São Borja: o futebol da fronteira sob as cores do Bugre Missioneiro

SESB (2)

São Borja localiza-se na fronteira oeste do Rio Grande do Sul, é o primeiro dos sete povos das Missões, cidade natal de Jango e Getúlio Vargas, levando, por isso, a alcunha de Terra dos Presidentes. Mas antes de ostentar essa denominação oficial, São Borja foi uma das terras do futebol gaúcho.

O período? Década de 1980. Quando o Brasil e a América Latina começavam a enfrentar uma grande recessão. Com ela veio a estagnação da economia e a alta da inflação. Porém, em São Borja, a história era outra. O trigo estava em alta na cidade, o dinheiro circulava, fazendo com que o comércio local tivesse muita força, tudo isso a valor crescente da pecuária, outra atividade forte na fronteira oeste até hoje.

Aí você que está lendo agora se pergunta: O que isso tem a ver com futebol?

Eu respondo: Tudo. Porque a partir dos campos de plantação vinha o sucesso de outros campos: os de futebol. São Borja nessa época chegou a ser apontada como uma grande força do interior, temido por Inter e Grêmio todas as vezes que esses adversários precisavam se deslocar até a divisa com a Argentina.

Essa força tinha um nome. Sociedade Esportiva São Borja. Chamada de SESB. O Bugre Missioneiro. Era esse time que era responsável por assombrar times clássicos do futebol gaúcho. Fundada em 1977 após a fusão entre Esporte Clube Cruzeiro e Sport Clube Internacional de São Borja.

A Fusão

A rivalidade local entre Inter e Cruzeiro era tão forte, que uma fusão entre os dois clubes era inconcebível pelos torcedores. O Cruzeiro era um time mais popular, enquanto o Inter ficou conhecido por ser um time mais elitista, tendo sido fundado pelo então capitão do Exército Serafim Dornelles Vargas, irmão de Getúlio.

Cassiá Carpes, ex-atleta do Inter de São Borja, do Grêmio e que nas últimas eleições estaduais foi candidato a vice-governador, lembrou que os sócios votaram, inclusive ele, pela fusão dos clubes. “Não tinha outra alternativa naquele momento. O Cruzeiro tinha um Estádio novo e moderno para os padrões da época. O Inter tinha um bom time, bem estruturado e jogava a primeira divisão do futebol Gaúcho. Foi juntar o melhor de um e de outro para sair um clube que pudesse dar grandes alegrias ao torcedor de São Borja”, ponderou Cassiá.

A grande resistência partiu dos fundadores dos clubes. José AntonioDegrazia, narrador da Rádio Cultura de São Borja, disse que um dos maiores expoentes do futebol local da época, quase teve um infarto em uma das reuniões, pois era totalmente contra a união.

Em 1977, com o apoio dos filhos e netos dos fundadores dos clubes e uma garantia da Federação Gaúcha de Futebol de que uma vaga na primeira divisão estadual estaria garantida, a união foi finalmente selada. Em 14 de janeiro de 1977, o azul do Cruzeiro e o vermelho do Internacional ganharam a companhia do branco e fundiram-se, dando origem a Sociedade Esportiva São Borja. O Bugre das Missões. Um time teimoso.

A SESB

SESB (3)

Degrazia relembra os primeiros passos do novo clube: “Achei que esse time demoraria para encaixar. Mas a cidade começou a criar uma mentalidade de São Borja, São Borja, São Borja o que fez com que os torcedores lotassem o Estádio Vicentão, impondo respeito a qualquer adversário que viesse jogar aqui”.

Embalados e financiados pelo comércio local forte e a agropecuária em crescimento, o time tinha salários em dia e até os árbitros da época gostavame chegavam a brigar para apitar em São Borja, pois a quota da arbitragem sempre era paga com antecedência.

Com dinheiro em caixa e um grande plantel, que mesclava jovens jogadores da cidade com contratações pontuais, o time deslanchou. A fórmula da equipe era simples, jogar com uma defesa sólida, dois pontas agudos e rápidos e um goleador centralizado. Dessa forma, em 1980, veio a melhor classificação (6º lugar) da equipe no estadual. A posição deu o direito de participar de um classificatório para a Taça de Bronze, um torneio de âmbito nacional.

