Mas acabou cedendo. E passamos a ter uma relação de uma intensidade que nenhum de nós esteve perto de conhecer antes.

Tínhamos algumas coisas em comum, Karla e eu. Éramos gremistas, os dois. Ela gostava de verdade de futebol; era difícil, na época. Hoje, pode soar até machista isso que eu estou te dizendo. Ainda mais com esses grupos de feministas aí, que vivem protestando e fazendo marcha pra tudo. Mas enfim, não vou entrar nessa discussão. Chegamos até a ir ao Olímpico juntos, algumas vezes. Mas também tínhamos nossas diferenças. Ela gostava de literatura, mas eu não era muito chegado. Gostava dos autores russos, principalmente. Nabokov. Tolstói. O livro preferido dela era Anna Karenina. Nunca sequer o abri, mas lembro que tinha uma frase que ela adorava repetir. Ela dizia que era a primeira do livro. Mas eu não lembro o que dizia. Ah, e gostava de fumar maconha também. Não era minha praia, mas eu aceitava numa boa, mesmo sem nunca ter experimentado.

“A verdade é que nossas inseguranças e diferenças pareciam completar um ao outro. Eu morava sozinho em Porto Alegre, ela morava com a mãe, que eu nunca cheguei a conhecer. Mas ela sempre me contava que as duas viviam brigando, sempre com problemas. Ela passava mais tempo no meu apartamento do que na própria casa. Por muitas vezes, chegou a dizer que ia largar a casa da mãe e viria morar comigo. Não foram poucas as oportunidades em que apareceu carregando malas à minha porta. Só sei que vivemos em perfeita sintonia até aqueles dias difíceis de 75. Até esses dias, antes de tudo, vivíamos sob promessas de amor, juras de casamento, e de que estaríamos sempre juntos. Até aquele tempo.

“Eu recém havia completado 22 anos. Ela já estava com seus vinte e três, quase vinte e quatro, e parecia cada vez mais indomável em seu temperamento. Não queria me dizer de fato o que estava acontecendo. Até que não agüentou e explodiu. Contou-me que a mãe estava muito doente, e que os médicos haviam dito que nada mais poderia ser feito. Não quis entrar em detalhes, apenas esse relato. E, de fato, não demorou muito para que tudo se consumasse. A mãe dela faleceu em maio daquele ano e Karla perdeu o rumo.

“Não freqüentava mais às aulas e, por um bom tempo, não apareceu mais em meu apartamento. Os amigos mais próximos haviam me dito que não saía de casa e que estava de mudança para alguma cidade da serra, onde, segundo eles, tinha alguns parentes. Mas nada disso fiquei sabendo por ela. Só fui descobrir tudo quando, numa noite de julho, cheguei ao meu apartamento e encontrei uma carta, um bilhete, ou qualquer coisa do gênero. Nele, ela me relatava que havia se arrependido de tudo que havia feito para a mãe. Que não podia mais continuar morando em Porto Alegre, naquela cidade em que tudo lhe traziam as lembranças. E não podia mais continuar comigo, onde por tantas vezes ela procurou refúgio de algo que agora buscava com todas as forças – mas que sabia ser em vão – trazer de volta. Só dizia, naquela famigerada carta de poucas palavras vagas, que estava indo morar na serra com uma tia, irmã de sua falecida mãe.

“E aí, meu jovem, quem entrou em desespero fui eu. Hoje, a gente chama de depressão. Todos os médicos conhecem, o diagnóstico é relativamente fácil. Mas na época, a gente não falava disso. Ninguém conhecia. E, por isso, não sabia direito o que eu sentia. Só sei que era um vazio. Um vazio que parecia que não ia ter fim nunca. Só sei que eu fiquei quase quatro anos sem sequer ter notícias da Karla. Até aquela noite fria de maio de 79.

Eu havia voltado a buscar no futebol, do qual eu tanto era afeiçoado e que parecia ser minha única grande paixão até conhecer Karla, um ponto de escape. E passei a acompanhar mais de perto do que qualquer coisa, passei a seguir como se fosse uma religião ou tudo que se possa acreditar, com uma força quase cega, passei a seguir o Grêmio. Onde o Grêmio fosse, eu estaria lá. Como uma fuga. Um pretexto para esquecer. E, quase ao mesmo tempo, uma tortura, um auto-flagelamento para seguir lembrando.

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“E, naquela tarde de 30 de maio de 1979, eu deixei Porto Alegre rumo a Bento Gonçalves, mesmo com aquele frio tremendo que fazia, e talvez até por isso, justamente pelos prognósticos que se faziam acerca da temperatura na serra. Havia expectativa de neve para aquela partida. Seria algo histórico. Como, de fato, foi. Mas não só pela neve. Do jogo, em si, pouco me lembro. Só sei que terminou zero a zero. Era praticamente impossível jogar futebol naquelas condições às quais não estávamos acostumados. A neve, de fato, veio. E o jogo terminou. Mas aquela noite de Bento Gonçalves jamais terminou.”

