Nosso longo caminho para a convivência

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O que segue tem o propósito de pensar a denúncia de racismo feita pelo árbitro Márcio Chagas da Silva, na última quarta-feira, durante e depois da vitória do Esportivo sobre o Veranópolis, por 3 a 2, na 12ª rodada do Campeonato Gaúcho. O caso junta-se a situação vivida por Paulo César Tinga em jogo da Libertadores no Peru e aos xingamento dirigidos ao centrocampista Arouca, em Mogi Mirim/SP. As denúncias, entre outras tantas que já realizadas, criaram uma atmosfera propícia ao apedrejamento de clubes, de cidades, de regiões, de grupos étnicos… E isso não é novidade, a vontade de justiçamento tem lugar primordial naquilo que é notícia dos grandes portais eletrônicos brasileiros (não acompanho os internacionais), nos impressos, na radiodifusão e na televisão. Nessas frentes, incomodamente, a maioria das mentes parece não ficar saciada pela justiça, simplesmente. Parece necessário ir além, mesmo sem investigação, sem nem ter o rosto dos suspeitos é irresistível nomeá-los genericamente de “torcedores”, como se aí estivesse a reposta. Na contramão, Daniel Cassol foi extremadamente feliz ao titular seu artigo no Impedimento com “Árbitro sofre racismo no Gauchão e faz o certo: denuncia”. A denúncia está feita, a investigação é urgente e a punição precisa ter seu caráter pedagógico destacado. Punir, sim. Discutir o sentido da punição, também.

O futebol talvez seja o lugar onde quase tudo está. Um jogo de regras absurdamente simples, característica confirmada pela exceção da linha de impedimento que, aliás, é muito mais imaginária que o tracejado divisor e cortante do Equador. Escrever ou comentar sobre o jogo de bola é tratar de assuntos nacionais, nacionalistas, étnicos, religiosos e mergulhar na política, na sociologia, na história… Não que o tema seja qualitativamente melhor, maior ou mais complexo que outros, mas o futebol merece além de ser vivido intensamente também ser compreendido como acontecimento social e histórico. É com a intenção de ilustrar um instante da configuração do futebol nacional e seu vínculo com nossas precariedades sociais que voltamos ao Football mulato[1].

Passado pouco menos de um mês da Copa do Mundo de 1938[2] na França, Gilberto Freyre publicou o artigo Football mulato. O pensador acompanhou o selecionado brasileiro na jornada de Strasburgo e Bordeaux e sua reflexão parece ter sido instigada por um repórter que, em certo momento, lhe interpelou sobre o que pensava da terceira posição obtida pelo Brasil no torneio. Esse texto de Freyre é considerado um marco para a literatura sobre o futebol brasileiro. Nele foi cunhada a idéia do futebol arte e das especificidades que compunham a prática desse esporte em nossas terras. Essa pesquisa não foi suficientemente criteriosa a ponto de atestar se o artigo foi o primeiro a tipificar o futebol brasileiro, porém, sem dúvida, as afirmações exultantes do escritor pernambucano continuam sendo lidas e revisitadas por quem pretende adentrar o enredo do nosso futebol.

football mulato

Freyre atrelou as vitórias do Brasil no mundial “a coragem” de se ter convocado para o escrete e enviado à Europa um time composto também por afrobrasileiros, por “pretalhões bem brasileiros” e “mulatos”. Teria sido a mudança de critério na convocação do time, o fator primordial para o melhor desempenho na competição. A chamada para representar o país em jogos internacionais não era mais exclusiva para brancos e “mulatos claros”. A inserção de negros no time, segundo o autor, só ocorreu com a quebra de um critério “antibrasileiro”, que representado pela figura do Barão de Rio Branco[3] tentava “vender” ao mundo uma idéia de que o Brasil era um país essencialmente branco, uma “República de arianos”. Essa característica, supostamente, podia ser notada tanto nas delegações diplomáticas, quanto nos grupos esportivos que viajavam ao estrangeiro.

A campanha brasileira em 1938[4] demostrou que o título poderia vir em 1942. No entanto, quatro anos depois, ao invés da Copa era jogada a Segunda Guerra Mundial e a chance do campeonato só ressurgiria em 1950, em casa. Ao fim de tudo o escrete nacional saiu derrotado na final pela República Oriental do Uruguai, por 2 a 1, no Estádio do Maracanã silenciado. Para aguentar essa mágoa retumbante era preciso encontrar alguém para culpar e lá estava ele: Moacir Barbosa, nosso arqueiro, que por uma folia do destino era negro. Também não era mau goleiro, mas disso quase ninguém quis saber. A conquista só ocorreria oito anos depois, em Estocolmo.

A argumentação de Gilberto Freyre considerava uma oposição entre dois estilos de se jogar futebol. De um lado estava o “nosso jeito” de praticar o esporte e no outro pólo a maneira europeia de resolver o jogo. O futebol brasileiro seria marcado por um conjunto de qualidades, como a manha, a astúcia, a ligeireza e a espontaneidade individual, que caracterizava um estilo surpreendente de enfrentar as partidas. O jeito brasileiro “arredonda e adoça o jogo” e compara-se a dança, a capoeira. Freyre olhava para a afirmação do que seria o Brasil no mulatismo flamboyant[5], ou seja, uma espécie de malandragem, de desconserto no ser da gente brasileira. De outra parte, é apresentada a forma angulosa com que os ingleses e demais europeus jogavam.

Valendo-se da classificação formulada por Oswaldo Spenger[6], Freyre diferencia a forma brasileira de encarar o futebol do jeito europeu. Para ele, enquanto “nós” éramos dionisíacos, “eles” tinham traços marcadamente apolínicos.

Nós dionisíacos

As pernas dos jogadores brasileiros eram orientadas pelo improviso, pelo inesperado. Nada poderia suplantar o gosto pela liberdade e, ao mesmo tempo, a fuga da previsível disciplina da ciência, do caminho testado pelo experimento anterior. A diferença do Brasil era a rebeldia da variação. Avessos às formulações internas e externas, a uniformização, ao lugar comum, nossa imposição era individual e repleta de espontaneidade. O futebol brasileiro fazia-se mais como dança do que como jogo. Tínhamos os “bailarinos da bola”, os capoeiristas em retângulos de grama e alguma lama.

E o brasileiro não era dionisíaco somente com a bola nos pés. Também no jogo político, segundo Freyre, o Brasil fazia-se vistoso na figura de Nilo Peçanha[7] e seu estilo de fazer política. Não foram recolhidos mais elementos que permitam traçar as características da atuação política de Peçanha, no entanto teria sido o primeiro político mulato a ocupar a Presidência do Brasil. A habilidade de Peçanha para os cálculos políticos e o futebol seriam duas das características que se realizavam como expressão da formação social democrática brasileira.

Eles apolínicos

Por curiosidade, o futebol jogado pelas nações europeias foi apreendido por Freyre como mais anguloso, com efeitos geométricos e pureza técnico-científica. A dinâmica do jogo europeu se dava como socialismo que subordinava e mecanizava as ações individuais. O jogo era compreendido como capacidade de repetição coordenada dos movimentos. Era organizado, projetado e equilibrado como a arquitetura do velho continente.

Segura que eu quero ver ou eles jogam uma coisa parecida com futebol

O texto de Gilberto Freyre faz emergir um conjunto de questões importantes para pensar o futebol no Brasil e o próprio país em outras esferas. A idéia de que aqui se joga futebol de maneira única e artística é, sem dúvida, uma permanência. Somos a “pátria de chuteiras”, “o país do futebol”, enfim, um amontoado de terra onde proliferam inúmeros jargões futebolísticos.

De fato, “nós brasileiros” inventamos nosso ludopédio, também criamos muitos “outros” que “não jogam nada”. Os europeus são enfadonhamente organizados, os nossos vizinhos que margeiam o Rio da Prata são hostis e “catimbeiros”, os latino-americanos que vivem aos pés da cordilheira são competitivos apenas esporadicamente, os americanos do centro e do norte são herdeiros do jogo geométrico do tempo colonial, os africanos e asiáticos são inocentes querendo jogar livremente como “nós”, mas lhes falta malandragem. Será que esqueci de alguém!? Ah, talvez dos socialistas por demais coletivos.

Talvez não seja pertinente avaliar as afirmações de Gilberto Freyre somente como exageradas, quando descreveu as particularidades que reunia o futebol jogado pelos brasileiros. Suas expectativas e otimismo refletiam uma crença na miscigenação como o grande diferencial da gente brasileira. Tese que, inclusive, seguia defendendo na década de 1950 em relatório encomendado e arquivado pela ONU sobre o apartheid sul-africano. Apesar de não repercutido no fórum internacional, sua reflexão “A eliminação dos conflitos e as tensões entre as raças” caiu nas mãos da ditadura portuguesa salazarista e serviu para justificar uma política colonialista para a África.

Não há dúvida de que fomos capazes de inventar um futebol repleto das cores locais e engenhosamente construir quase unanimidade em torno da invenção. E isso vale também para o Rio Grande e seu jogo com tez platina e vigor inabalável, não menos inventado. Porém, nosso caminho para a convivência étnica apresenta-se pedregoso, longo e contraditório. Discutindo Freyre, que não acreditava em construções legislativas como saída para a convivência – o autor rejeitava a Lei Afonso Arinos, a primeira a proibir a discriminação racial no país em 1951 -, temos muito a fazer, inclusive no campo legislativo. Mas precisamos ir além, urge nossa dedicação na construção de uma educação formal e informal para a convivência. Precisamos nos desvencilhar das lentes embaçadas pela democracia não cidadã e fazer nossa autocrítica como país publicamente.

Desde a década de 1930, o Brasil já tinha “alma democrática” discursiva, já ações nem tanto. Proposição pretensiosa? Não. Apenas o pontapé inicial da conversa*.

Saludos,

El Viejo Balejos

A foto é do acervo do blog.

* Parágrafo final apresenta correção desde 09/03/2014, às 11h52.

**Texto adaptado para publicação no Toda Cancha.

[1] FREYRE, Gilberto. Football mulato. Diário de Pernambuco, 17 de julho de 1938. Gilberto de Mello Freyre (1900-1987) nasceu no Recife e foi um sociólogo, antropólogo, historiador, escritor e pintor brasileiro. Entre suas obras destacam-se Casa Grande & Senzala (1933) e Sobrados e Mucambos (1936).

[2] A Copa do Mundo de 1938 foi realizada na França e contou com a participação de 16 seleções nacionais. Foram elas: Alemanha, Suiça, Hungria, Índias Orientais Neerlandesas, Suécia, Áustria, Cuba, Romênia, França, Bélgica, Itália, Noruega, Brasil, Polônia, Tchecoslováquia e Países Baixos. A Seleção Italiana sagrou-se campeã do torneio.

[3] José Maria da Silva Paranhos (1845 – 1912), o Barão de Rio Branco, foi professor, político, jornalista, diplomata, historiador e biógrafo. Cursou o Colégio Pedro II, a Faculdade de Direito de São Paulo, depois a de Recife. Em 1900 foi nomeado ministro plenipotenciário em Berlim. Em 1902 assumiu a pasta das Relações Exteriores do Brasil, onde permaneceu como titular até sua morte.

[4] No primeiro jogo, pelas oitavas-de-final, o Brasil derrotou a Polônia por 6 a 5 no tempo extra, depois igualou em 1 a 1 com a Tchecoslováquia, provocando o “jogo desempate” que venceu por 2 a 1. Nas semifinais, os brasileiros caíram por 2 a 1 para o selecionado italiano. Finalmente, na decisão do 3º lugar venceram a Suécia por 4 a 2.

