Entrevista: Ben Hur Pereira

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Benhur Pereira, atual técnico do Novo Hamburgo e jogador anilado na década de 1980 (Foto: Giovani Junior/ECNH)

Ao completar uma década de profissão, Benhur Pereira conheceu o inferno e o céu em 2016. Demitido do comando do Passo Fundo após duas rodadas do Gauchão, o técnico hamburguense via-se cada vez mais distante dos louros da vitória. Agarrando-se ao último fio de esperança, assumiu o Cruzeiro em meio ao campeonato, com o time de Cachoeirinha a passos largos rumo ao rebaixamento. Onde só se via terra infrutífera Benhur enxergou a luz e semeou o impossível: com 10 pontos nas últimas quatro rodadas, salvou o Estrelado do rebaixamento com direito a vitória sobre o Veranópolis fora de casa na jornada derradeira.

Após o feito, voltou a sorrir e para casa: foi eleito o comandante do Novo Hamburgo para a continuidade de 2016. O clube anilado o revelou como jogador, na década de 1980, e lhe abriu as portas para voltar ao futebol após a aposentadoria dos gramados. Uma vez mais, o Anilado entrava na vida de Benhur e o Toda Cancha, através de uma entrevista por e-mail, bate uma prosa com o técnico do Noia.

Desde já, um agradecimento do próprio Benhur e à Assessoria do ECNH, na pessoa de Giovani Junior, que abriu a tapera para este humilde site.

Toda Cancha: Como o ex-jogador Benhur Pereira virou o treinador Benhur Pereira?
Benhur Pereira: Voltei a trabalhar no futebol em 2005 como gerente no Esporte Clube Novo Hamburgo, trabalhando com o presidente Bruno Fehse e o técnico Bebeto Rosa, e logo após Gilmar Iser. Em 2006 fui convidado para trabalhar no sub-20 acumulando as duas funções. Após a Série C, e as saídas do Gilmar e do [técnico Ronaldo] Bagé, assumi o profissional na Copinha de 2006 e simultaneamente o sub-20.

Você participou da formação do grupo do Novo Hamburgo para Série C de 2005 como gerente e para Série D de 2016 como treinador. Quais foram as principais diferenças?
Em 2005, na verdade, se montou o grupo no Gauchão de 2005 e se manteve mais de 80% do grupo campeão da [Copa] Emídio Perondi, apenas contratando atletas para reforçar as posições carentes. Já na Série D o grupo foi montado junto com o Vice de Futebol Serginho [Schoernadie] em 15 dias: mantiveram-se alguns atletas do Gauchão, subiram dos juvenis cinco atletas, mais três que eram dos juniores, e aí completamos com atletas das funções que faltavam.

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Elenco do Noia campeão da Copa Emídio Perondi, em 2005: dos atletas na foto, apenas o volante Neuri e o zagueiro Rosalvo não ficaram para a disputa da Série C. Benhur Pereira está na fila do meio, o último da esquerda para direita (Foto: ECNH)

O que faltou para o Novo Hamburgo conseguir o acesso à Série B em 2005? Fala-se muito de incidentes antes do jogo contra o América/RN, em Natal. O que houve lá?

Fizemos uma grande Série C; na época subiam duas equipes e classificamos para o Quadrangular Final. O nível de investimento entre as equipes era muito diferente, superamos [os adversários] na sequência de trabalho e no conjunto do grupo. Em relação a problemas em Natal, não vejo algo que possa ter prejudicado o grupo, após a derrota parece que tudo está errado. Fomos campeões da Emídio Perondi e da Copa RS, e quarto na Série C. Um grupo muito bom, com atletas de alto nível.

Ao assumir a Seleção Brasileira, o técnico Tite disse que existem duas vertentes do estilo gaúcho de jogar futebol: a escola de Ênio Andrade e a escola de Carlos Froner. Quais são as diferenças? Seu estilo se adequa a alguma delas?

Não escutei a entrevista do Tite, mas gostava do Ênio Andrade: time se caracterizava com força na marcação, com linha de 4 defensiva forte, meio com muita pegada, um ponta esquerdo ou direito fazendo o quarto homem de meio e atacante de velocidade, sempre com um 9 de referência, de força, estilo Índio do Coritiba,  campeão brasileiro [em 1985].

Em quais treinadores você se inspira? Por quê?

Como atleta gostava muito do Tadeu Menezes, pela postura e como lidar com os atletas, Mário Sérgio, com treinamentos sempre competitivos e campos reduzidos. Hoje gosto do Tite, com times sempre bem organizados e competitivos, e gosto do trabalho do Roger, com muita posse de bola e movimentação dos atletas.

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Tadeu Meneses, técnico do Noia em 1986, 4º colocado no Gauchão daquele ano (Foto: Lemyr Martins/Revista Placar)

Qual seu esquema tático favorito? Por quê?

Prefiro o 4-4-2, abrindo espaços para passagem dos laterais com posse de bola e transições ofensivas rápidas ,e na recomposição defensiva em duas linhas de 4.

Como é seu estilo preferido de marcação: individual, zona ou zona com encaixe individual? E na bola parada?

Gosto da marcação zonal, mesmo que às vezes sacrifiquemos algum atleta para a recomposição das linhas, normalmente um atacante. Na bola parada prefiro e utilizo a marcação individual, apenas com um homem na bola, um parado no primeiro pau e um dentro do gol, cada atleta marcando o seu pré-definido na semana e na palestra.

Como gosta que atue sua linha de defesa quanto possui a bola: próxima à própria área ou à altura do meio-campo?

Se possível na altura do meio-campo, mais longe da nossa área. Acho que a partir da nossa intermediária seria o ideal, pois gosto da posse de bola.

Recentemente tivemos as disputas da Copa América e da Eurocopa. O senhor acompanhou esses torneios? O que lhe chamou a atenção quanto às equipes?

Sim, acompanhei a maioria dos jogos.  Gostei da intensidade dos jogos e organização das equipes na Euro. Equipes como Itália, Alemanha e Portugal, com variações no esquema de jogo e com muita qualidade dos seus atletas. Na Copa América, Argentina e Chile com um grande nível individual e organização defensiva e ofensiva, e com um nível de competitividade muito grande.

Quanto tempo teria sua pré-temporada ideal? Quais tipos de trabalho você faria? Quantos amistosos ou jogos-treinos gostaria de realizar antes da estreia num campeonato?

Gostaria de fazer de 45 a 50 dias de pré-temporada, com 5 a 7 amistosos, aumentando o nível de exigência dos jogos e treinos.

Com uma semana de espaço entre um jogo e outro, sem necessidade de viagem, como seria sua semana de treinamentos?

Jogo no domingo, semana cheia: folga na segunda, terça e quarta com dois turnos de trabalhos físicos e técnicos, quinta, sexta e sábado pela manhã com treinos técnicos.

Quanto tempo da semana de trabalho é dedicado à análise do adversário? Como é feita essa análise?

Informações dos adversários são muito importantes, hoje a internet facilita bastante. No Novo Hamburgo o [auxiliar técnico] Rodrigo Ferrari, tendo em mãos o vídeo do jogo, faz a análise com erros e acertos das linhas defensivas e ofensivas, mostrados na concentração dos atletas e trabalhados na semana. Sempre valorizando nosso time. O vídeo após a derrota contra o J. Malucelli [derrota por 3×0 no Estádio do Vale, estreia na Série D de 2016] foi de grande valia para algumas mudanças na equipe e melhora no posicionamento.

Rodrigo Ferrari, à esquerda, é o braço direito de Benhur Pereira em sua comissão técnica. Ainda na foto, à direita, Serginho Schoernadie, Vice de Futebol (Foto: Eduardo Pires/Onze Futebol)

Rodrigo Ferrari, à esquerda, é o braço direito de Benhur Pereira em sua comissão técnica. Ainda na foto, à direita, Serginho Schoernadie, Vice de Futebol (Foto: Eduardo Pires/Onze Futebol)

O que o senhor pensa da periodização tática?

Importante ter a interação com a preparação física e poder em cada trabalho, dentro do possível, utilizar as partes física, técnica e tática. Aos poucos vai se introduzindo no nosso futebol, e na nossa sempre falta de tempo é importante antecipar processos de treinamentos ou ganhar tempo na preparação da equipe.

Quais livros sobre futebol você leu ao longo de sua formação como treinador? Quais recomenda?

Importante a leitura. Entre os mais gostei ‘A bola não entra por acaso’, de Ferran Soriano, ‘Transformando suor em ouro’, do Bernardinho, ‘Os números do jogo’ [de David Sally e Chris Anderson], ‘A perfeição não existe’, do Tostão; e o último foi ‘Guardiola confidencial’ [de Martí Perarnau]. Também gosto de ‘Onze anéis’, do Phil Jackson, e ‘Nunca deixe de tentar’, do Michael Jordan.

Quais características mudam para os zagueiros no 4-4-2 para o 3-5-2?

Em 2005 jogamos num 3-5-2 que foi vitorioso, um trio de zagueiros que com suas características fizeram uma linha defensiva forte e com muita qualidade de saída de bola. Em ambos os esquemas é importante a característica dos atletas e, principalmente, treinos e tempo para adaptação.

Como o senhor comunica um jogador que ele será substituído no intervalo?

No término do primeiro tempo nos reunimos na sala da comissão e, havendo mudança, o auxiliar comunica aos atletas no vestiário sempre após do DM conferir a situação dos atletas.

O senhor é a favor da concentração para jogos em casa?

Sim, a favor, para o atleta focar mais no jogo. No sábado passamos vídeo ou palestra de 20 a 30 minutos antes da janta para os atletas; penso que, às vezes, o atleta descansa e se alimenta corretamente.

Em 2012, quando o ex-jogador Ricardinho assumiu como técnico do Paraná Clube, o CREF (Conselho Regional de Educação Física) contestou sua atuação como o treinador, pois o mesmo não era formado em Educação Física. O que o senhor pensa disso?

Penso que toda formação e qualificação são importantes para o crescimento do ser humano. No caso da Educação Física para o treinador não vejo como obrigatória, e sim para o preparador físico que comanda e supervisiona toda atividade física dos treinamentos.

A CBF pretende que até 2018 só poderão atuar no país treinadores que possuam as licenças obtidas em seus cursos de formação. Como o senhor vê essa obrigatoriedade?

Concordo plenamente, apenas discordo dos valores às vezes fora da realidade dos profissionais do interior e divisões inferiores, dependendo de bolsas para poder fazer o curso. E as datas poderiam ser de acordo com a maioria de campeonatos porque é difícil se ausentar dos treinamentos.

Como seria seu calendário ideal para as equipes do interior do Rio Grande do Sul, sobretudo as que não disputam competições nacionais?

O Gauchão poderia ter 20 clubes a partir de maio, classificando de 6 a 8, dependendo das divisões do Brasileiro, para um Super Gauchão com início em final de janeiro, com Inter, Grêmio, Brasil, Ypiranga e Juventude, que estão nas séries A, B e C. O Super Gauchão teria 12 equipes. E, claro, os 20 clubes na série classificatória deveriam ser subsidiados.

De passagem nesse galpão,

(volta) Zezinho

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2 Respostas a Entrevista: Ben Hur Pereira

  1. William diz:

    Boa entrevista! Bem técnica, difícil de se ver e ler por aí.

  2. Denis Toca Raul diz:

    E aí, Zezinho!

    Retorno em grande estilo. Parabéns! Muito válida uma entrevista dessas para conhecer as opiniões e preferências do nosso treinador, ainda mais numa expectativa de continuidade do trabalho. Relembrando o ano de 2005, percebe-se que essa continuidade deu um bom resultado, motivo pelo qual podemos esperar o mesmo para 2016 / 2017.

    Abraço!

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