Percebemos então, naquela pausa dramática, que o jogo entre Inter e Esportivo já caminhava para seus momentos finais. A franqueza e a intensidade do relato eram tamanhas que sequer percebemos que o placar já marcava dois a zero para o time da capital. E os dez ou quinze minutos mais que restavam de bola rolando, pouco pareciam reservados a qualquer surpresa. E, diferente daquele jogo já decidido, aquela história parecia se encaminhar para seu ápice em poucos instantes. Voltei as minhas atenções novamente para aquele senhor que parecia genuinamente empolgado com seu trágico relato.

“E, então, em meio à neve que continuava a cair na saída do estádio, eu a vi. E vestia uma camiseta do Esportivo, como que traindo mais ao clube pelo que antes torcia, do que a mim, por estar acompanhada e sequer vislumbrar a minha presença em meio à tempestade branca que caía. Só muito depois, descobri que ela havia se casado com um dirigente muito influente do Esportivo, muito próximo de sua tia que morava ali em Bento Gonçalves e que havia apresentado os dois. Jamais voltei à Montanha, nem a dos Vinhedos. Decidi que não poria mais os pés em Bento Gonçalves. E, desde então, passei a nutrir uma antipatia mortal – talvez defensiva, ou talvez besta e infantil – por esse clube que, por infeliz coincidência, ostenta as cores do mesmo clube que eu torço.

“Depois disso, nunca mais a vi. Só sei cumpri minha promessa. Nunca mais fui a Bento Gonçalves. Ainda receio todas as vezes que necessito ir à Serra, mesmo que em cidades próximas. De fato me formei engenheiro em Porto Alegre. Continuo gremista, mas vou pouco aos jogos. Assisto quase sempre sozinho, desse bar, onde vez que outra – quando não me interrompem ou não se chateiam dessa história – me permito relatar a algum forasteiro essas palavras. Evito também ir à capital da minha glória e da minha desgraça, onde o desenho da minha vida é tão cruelmente semelhante ao dessa cidade. Logo que peguei meu diploma, vim morar em Novo Hamburgo. De onde não mais saí, e nem pretendo. Já estou muito velho pra isso, garoto”.

Só então pude compreender, de fato, aquela relação entre a sua história e aquele jogo aparentemente sem importância para nós, que estava ali, diante dos nossos olhos. E compreendi também porque ele, mesmo compenetrado no relato preciso de sua vida, jamais despregou os olhos da tela. O boné do Grêmio me ludibriou. Era um embuste. Ele não estava secando o Inter, como a imensa maioria dos gremistas o fazia naquela tarde. Ele estava ali unicamente aguardando o destino selar um caso impróprio para o futebol do Estado. Era um gremista secando o Esportivo. Contra o Inter.

Ainda atônito com toda a intensidade daquele relato, sem saber exatamente o que dizer, já me preparava para sair. Cumprimentei-o e, antes que ele pudesse retribuir, apontou para a TV, em tom de sarcasmo e deboche:

– E, além do mais, não gosto nem um pouco desse atacantezinho aí – e riu, mostrando um jovem atacante do Esportivo que corria debilmente pela linha de fundo, buscando, em vão, espaço para furar o bloqueio colorado.

Pela primeira vez desde que comecei a ouvir, pude me dar o direito de rir. Baixo, apenas um sorriso leve, mas ri. E riu alto ele também, quando o jovem foi desarmado e ficou sem a bola. Dirigi-me para a saída do bar após um breve cumprimento. Não havia mais nada que eu precisasse ver ou ouvir ali. Já havia sido mais do que suficiente. Não pude ver sua reação quando, já distante alguns metros do bar, pude ouvir algumas poucas buzinas e a comemoração vermelha se espalhar discretamente pela cidade, que indicavam a classificação à final. Não estava frente à TV, nem próximo àquele senhor que tanto despertou minha atenção quando o árbitro apitou o fim do jogo e selou o destino das duas equipes. Mas aposto que ele esboçou um sorriso leve, de canto, como que para preservar a dignidade do boné azul que ostentava. E, entre complacente e compadecido, sorri também. Porque, em algum lugar, Karla chorou.

Nicholas Lyra

Fotos: Futebol Gaúcho

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2 Respostas a Noites sem fim em Bento Gonçalves

  1. Não serei grosseiro de perguntar ao autor se se trata de um texto de não-ficção, pois, quando coisas inventadas são divididas, passam a existir. Ducaralho!

  2. Espetacular retorno do Nicholas às lides cancheiras. Só consegui ler agora, dias depois, mas plenamente justificados os elogios que ouvia e lia sobre o texto.

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