Não existe salvação às margens do Rio dos Sinos

divididaAssim como no ano passado, a tabela do SARTORÃO marcou o Clássico do Vale para a primeira rodada, o que ajudou anilados e capilés a colocarem seus check-ups (?) em dia, sem precisarem enfrentar filas em consultórios não-cubanos pelo Estado. O que se viu na cancha foi o melhor jogo da rodada e um dos melhores da história do clássico, mas que deve ser visto com cautela na tábua de classificação.

Na semana da peleia, o Novo Hamburgo lançou uma campanha de marketing para associação de adeptos e promoção do jogo, o que levou mais de 3 mil almas ao Estádio do Vale e chegou a associar 200 hamburguenses em apenas um dia (te cuida, Palmeiras). O horário do jogo e o tempo contribuíram, e muito, para a grande presença das torcidas, recompensadas pelo sarandeio dentro das quatro linhas.

Os primeiros 30 minutos foram de domínio anilado, tanto na posse de bola quanto em chances reais de gols. Com o placar ainda virgem o Anilado desperdiçou três boas chances: Lucas Santos se atrapalhou com a bola (não é novidade), Leandrão cansou após correr 5 metros e Thiago Humberto bateu no fígado da redonda dentro da área. O Noia tenteava o bico da gansa mas falhava miseravelmente na hora do caos – como todo bom adolescente em festa de 15 anos.

Estádio do Vale com ótima presença de público (Foto: Giovani Junior/ECNH)

Estádio do Vale com ótima presença de público (Foto: Giovani Junior/ECNH)

Até que os pelos da cara mais barbada fizeram jus aos holerites mais pesados aos 19 minutos: escanteio cobrado no fedor por Thiago Humberto e Leandrão, de retrospecto tímido na pré-temporada, deu a casquinha redentora e estufou os cordéis da cidadela capilé, abrindo as cortinas do placar tal qual uma Paolla Oliveira.

Empolgado e cheio de si, o Novo Hamburgo continuou dono da meia-cancha, com Magrão dando o tom na intermediária e Jonas e Murilo estocando furiosamente pelos flancos. E foi pela banda direita, aos 23 minutos, que a bola foi alçada na área indígena Por Murilo e novamente Leandrão, centroavante com carteirinha do CREA, testou onde a coruja dorme e deixou Marcelo Pitol esparramado no relvado. Justiça no placar. Até ali.

Habemus centroavante (Foto: Giovani Junior/ECNH)

Habemus centroavante (Foto: Giovani Junior/ECNH)

O ponteiro já passava da metade, e os adeptos contavam seus pilas pra comprarem um pastel no intervalo, quando ocorreu o lance que mudou a partida: na ponta-direita o lateral Murilo caiu lesionado e saiu de maca, justo na sua boa estreia em jogos oficiais. Apesar de quatro (!) laterais no elenco, apenas Murilo foi inscrito e Roger teve que improvisar o volante Warley pelo lado. O camisa 15 anilado bateu na porta do céu e foi ao inferno em questão de minutos.

Em seu primeiro lance, pegou um rebote de escanteio cobrado na esquerda, bateu cruzado e Leandrão concluiu, mas a zaga tirou de cima da linha. A ressureição indígena se fazia presente e logo aprontaria. Aos 37 minutos, em ataque pela ponta-esquerda, a zaga do Noia se desmontou, Faísca cruzou com categoria e Colossi subiu mais alto para cutucar a redonda longe do alcance de Rafael.

Bolívar apresentado antes da peleia (Foto: Giovani Junior/ECNH)

Bolívar apresentado antes da peleia (Foto: Giovani Junior/ECNH)

Se o placar de 2×1 já traria nervosismos à etapa final, o que ocorreu no minuto seguinte definitivamente espalhou o caos: em rápido contra-ataque, Mikael recebeu a bola na entrada da área, no mano a mano, e a colocou com cátedra no fundo do barbante anilado – Rafael pulou em 1985 e ainda não chegou. O que poderia ter se transformado em goleado com TRIPLETA de Leandrão era, agora, mais um clássico renhido em nossas vidas.

A segunda etapa, sem modificações de ambos os lados, viu o Novo Hamburgo abrir a língua e um latifúndio improdutivo na meia-cancha nos primeiros 15 minutos, com o Índio assustando em estocadas fatais. Que quase foram letais após o ingresso de Moacir pela esquerda, esse demônio xamã. Roger respondeu com Luiz Mário e o lépido Márcio, equilibrando a cotenda.

Com o passar do ponteiro, o Aimoré abusou da cera (correto), retrancou-se, Jean Pierre truncou o jogo e o Noia tentou parir a fórceps o terceiro tento. Chutes cruzados, mascados e cabeceios de xiripas foram tentados, mas a bola fez-se filha órfã e apenas vagou errante entre as duas áreas.

(Foto: Giovani Junior/ECNH)

Mascote Pé Quente, Márcio Vitória (preparador físico), Leandrão, Fred, Luan, Thiago Humberto, Rafael, Humberto Flores (preparador de goleiros) e Gringo (faz tudo); Paulinho, Murilo, Lucas Santos, Jonas, Magrão e Dê (Foto: Giovani Junior/ECNH)

O placar de 2×2 foi justo pelo que se viu, sobretudo na primeira etapa. O Novo Hamburgo foi um pouco vítima de uma modificação não planejada, de um adversário aguerrido, do BID da CBF (que não inscreveu a tempo Spessato e William Schuster) e das suas próprias imperfeições. Quem leu esse pagão espaço sabe que esse escriba não compra a hipótese de ‘Galácticos do Vale’ ou qualquer outra alcunha despudorada. O campeonato do Noia é de meio de tabela e os 3 pontos fazer-se-iam necessários na arrancada difícil.

Nas duas próximas rodadas o Anilado terá que recuperar partes dos pontos perdidos em confrontos fáceis (ns): Juventude, no Alfredo Jaconi, e Internacional, no Beira-Rio. Roger tem pouco tempo pra ajustar o time, porém peças interessantes. O ingresso de William Schuster pela direita pode dar a cadência necessária no terço final e Márcio é uma realidade para mudar o cenário da partida.

Por outro lado, algumas imperfeições da pré-temporada foram reproduzidas ontem: os volantes atuaram longe dos meias e a zaga ficou no mano a mano em demasia. Dê voltou a jogar mal, Luan teve dificuldades por baixo, Warley entrou mais perdido que virgem em bordel e Jonas foi muito individualista, sobretudo na segunda etapa.

O trabalho é árduo e o tempo é curto. Por isso a necessidade da experiência para superar as dificuldades e utilizá-la, visto que ficou a mercê depois ter um resultado na mão em casa.

Uma nota triste

Após a partida, o torcedor Maicon Lima foi morto pela BM com dois tiros nas costas, próximo à estação Santo Afonso do Trensurb. Houve uma briga entre alguns torcedores na estação de trem, dispersada pela polícia. Logo depois a BM alvejou um adolescente de 16 anos pelas costas. Não há sentido, a priore, para um policial militar alvejar um guri desarmado, pelas costas, com uma arma letal. Embora isso seja comum na periferia do Vale dos Sinos.

O clima entre as duas torcidas era bem cordial antes do jogo. Cruzei pela torcida do Aimoré antes do jogo e não houve qualquer mal entendido. Pelo contrário: as duas torcidas confraternizavam e se saudavam.

Há torcedores violentos de ambos os lados? Sim. Alguns integrantes de suas ‘barras’. As torcidas já são pequenas, as organizadas menores e os membros violantes uma contam-se nos dedos. Então como que a BM não consegue fazer a segurança num jogo assim?

A impressão que fica, por quem conhece estádios e anda pelas ruas de bairros diversos, é que a BM se faz ausente para que a violência aconteça e ela possa reprimir com truculência, tendo um argumento para isso. Esse tipo de tática tirou a vida de um adolescente sem antecedentes criminais.

Haverá caminhada pela #PazEmNovoHamburgo por um jovem pobre morto na periferia pela BM ou isso só vale pra empresário rico morto por envolvimento com o tráfico?

FICHA TÉCNICA
NovoHamburgo_45x45Rafael Dal Ri; Murilo (Warley), Fred, Luan e Paulinho; Dê, Magrão, Lucas Santos (Luiz Mário), Thiago Humberto (Márcio) e Jonas; Leandrão. Técnico: Roger

aimore_30Marcelo Pitol; Toto, Lacerda, Diego Borges (Diego Rocha) e Pavone; Álvaro Bufalo, Faísca, Mikael, Marcos Paullo (Moacir) e Rennan; Gustavo Colissi (Gian). Técnico: Paulo Porto

Como eles foram

Rafael: 5,0 – pulou atrasado no segundo gol. Poderia ter usado sua experiência pra patifar o jogo;
Murilo: 6,5 – fazia grande partida até sair lesionado, cruzou pro segundo gol;
(Warley: 4,0 – entrou perdido e foi por ali que o Aimoré cresceu);
Fred: 6,5 – ganhou todas pelo alto;
Luan: 5,5 – teve alguma dificuldade por baixo;
Paulinho: 6,5 – apoiou sempre com vigor;
Dê: 4,0 – muito mal e dispersivo, sobretudo na saída pro jogo;
Magrão: 6,0 – distribuiu o jogo com cátedra;
Lucas Santos: 5,0 – foi o companheiro de Leandrão, mas pouco efetivo;
(Luiz Mário: 5,5 – teve pouco a bola e conseguiu, ao menos, um belo passe de letra);
Thiago Humberto: 6,5 – cobrou o escanteio pro primeiro gol e foi bem enquanto teve fôlego;
(Márcio: 6,0 – deu opção de flanco e quase marcou de cabeça);
Jonas: 5,5 – bem na primeira etapa, foi dispersivo na segunda;
Leandrão: 7,5 – melhor em campo, mostrou que o Noia tem centroavante

De férias até o dia 11,
Zezinho

Publicado em Aimoré, Gauchão 2015, Novo Hamburgo com as tags , , , , , , , . ligação permanente.

2 Respostas a Não existe salvação às margens do Rio dos Sinos

  1. William diz:

    Jogo foi bom. Público excelente, porém quieto. Resultado meia boca pros planos anilados. Infelizmente nada disso tem importância devido ao fato ocorrido já bem depois do apito final. Lamentável….

  2. Pingback: Da lama ao caos, do caos à lama | Toda Cancha

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