Os dez dias que abalaram o Gauchão – ou o que John Reed não escreveu sobre a Revolução Russa

ComemoracaoQuando o escritor americano desembarcou naquela Rússia czarista tomada pelo proletariado há um século, certamente o fez guiado pelo mesmo espírito que levou Plínio, o Velho, a cruzar a baía de Nápoles enquanto o Vesúvio expelia lava e cinzas incandescentes em 79 d.C. – o relato mais fiel da história sempre tenderá a ser registrado por quem a viveu em verso, prosa, alma e chamas.

Porque quando olhava a tabela do Gauchão de 2017, o torcedor do Novo Hamburgo se esvaía em suor para tentar parir 12 possíveis pontos para que o clube não fosse rebaixado e negasse sua morte por mais um ano. E dado os desempenhos da pré-temporada e o equilíbrio de forças dos adversários isso só seria possível numa sinergia elevada à enésima potência entre jogadores, comissão técnica, diretoria e adeptos. Talvez tenhamos exagerado na dose.

Esbaforido, molhado e aliviado era meu estado à beira da janela quando soou o apito final para Novo Hamburgo 1×0 Caxias. O triunfo na estreia era fundamental para a briga de foice no escuro que se avizinhava e a equipe serrana fez de tudo para que o Noia não levasse os três pontos; afinal, fora o Anilado quem colocara o último prego no caixão do rebaixamento Grená em 2015. Menos mal que os jogos aconteceriam, em sua maior parte, nos finais de semana, possibilitando ao torcedor recuperar seu estado anímico e seu pudor – e eventualmente comer e dormir – até a próxima batalha.

Acontece que a segunda rodada do Campeonato Gaúcho era uma karma na vida do Novo Hamburgo. Após Elton Corrêa converter a penalidade máxima assinalada a um minuto de jogo e abrir o marcador contra o Passo Fundo, pela segunda jornada do Gauchão de 2004, logo o plantão da Rádio ABC 900 complementava em meus ouvidos: ‘e se vencer o Passo Fundo, o Novo Hamburgo iniciará o Gauchão com duas vitórias consecutivas, o que não acontece de 1989’. Faltando 10 minutos para o apito final, Felipe empatou a partida e manteve o jejum.

E esse maldito me perseguiria nos campeonatos de 2006, 2009, 2010, 2011, 2014 e 2016. Porque por mais que saibamos que uma vitória anilada na estreia será inexoravelmente seguida por um resultado broxante, nossa mente juvenil ainda saliva ao ver o nome da mulher amada ficar online no MSN, ainda que seu status sempre fique ausente quando abrimos a janela para lhe enviarmos um ‘oi’ esperançoso. Mas não em 2017.

Ignorando o retorno de D’Alessandro ao Beira-Rio e o calor senegalesco que se abatia sobre o Beira-Rio, o Anilado aprontou a primeira zebra do campeonato e bateu o Inter por 2×1, justamente no primeiro jogo do Colorado em casa após seu rebaixamento no Brasileirão. O czar argentino era abatido pelo General Verão em seu Sábado Sangrento particular.

Preto comemora o crime: o capitão e maestro da equipe estufa os cordéis da cidadela colorada para fazer história (Foto: Agência Estado)

Preto comemora o crime: o capitão e maestro da equipe estufa os cordéis da cidadela colorada para fazer história (Foto: Agência Estado)

Inevitavelmente os holofotes voltaram-se todos ao Novo Hamburgo, único 100% após dois os jogos. E ao contrário do passado recente, o Noia não se atrapalhou ao ser o centro das atenções: despachou São José e Juventude em sequência e alinhou quatro vitórias seguidas, o que não ocorria desde 1971. A história estava sendo reescrita diante dos nossos olhos. E chegava a minha vez de vivenciá-la in loco.

Numa sexta-feira quente de véspera de Carnaval o Noia enfrentou o São Paulo num Aldo Dapuzzo lotado – e sem o maestro Preto na meia-cancha. Numa frieza incomum, o Novo Hamburgo logo aplacou o ânimos rubro-verdes e abriu o marcador num tento de Conrado. Enquanto o Leão descabelava sua juba diante daquele oponente matreiro e perigoso, a ficha caía na minha cabeça pela primeira vez, ao concatenar os números da tabela com o desempenho em campo: aquele time poderia ser campeão gaúcho.

