A Cancha: Estádio da Taba Índia, SC Guarany

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Como já disse em outro texto, meu pai foi quem me apresentou ao apaixonante mundo do futebol e à cancha, mesmo não tendo nenhuma ligação com o Guara, ou melhor, quase nenhuma. Meu pai e meu bisavô (que o criou) eram ávidos torcedores do Guarany de Cruz Alta, onde também meu velho jogou por quase uma década entre base e profissionais e foi às redes por algumas vezes com a camisa 9 do Índio.

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Meu pai, o diferente, no juvenil do Guarany.

O Jequitibá da Serra que tanto lhe rendeu histórias de seu tempo de jogador e de torcedor com meu bisavô, hoje não passa de várias páginas belas da história do futebol do interior. O tricampeão da Segundona, maior campeão citadino cruz-altense e que participou da Série C nacional em 1988 fechou suas portas para o futebol profissional em 2001, perdeu grande parte de sua estrutura e em 2013, ano de seu centenário, somava dívidas superiores à 30 milhões de reais.

Um pouco de história

PRIMEIRO CAMPO DO GUARANY

Primeiro campo do Guarany

Fundado em 1913, o Guarany surgiu como grande força da região, jogando no campo aberto da firma Furian & Cia, atual Vila Brenner até 1928, quando inaugurou outra sede, e que não possui um registro de onde estava localizada. No ano seguinte o clube fechou as portas e regressou em 1942, mais sobre esse período aqui.

Em 1942 foi erguida a nova casa Alvi-azul, a Taba Índia, que começou com vitória por 2×1 no Rio-Gua. O erguimento da cancha com pavilhão de madeira parecido com a Bombonera (ns) marcou uma nova era para o futebol cruzaltense. Os clássicos entre Guarany, Nacional e Riograndense moviam a cidade, o vencedor atropelava os rivais regionais com frequência, chegando às finais do Gauchão, ou ganhando a Segundona. Entre idas e vindas, o clube fechou por algumas temporadas, e nos anos da fusão dos times da cidade, a ACAFOL, a Taba foi deixada de lado, pois os jogos eram mandados no Morro dos Ventos Uivantes, cancha do Nacional. Mais sobre esse período aqui.

Primeiro pavilhão da Taba.

Primeiro pavilhão da Taba.

O sucateamento do estádio teve fim nos anos 80, quando um grupo decidiu retomar as atividades do Jequitibá da Serra. O antigo pavilhão foi derrubado e deu lugar a uma moderna arquibancada com cadeiras e elevado em relação ao gramado, atrás da goleira à direita do pavilhão novo. Houve também a instalação de iluminação, que marcou o retorno do clube às disputas profissionais em 1985. A inauguração desta era foi em um amistoso contra o Nacional do Uruguai, vencido pelas representação charrúa por 2×0.

O período pós-1985 marcou um crescimento vertiginoso do Guarany, que saiu da Terceirona para a elite em 1988 (ano em que também disputou a Série C nacional), voltou em 1990 e permaneceu até 1994. Nos escalões inferiores do desporto bagual permaneceu até 2001, fechando por algumas vezes neste período, mas definitivamente no primeiro ano do milênio. Os últimos suspiros de futebol profissional em Cruz Alta foram as fracassadas jornadas do Nacional em 2004 e da nova fusão da dupla Gua-Nal em 2008.

De lá para cá tudo é passado, o Jequitibá foi perdendo patrimônio e está para perder sua casa, e que provavelmente deixará para sempre os corações daqueles torcedores locais que tiveram a sorte de acompanhar o Guarany em campo. O centenário clube recebeu lembrança em um documentário produzido por acadêmicos da UNICRUZ que pode ser conferido abaixo:

A visita

Estive na Taba Índia pela primeira e única vez em janeiro, das outras vezes que meu pai pensou em me levar lá, não tivemos o prazer de conhecer a cancha da família. Quando bati na porta da cancha, encontrei o senhor Paulo Roberto, que reside abaixo das arquibancadas do pavilhão e gerencia uma escolinha para crianças carentes, que batem bola no gramado três vezes por semana e disputam campeonatos regionais. Cordialmente ele me autorizou a bater uns retratos dentro da Taba Índia e fiquei triste com o que vi.

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O gramado esteja melhor que o de alguns clubes ativos, e aí é mérito do residente da parte inferior ás bancadas do estádio. O estádio está em processo de deterioração de sua estrutura, inclusive fui atacado por pulgas quando pisei nos resquícios das cabines de imprensa.

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Ao ser questionado por mim sobre o porquê do clube estar de portas fechadas, Paulo Roberto foi enfático quando afirmou que a causa disso foram dirigentes que, nas palavras dele, limparam os cofres da instituição e aliando isso à falta de apoio do empresariado local, vemos o futebol de Cruz Alta sem data de retorno. O mesmo vale para o Riograndense, time de meu avô (que foi escriturário da ferrovia de mesmo nome e goleiro do clube), e o Nacional, PIOR CLUBE da cidade (ns), que nas palavras de meu amigo Davi Pereira, talvez é o mais preparado para levar o nome da terra de Érico Veríssimo de volta ao profissionalismo.

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Duas coisas me motivaram a escrever esta crônica: a notícia de leilão da Taba (posteriormente batizado também como Lino Ceretta), e à memória de meu pai. O leilão e possível demolição da Taba Índia para servir aos anseios da especulação imobiliária que avança pelo Brasil (a passos mais lentos que antes) mesmo com a crise, pode derrubar um pedaço importante das memórias daquela que já foi uma das grandes forças do interior gaúcho, daqueles que, como meu pai, vestiram a camisa azul e branca e vibraram com ela em inúmeros Rio-Guas e Gua-Nais.

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Meu velho completaria mais um ano de vida hoje e fará sete anos de ausência semana que vem. Tenho certeza que esta notícia o deixaria muito triste, lhe tirando um pedaço de sua alma. Por isso o dedico esta pequena lembrança à memória dele e que sigo querendo ser como ele em tudo que faço na minha vida.

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Fotos: arquivo pessoal e Memorial do Esporte de Cruz Alta

A todos que anseiam por um interior forte;

Régis Nazzi

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3 Respostas a A Cancha: Estádio da Taba Índia, SC Guarany

  1. pedrohckruger diz:

    Não tenho o que acrescentar. Apenas: obrigado, Nazzi.

  2. Régis diz:

    Valeu PHCK! Sabe que tamo junto!

  3. Raphael diz:

    Pois é eu passo pela antiga Taba Índia todos os dias e com a placa de leilão me pergunto: Para quem irá o dinheiro da possível venda? Será que irá para o governo? Será que ainda há um presidente no clube? Porque o patrimônio do clube foi a leilão?
    Abraço.

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