Brasil, contigo não conheci a decepção

Baixada. Foto: PHCK

É comovente ler o Toda Cancha, um espaço plural e, ao mesmo tempo, muito semelhante. Nestas páginas virtuais vibrei com as conquistas dos meus amigos e amigas, chorei com as suas decepções e sorri com a escrita inteligente e crítica dirigida a “N” seres vivos que produzem apenas ADUBO. Acompanhar o processo de desgrenalização de cada um é um privilégio que atinge especialmente aqueles que vivenciaram capítulos próximos entre si na história da própria vida. Eu posso dizer que não precisei me desgrenalizar. Não cheguei a esse ponto. Parei quando percebi, ao lado de meu pai, que a decepção não advém de quem luta — e assim perde ou ganha — com paixão. E logo quis me juntar àquele bando de fanáticos e barulhentos do estádio Bento Freitas.

Contigo, Brasil, não conheci a decepção.

Desde as minhas primeiras idas à Baixada, reconheci o valor que há no sentimento em uníssono. Mesmo sem conhecer metade das PALAVRAS DE BAIXO CALÃO (ns), vociferei com vontade tais músicas. Recordo-me bem do primeiro clássico Bra-Pel, no primeiro ano do século XXI. Que me perdoem os meus amigos áureo-cerúleos, mas gritei a plenos pulmões “que coisa linda ver o lobo se foder”. Formei caráter após o pênalti convertido e o 1 a 0 no placar. Como haver decepção?

PHCK. Arquivo pessoal

Segurando firme a mão de meu pai, recebi os cumprimentos de amigos, desconhecidos, vendedores de pipoca ou amendoim, e senti uma mistura de cheiros característica da cancha: fumaça de foguete, fumaça de fumaça (ns), FEZES dos cavalos da Brigada, churrasquinho, MARIJUANA, bebidas alcóolicas das mais derivadas, cigarro (em excesso), pipoca (queimada, também) e povo. Gente por todo lado, de todos os tamanhos e cores, com camisas de todas as épocas da história rubro-negra. Aqui também não encontrei a decepção.

Durante as aulas no ensino fundamental, vivi rodeado de amigos torcedores da dupla de Porto Alegre. Mesmo sem saber a Fórmula de Bhaskara ou a distância entre o interior e a capital, todos eles encontravam na televisão o que queriam. Eu me chocava, também, com o escudo de ambos os clubes em todos os lugares: na páscoa, nos trabalhos de colégio, nas roupas à venda nos camelôs e no videogame. Entretanto, sempre achei o escudo Xavante muito mais original e atraente. A minha única decepção quanto a distintivos foi perceber que eu sabia mais do que o próprio torcedor colorado pois muitas vezes vi no automóvel do sujeito o adesivo colado de cabeça para baixo no vidro traseiro.

Ainda no ensino fundamental, quando eu vivi um momento ímpar de interesse pelos estudos, recebi de meu pai um papel que garantiu a minha inscrição na escolinha de futebol do Xavante. Até no gramado do estádio Bento Freitas tive o prazer de jogar – a minha decepção aqui foi ter acertado o travessão mesmo com um goleiro com um metro e meio de altura (ns). Minha aplicação tática também inexistiu, mas a emoção de imitar os jogadores do meu time de futebol num gramado de verdade, num estádio vivo e barulhento, eu nunca esqueci.

PHCK. Arquivo pessoal

Quando o Brasil não conseguiu subir à primeira divisão contra Glória e Avenida, os meus dois primeiros algozes, eu presenciei o estádio lotado. A tela sacudiu de forma assustadora, mas mais para os visitantes. Na hora do nosso gol, vi torcedores beijando Santo Expedito, outros a cerveja, mas todos celebrando o possível acesso. Ele não veio. Chorei muito após o apito final, mas mesmo assim não decepcionei. “Olha o amor daquele guri e o Brasil fazendo-o passar por isso”, lamentou um torcedor anônimo. Decepção? Não, óbvio que não. Um coração entristecido não significa traição.

Em 2004, assisti in loco um Bra-Pel no estádio rival. Já contei essa história. Lá, com nove jogadores nossos contra onze deles, vi a torcida Xavante completar o time. Não só vi como participei. Superlotamos nosso espaço. Não é clubismo, delírio ou memórias românticas de uma final histórica. Quem assiste, concorda. Eles venciam e vaiavam. Nós perdíamos e gritávamos. Resultado: ganhamos no grito, taça com gol de ouro e perda da voz. Meu pai ficou uma semana sem poder falar, mas mesmo se pudesse nada diria, pois o coração estava em festa e ele supera quaisquer palavras.

Foram muitos jogos, vitórias e derrotas. Ainda presenciei o surgimento de um verdadeiro ídolo, o uruguaio Claudio Milar, que marcou golaço atrás de golaço. Esse não beijava o escudo por protocolo. Chorava. Com as meias caídas, cortava os zagueiros adversários. Depois, em 2009, o nosso time tombou no barranco. Mesmo assim, o Grêmio Esportivo Brasil ressurgiu e, no mesmo ano, brigamos pau a pau com o América-MG por uma vaga à B. Os mineiros foram mais felizes, mas demonstramos raça mesmo na dor. A decepção nunca nos foi alternativa.

Nos últimos anos, com o retorno de Rogério Zimmermann ao Bento Freitas, temos visto uma evolução quase inacreditável. Da segunda divisão estadual à segunda divisão nacional. Se me contassem eu não acreditaria. Atualmente, somos atrevidos postulantes a uma vaga na elite do futebol brasileiro. É provável que não a alcancemos, até porque nunca foi o objetivo maior, mas a nossa façanha consiste exatamente nos saltos que damos e são maiores do que a perna, impulsionados sempre por uma torcida exigente e apaixonada (e assim funciona um amor de verdade).

PHCK. Arquivo pessoal

Portanto, meus caros, de fato eu não precisei desgrenalizar. Foi necessário, sim, a construção de um profundo amor pelo clube da Baixada. A fome só existe quando há vontade de comer. E eu tive muita vontade de integrar esta torcida, que enche os pulmões para cantar o próprio hino e que possui um fanatismo que castiga desde as cordas vocais ao couro dos grandes tambores vermelhos. Eu não desgrenalizei, eu XAVANTEI para que eu nunca sentisse decepção comigo mesmo.

É uma honra, senhores. Rumo a Tóquio!

Pedro Henrique Costa Krüger | @pedrohckruger

Salvar

Publicado em Brasil de Pelotas, Desgrenalização com as tags , , , , , , , , , . ligação permanente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *