Algo se perdeu no meio do caminho

torcida xavante

Eu não sei o que aconteceu com parte da torcida do Brasil. O povo está dividido e, mesmo com a internet à disposição e incontáveis grupos e fóruns, não há diálogo. O único raro momento de união nos últimos meses foi para pedir ingressos com preços mais acessíveis e novas modalidades de sócio. A situação parece piorar a cada novo mês.

Talvez o encarecimento do futebol seja um dos motivos, fora que atualmente os jogos são televisionados, tanto em casa quanto fora. Basta uma Azbox e PIMBA: é possível ver o Xavante em campo. O que é uma grande novidade, oras. Posso contar nos dedos as partidas que assisti pela televisão nos meus tempos de criança. Hoje, a gurizada tem Premiere, SporTV e às vezes até canal aberto, além das coberturas de grandes sites esportivos, aplicativos e outros PENDURICALHOS. É outra realidade.

O que é inegável é o enfraquecimento da massa rubro-negra, seja no GOGÓ ou na presença no estádio. Até não considero os públicos ruins em sua maioria, mas falta SANGUE, falta RAÇA, justamente o que sobrava há pouco tempo. Algo se perdeu no meio do caminho. Quando pequeno, ao lado de meu pai, lá no início dos anos 2000, vi o estádio lotar. Era gente beijando a imagem de Santo Expedito. Era gente chorando. Eram milhares de copos plásticos vazios na arquibancada. O calor humano era INFERNAL para os adversários.

O alambrado mais simples tremia e quase cedia ao ÍMPETO rubro-negro. Fumaça, foguetes, charanga com muitos componentes e sempre com músicas do momento e outras tantas da torcida. Uma festa popular, carnaval fora de época. Em 2004, vi a torcida do Brasil em sua melhor face. Fiz parte da galera que virou um clássico Bra-Pel na Boca do Lobo mesmo com dois homens a menos  –  e um deles era “apenas” Claudio Milar.

Atualmente, são três charangas tocando simultaneamente. Não há muito o que explicar.

É uma desilusão sem precedentes. Afinal, aquela torcida não se MIXAVA por qualquer coisinha, não. Dava orgulho. O mesmo orgulho que me fez vestir a camisa Xavante para ir ao colégio após mais uma tentativa fracassada de retorno à Série A do Gauchão. Fui alvo de piadas de colegas, em sua maioria torcedores dos clubes de Porto Alegre (ironicamente muitos deles atualmente são apenas Brasil). Eu sabia que seria alvo de CORNETA, mas vesti a camisa porque eu aprendi assim. Fui educado e batizado na cancha, na BAIXADA, após descer a rua Princesa Isabel.

Anos depois ao folhear revistas antigas, especialmente a Placar, li inúmeras matérias incríveis sobre a torcida, ou seja, sobre o meu pai, meu tio, eu, o tio da pipoca, enfim, todos nós. “O Brasil é feito pela torcida!”, estampava a manchete. “A mais apaixonada das torcidas”, dizia outra. A crônica trazia que “A torcida Xavante é, sem dúvida, um fenômeno social”, e por aí vai.

Hoje, no segundo ano consecutivo de Série B, e com muitas dificuldades (o que é natural), vejo muito mais críticas. Boa parte delas existe por existir. Procuram qualquer detalhe para apontar o dedo em riste. Vaiam o goleiro que marcou o nome na história do clube com defesas inacreditáveis em dois acessos nacionais. Vaiam o capitão que amargou 2012 e que nos ajudou a estar aqui, hoje. Não são simples pedidos para serem substituídos por uma eventual má fase, por exemplo, o que seria e é compreensível. Com montagens, xingamentos e outros atos injustos, ACHINCALHAM e desempenham o papel de um torcedor rival. É desrespeito puro e simples.

Algo se perdeu pelo caminho.

A mais de 700 quilômetros longe de Pelotas, acompanho tudo a distância, geralmente via internet. Sou sócio há 13 anos e continuo em dia, mesmo sem poder a ir aos jogos. Não posso mais colaborar com a minha voz nem com a minha presença física. Faz parte. Eu só gostaria que a torcida que eu conheci e que me fez ser mais um ainda estivesse por lá.

“Aaaaaah, eu sou Xavante!”,

Pedro Henrique Krüger | @pedrohckruger

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