[5] A expressão Mulatismo flamboyant é utilizada por Gilberto Freyre para identificar uma espécie de malandragem, de desconserto, de desapego a normas e formalidades. Flamboyant pode ser livremente traduzido como exibicionista, berrante, esplendoroso.

[6] Oswald Arnold Gottfried Spengler (1880 – 1936) foi um historiador e filósofo alemão, cuja obra O Declínio do Ocidente (1918) provocou o debate de suas posições na Europa, durante o século XX.

[7] Nilo Procópio Peçanha (1867-1924) foi um político brasileiro nascido no Rio de Janeiro. De 1909 a 1910 substituiu Afonso Pena na Presidência do Brasil. Peçanha foi descrito como sendo mulato e frequentemente ridicularizado pela imprensa e pela elite local devido à cor da sua pele.

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5 Respostas a Nosso longo caminho para a convivência

  1. Bernardo Zamperetti diz:

    Uma aula. Que texto!

  2. Zezinho diz:

    Show de bola, uma verdadeira aula dada por um professor, Balejos!

    Eu não sabia que havia essa segregação na Seleção Brasileira, principalmente porque Fausto, ‘A Maravilha Negra’, jogou em 1930 e Leônidas, em 1934. As brigas que lembro foram entre cariocas e paulistas, em 1930, e profissionais e amadores, em 1934 – justificativas para as eliminações precoces do selecionado nacional.

    Em 1938, a Áustria se classificou e foi sorteada para enfrentar a Suécia. Mas como a Alemanha a anexou – o Auschluss -, a dona FIFA deu W.O. para os nórdicos

  3. Balejos diz:

    #2
    Brilhante (e gentil) correção, Zezinho. Não revisei direito essa parte. Foi erro mesmo. Foi corrigido. Embora o Barão do Rio Branco fizesse grande esforço para “vender” uma imagem de “país branco”, branqueando delegações esportivas e diplomáticas quando necessário, Fausto estava na campanha de 1930 e Leônidas da Silva na de 1934.

  4. Baita, EVB.

    Tema complicado, que passa longe do futebol, embora este sirva de palco para suas ocorrências e para fazer parecer que só ali, dentro das quatro linhas ou doslimites da construção de um estádio é que ele ocorre.

    Aproveitando a ideia essa do esforço de branquear as seleções no início do século passado, observa-se algo parecido agora, em relação ao racismo: para a mídia esportiva que domina o noticiário, a da capital, racismo e folclore são sinônimos, em que um apenas ocorre no interior e o outro é verificado na capital, seja quanto a cor (“macaco imundo”) ou opção sexual (“gaymista”).

    Em tempo: triste, no caso Tinga, foi ele ter sido o mais omisso em toda história, tendo seguido em campo e sequer pedido providência da arbitragem, deixando toda a indignação para a opinião pública, que abraçou a causa. Já quanto ao Chagas, uma pena que só agora ele tenha agido corretamente como o fez. Mas fica a impressão que, em jogos envolvendo a dupla grenal (ou até entre ambos, em clássico), ele apitava com tampões de ouvido para não ouvir os tradicionais cânticos que ecoam em alto e bom som no estádio.

  5. El Viejo, obrigado pelo arrazoado. Situa muito bem a leitura de Freyre, que, embora lúcida, peca pelo excesso de romantismo com relação à nossa miscigenação. Tenho a impressão que, no Brasil, o sujeito não é contra a opressão, mas deseja tão somente passar da condição de oprimido a opressor. Como disseste, há sempre um pendor de justiçamento e vingança. Perderam a aula de Mandela, infelizmente.
    Sobre a foto lá em cima, já que estamos apenas lançando ideias ao vento para catar uma conclusão no ar, chama a atenção a falta de negros na nossa turma. Somos uma minoria onde não há minoria, sem que obviamente haja qualquer resistência. Não estou cobrando cotas entre cancheiros, apenas alerto para um traço míope desta visão freyriana do Brasil. Abraço!

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