Os Negrinhos da Estação são racistas?

Flâmula Xavante/Colecionador Xavante

O questionamento não tem o objetivo de ser irônico, mas visa encontrar respostas ao – até então – suposto ato racista na partida realizada no estádio da Boca do Lobo, no último domingo (15), quando o Brasil recebeu o Internacional de Porto Alegre – e perdeu por 2 a 0. Após o jogo, o jogador colorado Vitinho denunciou às rádios que foi chamado de “macaco” por torcedores do Brasil. Devemos, acredito e defendo, nos debruçarmos sobre a questão antes de chegarmos a conclusões precipitadas.

Inicialmente, é preciso contextualizar e, para isso, devemos fazer um resgate histórico. O Grêmio Esportivo Brasil, fundado em 7 de setembro de 1911, foi rapidamente apelidado como o time dos “Negrinhos da Estação”, pois as instalações do clube ficavam próximas à estação ferroviária e a torcida já começava a traçar as suas características, entre elas o fato de que era majoritariamente composta por negros. Logo em 1919 veio o título estadual, o primeiro do RS. Os jogadores, que venceram em Porto Alegre o Grêmio por 5 a 1, voltaram a Pelotas num navio a vapor e foram recepcionados com balas de canhão – de forma festiva, é claro! O clube, que já se infiltrava nas camadas mais humildes, ainda teve uma enorme conquista logo no início da sua história. Esses fatores colaboraram para que o Brasil se transformasse no clube mais popular da cidade.

Mesmo com o passar dos anos, a torcida não mudou as suas características: presença massiva de negros, muita cachaça e a sua enorme charanga com tambores treme terra e instrumentos de sopro. O apelido “Xavante”, que surgiu na metade do século passado, ainda veio para enriquecer o vocabulário do futebol gaúcho. Oriundo de uma tentativa de comentário pejorativo dito por um presidente do Pelotas em referência à nossa torcida, o apelido foi adotado pela – agora – Xavantada, que nunca escondeu: Xavante eu sou, rubro-negroô! Os laços estreitos entre torcedor e clube ainda seriam fundamentais para a construção e posterior ampliação do estádio Bento Freitas.

A Xavante!

As referências aos Negrinhos da Estação nunca foram embora. O hino do clube – que veste vermelho e preto – sempre deixou claro: Brasil, as tuas cores são o nosso sangue, a nossa raça. Todas essas marcas não ficaram apenas na história ou no papel, mas continuaram personificadas nos milhares de torcedores que se sentem parte integrante de tudo isso. Nós nos sentimos e somos Xavantes, negros ou não. Marcola (foto abaixo) é, provavelmente, o maior exemplo. Fanático e sempre bêbado (não somente) de paixão, ele era presença certa. Tornou-se um símbolo e é respeitado até hoje. Atualmente, o pequenino Samuel assume o papel de emocionar e arrepiar a própria tribo – entenda a razão.Marcola

Por todos esses motivos, a torcida do Brasil sofreu – e ainda sofre – com as injúrias raciais advindas das arquibancadas alheias, geralmente menos ocupadas do que as nossas, seja em Pelotas ou fora daqui. Muitas dessas manifestações acontecem há muitos anos e são conhecidas por todos que acompanham futebol. Bananas ou balas dessa mesma fruta muitas vezes foram jogadas em nossa direção. Cansei de ver marmanjos gesticulando como se fossem macacos. Muitos destes precisaram sair do estádio escondidos em porta-malas depois, é verdade, mas apesar disso esses episódios e cânticos são escancaradamente ignorados, ou ainda minimizados, a ponto de parecerem comuns e aceitáveis. Não são.

Por outro lado, é prudente e sensato afirmar que existam racistas enrustidos no seio da torcida do Brasil. Parece contraditório e sem a mínima lógica, mas como encontrar sentido em pessoas que têm aversão a outro ser humano apenas por ter outra cor de pele? No nosso caso, os racistas enfrentam um dilema ainda maior ao integrarem e dividirem um espaço construído e amplamente utilizado pelos Negrinhos da Estação – ou, atualmente, Negrinhos do Canal do Pepino, um clube negro na cidade mais negra do estado, que orgulha os corações de uma falange ensandecida.

Foto: XASC

O clube tem, atualmente, inúmeros compromissos e situações que exigem cuidado, como a reforma/construção de uma nova Baixada, a busca por um estádio para continuar a disputar os campeonatos que disputa ou ainda o gerenciamento dos mais de oito mil sócios, uma novidade que obriga a existência de trabalho e planejamento. No entanto, o clube, em respeito à sua própria origem e à sua torcida (que sempre precisou conviver com episódios semelhantes), deve apurar essa denúncia para: 1) encontrar o(s) envolvido(s) e contribuir para a punição deste(s); 2) e mostrar o seu comprometimento em coibir essa prática, afinal em diversos momentos fomos (e seremos) nós os agredidos por esse tipo de comportamento.

Enquanto isso, o jogador do Internacional, Vitinho, merece respeito. Me custa a crer que um jogador que disputa Copa Libertadores da América queira se promover (ainda mais?) às custas da nossa torcida. Porém, se comprovado que não houve esse tipo de injúria dirigida a ele, o clube precisa ir ao encontro dos seus direitos, afinal teve a sua imagem desgastada nacionalmente e o episódio tem sido utilizado por indivíduos que buscam esse tipo de situação para justificar as práticas racistas do seu próprio bando.Adesivo Gangue da Farinha/Colecionador Xavante

Por fim, opino ainda que o Grêmio Esportivo Brasil deve agir de forma a coibir apenas o racismo, sem que essa intervenção jurídica pareça deslegitimar a luta desses jogadores (e de todas as pessoas, em geral) que sofrem com a intolerância e a pequenez humana, diariamente. Devemos ajudá-los a vencer o racismo ao invés de tratá-los como centroavantes que estão prestes a invadir a nossa grande área. Eles não são nossos inimigos. Eles também têm o nosso sangue e a nossa raça.

AH, eu sou Xavante!,

Pedro Henrique Krüger | @pedrohckruger

Fotografias: Colecionador Xavante e Xavantes de Santa Catarina (XASC).

Publicado em Brasil de Pelotas, Gauchão 2015 com as tags , , , , , , . ligação permanente.

5 Respostas a Os Negrinhos da Estação são racistas?

  1. Natan Dalprá Rodrigues diz:

    Primeiramente, baita texto!

    Em segundo posto, cara, é evidente que existam essas porcarias, como tu citaste, em qualquer torcida. O problema é que a mídia da capital adora crescer o monstro quando envolve o interior e dar uma ATENUADA quando envolve eles mesmos.

    O caso da guria na Arena denota o que estou dizendo…

  2. Régis diz:

    Na Arena a guria virou bode expiatório de uma ação secular da torcida do Grêmio. Esportivo foi rebaixado por muito menos!

  3. Esequias Pierre diz:

    Espero que o Brasil e sua torcida encontrem o melhor desfecho para esse episódio, parabéns pelo grande texto, aqui em Recife o Santa Cruz sofreu e sofre por suas origens e suas bandeiras, fomos mais de uma vez marginalizados por mal feitos de torcedores do clube. Estou na torcida, hoje e sempre pelo clube e sua fantástica torcida.

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