Sequer o empate nos estertores da primeira etapa, inflamando a torcida riograndina, pode deixar o Novo Hamburgo de trilhar seu caminho de quebras de recordes. Jardel e João Paulo trataram de dar ao Noia sua quinta vitória consecutiva, fazendo desse início o melhor da história do clube em Gauchões – feito esse que vi o goleiro Matheus contar por telefone aos seus pais após a partida, enquanto ele, sentado na calçada, esperava seus colegas subirem no ônibus.

Outra goleada por 4×1, agora diante do Passo Fundo, colocou o Novo Hamburgo, em plena metade da primeira fase, pornográficos 7 pontos à frente do segundo colocado e estabeleceu mais uma marca histórica: as 6 vitórias seguidas significavam o melhor começo de campeonato de uma equipe do Interior na história do Gauchão. As marcas positivas eram alcançadas com tamanha facilidade que nem nos dávamos conta que já tínhamos alcançado o primeiro objetivo: a permanência na Série A.

Até as derrotas para Cruzeiro e Ypiranga, ambas fora de casa, pareciam ter vindo na hora certa e faziam parte de um script perfeito de uma história humana. O time queimava a gordura quando possível, curava jogadores necessários, e dava aquele equilíbrio estatístico necessário aos números.

Jardel e João Paulo impedem a progressão de Gata Fernández: a marcação anilada foi fundamental na campanha (Foto: UOL)

Jardel e João Paulo impedem a progressão de Gata Fernández: a marcação anilada foi fundamental na campanha (Foto: UOL)

Ao passo que uma vitória histórica diante do Grêmio escapou das mãos no apagar das luzes, a banca recebeu na mesma moeda ao arrancar um importante ponto diante do Brasil de Pelotas, no Bento Freitas. Dessa forma o Anilado dava-se ao luxo de poupar meio time para o embate da última rodada, entre lesionados, pendurados, enfermos e veteranos de guerra.

Com todos os olhos voltados para os duelos que definiam permanência, descenso ou classificação ao mata-mata, a partida entre Novo Hamburgo e Veranópolis mais parecia um encontro protocolar em que nenhum dos dois fazia questão de estar presente e sequer era notado pelos demais – quase um jantar de condomínio. Mas esse campeonato não nos parava de surpreender e o gol tardio de Jéfferson Assis significou mais um feito que não esperávamos testemunhar em vida: o Noia quebrava um jejum de 12 anos e voltava a vencer o Veranópolis. Não era mais possível voltar atrás – todo poder aos sovietes!

O duelo das Quartas de Final colocou o Anilado diante do Zequinha, seu algoz durante todo o ano passado. Em dois jogos em que a bola foi um mero detalhe e o pau comeu solto, o Novo Hamburgo obteve duas vitórias pelo placar mínimo em gramados em que a vaca pasta e o quero-quero pousa, e se habilitou para as semifinais da contenda, o que não corrida desde 1986 – tempos de Sarney, Plano Cruzado e Zico amarelando diante de Bats.

Quis o destino que o Anilado enfrentasse o Grêmio, na Arena, em pleno Domingo de Páscoa. E quando muitos queriam crucificar o time do Vale dos Sinos já na partida de ida, Juninho emendou uma bomba do meio da Faixa de Gaza e deu a César o que era de César – a igualdade no placar e a decisão da vaga em casa, com direito a jogar pelo placar em branco.

Noia sobrevive na Arena e leva a decisão para sua vaga

Noia sobrevive na Arena e leva a decisão para sua vaga

Mas a vida também tem suas provações, e assim como pude testemunhar o Noia voltando à vida, sete dias depois estava eu vagando em meu deserto particular em Montevideo na busca por um sinal de wifi para acompanhar a contenda pelas ondas cibernéticas da rádio. Enquanto consegui a duras penas escutar o Noia arrefecer o ímpeto gremista durante o primeiro tempo, no início do segundo tempo fui obrigado a ir para a área de embarque da rodoviária e ali não mais havia qualquer contato com a civilização.

Já de cinto atado e ajeitado na poltrona, mas com o pensamento lá pra cima, um lapso de internet se fez presente e logo contatei sintonizei o jogo. Mal coloquei os fones de ouvido e Preto cobrou o escanteio com a cátedra conhecida e Júlio Santos parou no tempo-espaço para empatar o placar que eu sequer sabia que havia sido aberto até três minutos atrás.

Porém, assim que a bola encostou no barbante, a internet morreu. Para todo o sempre. E não teve Cristo que fizesse surgir uma gota de éter nos cosmos para me avisar como havia acabado aquela partida: sim, das 20h30 de domingo até às 5h30 da segunda-feira eu cortei o Uruguay de cabo a rabo e atravessei todo o Taim sem saber como havia terminado a partida mais importante que eu assistia do Noia em toda minha curta vida.

A guerra havia acabado há 30 anos, mas tal qual um combatente japonês emaranhado na selva filipina em plena década de 1970, só eu não sabia há hecatombe que se sucedera e o acordo de paz fora assinado. Tomado por sono, cansaço e fora das minhas faculdades mentais, me arrastei rapidamente até a primeira tomada da Rodoviária de Pelotas, dei carga ao celular, acessei à internet e desencarnei: o Novo Hamburgo batera o Grêmio nos pênaltis e voltava a uma final após 65 anos.

E tinha que ser contra o Inter. Para vingar 1947.

A última vez que estive com meu finado tio Liro fora no inverno de 2002, em Chapecó, e ele, o primeiro anilado que conheci em vida, já acometido por um câncer de pulmão que o levaria seis meses depois, me contou o que testemunhara in loco há 55 anos: ‘o jogo estava em empatado em 2×2 e o juiz deu pênalti pra eles. A torcida invadiu o campo e não deixou eles baterem o pênalti. Voltaram uma semana depois, se fardaram e entraram em campo só pra baterem o tal pênalti. Converteram e ganharam. Foi a coisa mais ridícula que vi em toda minha vida’.

O Novo Hamburgo venceria por 2×1 nos Eucaliptos, mas na prorrogação Carlitos daria mais um título ao Rolo Compressor. Meu tio faleceu sem ver o Noia novamente em uma final – e sem ver a Chapecoense, onde trabalhou por duas décadas, alcançar o status continental que tem. Era impossível não lembrar dele e de tantos outros a cada segundo vivido entre a última semana de Abril e a primeira semana de Maio. A história continuava a ser escrita e caberia a nós contar mais um capítulo.

Jardel puxa mais um contra-ataque no Beira-Rio: a decisão era real e o coração precisava ser forte (Foto: Ricardo Giusti/Correioo do Povo)

Jardel puxa mais um contra-ataque no Beira-Rio: a decisão era real e o coração precisava ser forte (Foto: Ricardo Giusti/Correioo do Povo)

Então a bola rola no Beira-Rio e do João Paulo, que marcava há 9 jogos, volta a marcar e nos joga aquele tijolo quente no peito: vai acontecer! Claro que não dá forma mais fácil, o Inter causaria um caos na defesa anilada no segundo tempo e sairíamos do jogo contentes com o empate em 2×2, ainda que sem qualquer vantagem para a finalíssima – apenas, talvez, o fato do adversário carecer de goleiros em condições físicas.

Os ‘intéresses’ voltaram a falar alto e o time de melhor campanha do Gauchão foi obrigado a sair de sua casa e rumar a Caxias do Sul para jogar em uma casa emprestada a chance de conquistar seu primeiro título. Justamente a casa do último campeão gaúcho parido no interior – e à época comandado pelo hoje treinador da Seleção Brasileira.

Fiz-me presente nas arquibancadas do Estádio Centenário pela primeira vez da vida e apenas as quatro taças de vinho ingeridas previamente me possibilitaram manter a dignidade de um pseudo-observador atento a tudo o que acontecia em campo.

O Noia começou a contenda como sempre começava e não demorou a abrir o marcador, quando Ernando cabeceou corretamente contra o próprio patrimônio – o Anilado anotara gols em 15 das 16 partidas até então e não seria justamente agora que não o faria. O primeiro tempo transcorreu com estranha rapidez, nenhum perigo à meta anilada e cada vez mais nos aproximávamos do ápice da história.

Como todo e bom qualquer roteiro minimamente dramático, o Inter voltou modificado para a etapa derradeira, logo empatou a peleia e o caos total se instaurou: uma pressão sufocante, o Noia acuado e nenhuma perspectiva de melhora. Parecia que na reta de chegada a história voltaria ao seu curso natural e apenas seríamos uma nova geração de testemunhas de um vice-campeonato.

Só que a bola não entrou. O cansaço se abateu sobre todos – dentro e fora do campo. E não foram poucos os anilados que assinaram sem olhar um contrato mental pelos pênaltis após os 40 minutos do 2º tempo. A hipérbole sempre soa bonita nas linhas tracejadas no caderno, mas quando nos coloca diante do perigo nos enclausuramos em estado fetal.

Matheus faz a maior defesa da história do Novo Hamburgo – eu vi tudo isso (Foto: Jeferson Guareze/AGIF)

Vieram as penalidades, e D’Alessandro, que nunca errava, errou. E mais Cuesta. E Nico López, com seu tiro negado por Matheus. E João Paulo, Júlio Santos e Pablo acertaram. E se acabou: após 106 angusiantes anos de história, o Novo Hamburgo, diante dos nossos incrédulos e humanos olhos, sagrava-se Campeão Gaúcho pela primeira vez.

E tinha que ser no Centenário. Porque eu tinha uma dívida pessoal com o que ocorrera lá há 11 anos. Ainda que o Novo Hamburgo tenha disputado finais de turno do Gauchão em 2010 e 2012, em meu universo particular, o time que mais reuniu futebol para ser campeão estadual foi o de 2006. Ainda que a campanha, vista hoje, não avalize isso, tinha o futebol mais vistoso e ofensivo que vi o Noia apresentar em campo, capaz de golear o Juventude por 4×0 e bater o Brasil de Pelotas em dois confrontos.

Numa tarde de sábado, na abertura do Quadrangular Semifinal, o Noia abrira 2×0 diante do Caxias e na Serra e eu vislumbrava aquele time brigando palmo a palmo com o Inter por uma vaga na final. Mas o time grená virou para 3×2, com o terceiro gol anotado nos acréscimos, e aquela derrota me ficou entalada na garganta até o último domingo. Finalmente ela foi digerida.

Após um século de dúvidas, dívidas e insônias o Novo Hamburgo entra em definitivo no rol dos grandes do Estado. Desde 7 de Maio de 2017 os anilados não mais terão pesadelos, terão sonhos. E a certeza que poderão transformá-los em realidade ao acordar.

O Novo Hamburgo é o Campeão Gaúcho de 2017. O Esporte Clube Novo Hamburgo é e será um eterno Campeão Gaúcho.

FICHA TÉCNICA
NovoHamburgo_45x45Matheus; Léo, Júlio Santos, Pablo e Assis (Léo Carioca); Amaral, Jardel, Preto, Juninho e Branquinho (Lucas Santos); João Paulo. Técnico: Beto Campos.

internacional_45x45Danilo Fernandes; William, Léo Ortiz, Victor Cuesta e Ernando (Carlos/Diego); Rodrigo Dourado, Edenílson (Valdívia), Uendel e D’Alessandro; Nico López e Brenner. Técnico: Antônio Carlos Zago

Gols: Ernando (contra) (NH), aos 21′ do 1º T, e Rodrigo Dourado (INT), aos 3′ do 2T
Pênaltis convertidos: João Paulo, Júlio Santos e Pablo (NH); William (INT)

Anilados do mundo, uni-vos!
Zezinho

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2 Respostas a Os dez dias que abalaram o Gauchão – ou o que John Reed não escreveu sobre a Revolução Russa

  1. William diz:

    Palmas! Incrível! Inesquecível! Parabéns Zezinho pelo texto. Para os anilados alegria infinita. Esta campanha, este gauchão será lembrado e contado por muitos anos. Viva o interior! Dá-lhe Nóia!!!!

  2. Denis Toca Raul diz:

    Resenha digna de um Campeão Gaúcho, e digna também de entrar pra história.
    Relatos que fazem cada anilado relembrar do passado, remoendo todas as “bolas na trave” vividas. Do passado recentíssimo, o receio de um possível rebaixamento no gauchão 2017. No presente, chegar às alturas de carona com o vôo de Matheus na defesa do pênalti batido por Nico Lopes.
    Família anilada, obrigado por tudo! Obrigado por colocarem o Novo Hamburgo na história!

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