A vez do viés de alta

ZeRafaGolQuem acompanha esse nobre espaço escrito por alguém que não é membro na corte sabe que não foram poucas as críticas ao desempenho do Novo Hamburgo ao longo do Gauchão. Uma campanha, que começou trôpega, caiu abruptamente com duas derrotas seguidas. E após atingir o fundo do poço, o Noia se reencontrou, conquistou sua terceira vitória consecutiva e conseguiu a classificação ao mata-mata. O crescimento veio na hora certa?

A manutenção da boa campanha recente passa pela repetição do esquema tático de Itamar Schulle, trocando peças pontuais apenas por suspensão ou lesão. O Anilado passou a propor o jogo em seu 4-4-2 em losango, apostou na vitalidade de Lucas Santos, na técnica de Paulinho na lateral-esquerda e até na combatividade do volante Magno na lateral-direita.

O jogo contra o Pelotas começou, entretanto, mostrando velhas falhas na defesa anilada, que pareciam parcialmente superadas. Cada bola aérea tornava-se um parto e a velha marcação individual logo pagou seu preço. Em falta cobrada na área, o experiente Gadelha pegou a sobra e marcou o tento do Lobão.

Embora o trailer desse ideia de que o filme seria repetido, com o Novo Hamburgo perdendo chances iniciais, sofrendo um gol bobo e deixando de somar três pontos diante de um time tecnicamente inferior, quem foi à cancha sentia que o final seria diferente – e seria um final feliz.

O Cristo Careca provou que ressurreição é o seu forte (Foto: Giovani Junior/ECNH)

O Cristo Careca provou que ressurreição é o seu forte (Foto: Giovani Junior/ECNH)

Comandado por Preto e Zé Rafael, o Noia foi para cima sem perder as estribeiras. Após outra chance perdida por Lucas Santos, Magno foi à linha de fundo e parou diante de seu marcador. Parou, pedalou, sambou, ouviu todos os apupos possíveis da torcida e, quando tudo parecia perdido, cruzou para Zé Rafael, em duas conclusões, igualar o marcador.

Ainda na primeira etapa, Paulinho cobrou falta com maestria em direção ao ninho da coruja, mas o goleiro Roger fez grande defesa e espalmou a escanteio. Porém o bandeirinha ignorou o toque e marcou tiro de meta, sendo cobrado pela torcida até o final do jogo. Quando Itamar Schulle foi conversar com o bandeirinha, um torcedor gritou ‘Itamar, ele pediu desculpas?!’, no que o treinador riu e balançou a cabela negativamente.

Na segunda etapa, o Noia voltou com a mesma formatação, mas pressionando o Pelotas desde o primeiro minuto. O time áureo-cerúleo, ao contrário do que aconteceu na primeira etapa, não conseguia contra-atacar e o anilado era quem dava as cartas. Aos 20 minutos, Zé Rafael pressionou a zaga do Lobão na saída de bola, roubou a redonda, Alberto invadiu a área e foi derrubado. O que acontecia contra o Anilado agora acontecia a seu favor. E Douglas, com a calma de quem já bateu pênalti em Libertadores, virou o placar.

A categoria de quem já fez gol decisivo em Libertadores e (DIZEM) teve um AFFAIR com a filha de Mano Menezes (Foto: Giovani Junior/ECNH)

A categoria de quem já fez gol decisivo em Libertadores e (DIZEM) teve um AFFAIR com a filha de Mano Menezes (Foto: Giovani Junior/ECNH)

Desesperado, o Lobão se atirou para o ataque em busca do empate pela bola aérea. Então brilhou a estrela de Max. O arqueiro anilado ganhou todas pelo alto quando saiu para intervenção. E na única bola que não saiu, catou firme um MÍSSIL de cabeça disparado por Bruno Salvador. Se Felipão assistiu ao jogo, ficou sem argumentos para não convocar Max para Copa – até porque muito mais difícil é explicar que seu goleiro titular joga no CANADÁ.

Tal como no jogo contra o Passo Fundo, o Noia manteve a postura agressiva com a bola, não se acomodando na partida. Até que em rebote da cobrança de falta de Paulinho, Zé Rafael emendou um canhotaço e ampliou o marcador. Era a primeira vitória anilada por mais de um gol de diferença. E que quase virou goleada, não fosse o tento anulado por Jonatas Belusso.

Mais do que os nove pontos conquistados em sequência é de se alegrar pela postura da equipe. Itamar Schulle mostrou sua competência ao se reinventar durante o campeonato e passar a propor o jogo – algo que muito o critiquei por aqui. Ainda que algumas de suas escolhas sejam passíveis de contestação – como o sistema de marcação e fragilidade na bola aérea -, o Noia cresceu muito de produção, buscou o gol adversário a todo tempo e valorizou a posse de bola.

Esse crescimento também deve ser creditado ao retorno de Preto ao meio-campo. Ouvi e li muitas críticas ao Novo Hamburgo por não ter um articulador, sendo que Preto sempre soube fazer essa função, ainda que jogando mais recuado. O erro – ou aposta demasiada perigosa – é não ter um substituto a sua altura com as mesmas características – hoje esses nomes seriam Anderson Pico, Eliomar ou Zé Rafael recuado.

Os ingressos de Paulinho – esse muito demorado – e Lucas Santos também estão ligados a essa boa fase. O lateral-esquerdo é de reconhecida qualidade técnica e apenas uma opção tática mais defensiva o tirava do time. Quanto ao atacante, é inferior tecnicamente que Jonatas Belusso, mas sua vitalidade e a nova formatação da equipe o permite marcar com contundência e atacar com a mesma veemência. Mais confiante, passou a ter vitória pessoal.

Os próximos dois compromissos dificílimos são fora de casa, contra São Paulo e Caxias. Será quando o Noia provará que continua num viés de alta, se o mesmo é duradouro ou veremos nova oscilações.

Ficha técnica

NovoHamburgo_45x45

Max; Magno, Zé Carlos, Juan Sosa e Paulinho; Alberto, Chicão, Preto (Eliomar) e Zé Rafael; Lucas Santos (Fred) e Douglas (Jonatas Belusso). Técnico: Itamar Schulle

pelotas_45x45Roger Kath; Igor, Pedrão, Bruno Salvador e Alex; Tiago Gaúcho (Jeferson Costa), César Santiago, Gadelha (Gilmar) e Lucas; Mithyuê (Sandro Sotilli) e Rafael Santiago. Técnico: Luis Carlos Barbieri

Como eles foram

Max: 7,5 – defesa de dar inveja a Gordon Banks foi o ponto alto de sua atuação;
Magno: 7,5 – começou tímido, mas com assistência ganhou confiança e passou a ganhar todas disputas individuais;
Zé Carlos: 5,5 – teve alguma dificuldade, principalmente pelo chão;
Juan Sosa: 5 – parte da instabilidade defensiva se deu a sua má atuação;
Paulinho: 6 – deu qualidade à bola parada;
Alberto: 5,5 – cavou o pênalti, mas por vezes brincou onde não podia;
Chicão: 6 – bem atrás e na defesa;
Preto: 7 – outra boa atuação do homem que mudou o Noia;
(Eliomar – sem nota);
Zé Rafael: 8,5 – dois belos gols de quem está agarrando com unhas e dentes essa oportunidade;
Lucas Santos: 6,5 – muito combativo, perdeu dois gols que dariam maior tranquilidade;
(Fred: 6 – entrou para estancar a sangria atrás e o fez);
Douglas: 6,5 – tento importante para quem não se esconde do jogo;
(Jonatas Belusso: 6 – jogou quase isolado e ainda teve um gol anulado)


“Eu não esqueci daquele escanteio, bandeira”,
Zezinho

Publicado em Gauchão 2014, Novo Hamburgo, Pelotas com as tags , , , . ligação permanente.

2 Respostas a A vez do viés de alta

  1. Denis diz:

    E o Nóia parece realmente engrenar… apesar do receio de não garantir um bom resultado no decorrer do segundo tempo, o Nóia mostrou maturidade e soube aproveitar o desespero do Pelotas (time esse que se esperava muito mais em função de seu segundo semestre do ano passado).
    E aquilo que parecia uma loucura do Itamar nos últimos jogos acabou se mostrando uma grande escolha.. O velocista Lucas no lugar do eficiente Jonatas Belusso. Apesar de perder chances lá na frente, ele não se esconde do jogo, parte pra cima e, por incrível que pareça, tem dado dor de cabeça nos zagueiros adversários.
    Abraço daquele que foi citado no sexto parágrafo…
    Dênis

  2. Natusch diz:

    Eu AINDA lembro daquele escanteio, bandeira!

    Que decepção o Pelotas. Bastou o Noia colocar a cabeça no lugar e o adversário deixou-se acossar com surpreendente facilidade. Nem é porque não queria resistir: é porque não conseguia, mesmo.

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