Nesta disputa, a SESB deixou para trás adversários como Caxias, Lajeadense, Guarani de Venâncio Aires e Brasil de Pelotas, até enfrentar o Juventude, na final, em jogos memoráveis. Foram três partidas para decidir o classificado. Vitória do Bugre em São Borja, vitória do Juventude em Caxias. Para decidir o representante na Taça de Bronze, uma outra partida foi realizada em Santa Maria, que terminou com uma vitória de 3×2 da SESB. Quatro anos após sua fundação, o Bugre passava de um mero desconhecido para um representante gaúcho em uma competição nacional.

A Taça de Bronze

Sesb

Com uma ascensão meteórica, a SESB foi finalista da Taça de Bronze. Foi também o primeiro clube do interior do Rio Grande do Sul a disputar uma partida no lendário Maracanã.

Tudo começou com jogos de ida e volta contra o Joaçaba/SC. Empate em 0x0 em São Borja e vitória dos gaúchos por 3×1 em terras catarinenses. O adversário seguinte também era de Santa Catarina, o Figueirense. No Orlando Scarpelli, vitória do Figueirense por 1×0. Na volta, no Estádio Cel. Vicente Goulart, vitória da SESB por 3×0 e vaga garantida na fase seguinte.

As semifinais foram disputadas de forma diferente das atuais formas de disputa. Dois grupos, com três equipes cada, onde o líder de cada chave estaria classificado para a grande decisão. A SESB estreou nessa fase vencendo o Olaria por 2×0 em casa, depois empatou em 2×2 com o Dom Bosco, do Mato Grosso, jogando fora de casa. No segundo turno, a partida que, até hoje causa revolta nos são-borjenses: Olaria 1×0 SESB, no Maracanã. Esse jogo vai ficar pra sempre na memória dos são-borjenses. Na cidade, quem viveu este momento, diz ser a maior derrota de todos os tempos. E que foi e será contestada pra sempre.

Em um jogo duro, o time carioca saiu vencedor após um pênalti duvidoso, assinalado pelo árbitro Alvimar dos Reis, aos 45 da segunda etapa. Com isso, faltando uma partida para findar o campeonato, o Olaria somava 4 pontos e a SESB 3. Naquele tempo, a vitória dava dois pontos e o empate um ponto.

A última rodada foi marcada por uma vitória do Dom Bosco sobre o Olaria, por 1×0. O que deixava a SESB em condições de ser finalista se vencesse o time mato-grossense na partida de volta, em São Borja. Porém o zero não saiu do placar nessa partida. O 0x0 em São Borja colocou o Olaria na final da Taça de Bronze de 1981. O time carioca fez a final contra o Santo Amaro, de Pernambuco e com uma vitória de 4×0 em casa, combinado com uma derrota de 1×0 em Recife, ficou com o título.

A chegada da crise em São Borja

Com a crise instaurada de vez no Brasil, São Borja foi atingida sem chances de reação. Em 1985, a desvalorização da pecuária fez com que o comércio local quebrasse e grandes criadores fossem a falência. Muitos perderam tudo o que haviam conquistado na época de ouro e tiveram que deixar a cidade, alguns até cometeram suicídio devido as dívidas e, dessa forma, o dinheiro para o futebol, deixou de existir. Se em um primeiro momento, a luta do time de São Borja era por títulos, depois de 1985 passou a ser pela permanência na primeira divisão estadual com um orçamento reduzido.

Sem os investimentos vindos do setor agrícola, São Borja não conseguiu mais, montar uma equipe competitiva. E declarações vindas da própria Federação Gaúcha e dirigentes de clubes da capital e região metropolitana da época, deixavam claro: a meta era consolidar Porto Alegre e região como epicentro futebolístico do Estado. Viajar até a fronteira era caro, cansativo e deixou de ser rentável. Orlando Fantoni, técnico do Grêmio em 1979, declarou uma vez: “Como é longe essa Santa Borja, bom mesmo é jogar contra o Hamburguense (Novo Hamburgo), aqui pertinho, meia hora de viagem, apenas.”

Cassiá Carpes, que foi atleta e treinador do Grêmio e revelado pelo Inter de São Borja, afirmou que isso foi uma concepção geral. Uma cultura que se criou. “Basta ver que o futebol de Bagé, Uruguaiana, São Borja está minguando.”, ponderou.

A primeira queda da SESB

Sem dinheiro em caixa e com pressões externas, o Bugre não aguentou. Em 1987, após 11 anos consecutivos na primeira divisão, o Bugre caiu para a segundona do futebol gaúcho. E ela acabou se tornando rotina. O final dos anos de 1980 foram nefastos para a história do Bugre. Um dos fatores externos que mais contribuíram para a derrocada, foi a mudança de regime no país. A SESB era um feudo político, mas como partidos não podiam se manifestar durante o regime, todos se respeitavam. Com a volta das ações partidárias, os confrontos dentro do próprio clube, afetaram a atuação do Bugre dentro das quatro linhas.

A exceção a crise data de 1994. Quando o Bugre conseguiu fazer um grande time, liderado por Zé Alcino, e ficou em terceiro na segundona. E se não fosse uma manobra da Federação Gaúcha de Futebol, que mudou o regulamento após o fim da competição, teria voltado para a primeira divisão.

O fim de tudo

O Bugre acusou o golpe. E quase foi à mingua nos anos seguintes. Em 1997, uma nova esperança. A chance de disputar um campeonato segmentado, válido pela divisão de acesso, em uma das vagas deixadas por Aimoré e Atlético de Carazinho. Apesar de aceitar o convite, a SESB não teve verba para estruturar uma equipe e acabou na última colocação. E esse foi o estopim. Estava decretado. Era o fim da Sociedade Esportiva São Borja. Uma página foi virada no esporte são-borjense. Mas já mais esquecida.

Uma nova e fracassada tentativa de reviver o Bugre:

AESB (1)

Em 2009, uma nova tentativa de reviver o Bugre foi feita. Sob o nome Associação Esportiva São Borja, a equipe chegou a ser vice-campeã estadual na categoria Juvenil, mas ficou nisso. Quando tentou se alçar ao profissional, apesar de contar com um bom patrocinador, o time não correspondeu, ficou em último na terceira divisão e todo o filme de 1997 começou a ser reescrito. Hoje nem SESB, nem AESB existem em São Borja. Apenas um patrimônio imaterial, sob as cores vermelha, azul e branca permanece na cidade. O Bugre segue vivo, em algum canto da fronteira, onde a cidade clama, sob o hino da SESB:

 “Bugre, Bugre, Bugre…

Bugre das Missões,

Tua força e tua raça

Emocionam os corações…”

Texto: Fábio Giacomelli – @fabiogiacomelli

Pesquisa: Victor Borges – @victor_bborges

Publicado em São Borja com as tags . ligação permanente.

8 Respostas a São Borja: o futebol da fronteira sob as cores do Bugre Missioneiro

  1. regisnazzi diz:

    Volta São Borja!

  2. fabiogiacomelli diz:

    Todos torcemos para isso, Nazzi. Quiçá, em breve, esse texto se torne obsoleto e estaremos aqui, neste mesmo espaço, tecendo linhas sobre o retorno do Bugre Missioneiro!

  3. Bruno rodrigues diz:

    Meu irmão foi do tempo áureo do futebol são borjense, um dos melhores meios campistas da história da SESB o Canega pena não ser citado em parte alguma do texto.

  4. fabiogiacomelli diz:

    Nenhum atleta foi citado em especial, Bruno, justamente para não excluir histórias que tenham construído na equipe. O que está apresentado aqui, é um breve histórico do clube.

  5. julio moller diz:

    Meu cunhado, o zagueiro Jesus ( vindo do Grêmio ) fazia parte do time no final dos anos 70…

  6. MATHEUS OTTO diz:

    em breve torcedores do bugre, um guerreiro com sangue missioneiro está por chegar em São Borja para aclamar uma nova era no futebol do bugre, oque posso afirmar que esse grande profissional irá erguer o nosso futebol com honestidade, transparência, caráter e bom futebol pois é um guerreiro é um lutador de lanças afiadas que irá marcar novamente o território em breve todos de São Borja irão conhecer o mestre ! .SÃO BORJA RUMO A SÉRIE A D GAUCHÃO, COPA DO BRASIL E SÉRIE D DO BRASILEIRÃO AGUARDEM !

  7. Marco Antonio Pereira diz:

    A foto postada da equipe do São Borja (década de 1980), contava com o experiente centroavante Francisco. Ele jogou no Pelotas, no Grêmio (em 1978) e no Joinville, onde sagrou-se campeão catarinense em 1979. No Grêmio chegou a colocar o excelente centroavante André Catimba no banco de reservas.

  8. hi volta são borja bugre das missoes

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *