É preciso falar!

Grande maioria dos atletas fica meses desempregado. (Foto: Nicolas Vieira/SCSP)

Grande maioria dos atletas fica meses desempregado. (Foto: Nicolas Vieira/SCSP)

No dia 25 de Junho de 2017 o SC São Paulo, assim como o Novo Hamburgo, encerraram suas participações na Série D do Campeonato Brasileiro. Além das duas equipes gaúchas, outras 34 agremiações, ás 20h deste inapelável domingo, deram fim ao seu calendário no ano de 2017. Os 175 dias do ano de 2017, até então, reservaram no caso do Leão do Parque de Rio Grande, um total de 17 jogos. Uma média de 1 (um) jogo a cada 10 dias. Mas a grande questão é o que está por vir: restam, ao ano de 2017, 189 dias. Todos esses dias, com um total de 0 jogos. Uma média de 0 (zero) a cada 10 dias. 

Feche o olho. Pense na sua vida, sua estabilidade financeira, seu trabalho, aquela viagem que você sonha em fazer. Agora, pense que o seu trabalho é jogar futebol, ser um atleta, trabalhar forte todos os dias sob qualquer tempo e quaisquer condições. Imagine-se sofrendo pressão por resultado o tempo inteiro, mas estar lá fazendo aquilo que – muitas vezes – é só o que você sabe fazer. Então, conheça uma dura realidade: você poderia ser um atleta (sim, um único atleta) que no Brasil ganha mais que R$ 500 mil reais; você poderia ser um dos 35 atletas no Brasil que ganham entre R$ 200 e R$ 500 mil; você poderia ser um dos 78 atletas no Brasil que ganham entre R$ 100 e R$ 200 mil; você poderia ser um dos 112 atletas no Brasil que ganham entre R$ 50 e R$ 100 mil; você poderia ser um dos 499 atletas no Brasil que ganham entre R$ 10 e R$ 50 mil; você poderia ser um dos 381 atletas no Brasil que ganham entre R$ 5 e R$ 10 mil; você poderia ser um dos 3.859 atletas no Brasil que ganham entre R$ 1 e R$ 5 mil ou você poderia ser um dos 23.238 atletas no Brasil que ganham até R$ 1.000 por mês.

Ou seja, você teria 82,40% de chance de ganhar ATÉ R$ 1.000 por mês.

Agora, pense que você é um desses 82,40%. Você possui uma esposa e um filho pequeno. As dificuldades para manter-se com um valor igual ou menor do que R$ 1.000 são absurdas. Então, o clube que você trabalha, que disputa a Série D do Campeonato Brasileiro é eliminado na 1ª fase da competição.

Você está desempregado… e restam 189 dias no ano.

O país que um dia já foi o “país do futebol” cuida assim dos seus atletas. Muito além das preferências clubistas e de tudo que envolve a essência do futebol, a paixão, existe o lado humano. E é disso que precisamos falar.

Nos últimos anos o futebol mundial tornou-se um antro de corrupção. Como em uma tentativa quase PORNOGRÁFICA de mostrar aos políticos que os cartolas (não que sejam menos políticos) também sabem roubar, o esporte mais praticado no mundo entrou em uma profunda decadência. Enquanto a evolução constante e visível acontece nos outros países sul-americanos, na Europa e até mesmo na Ásia, aqui a estagnação caminha lado a lado com o descaso e o propósito maior: o LUCRO.

Algo precisa explicar a CBF (uma das instituições que mais arrecada no país), não ter como meta o crescimento competitivo das equipes de médio e pequeno porte. Hoje, o que se vê são apenas formas de agrado e retribuição aos clubes “grandes” e que geram renda. Os outros.. ah, são apenas os outros. São os que sonham em ser grandes ou em voltar a ser grandes um dia. O que, devido ao fato de estarmos no Brasil, é quase impossível com dirigentes e entidades sempre puxando para baixo.

Não penso que a CBF deva deixar de lado os grandes, afinal isso seria um crime contra o futebol devido à história e as conquistas justas de todos que ostentam esse posto. Penso sim, que campeonatos propulsores – como o caso da Série D – devam ter um calendário mais longo, com um formato que favoreça os clubes que realmente necessitam de uma grande quantidades de jogos (renda, tempo de trabalho) para sobreviver.

O foco, no entanto, como disse anteriormente, deve ser mais humano. E esse seria o grande diferencial. Digo isso pois eu, quem vos escreve, trabalho como gestor de futebol em no SC São Paulo (aquele que foi eliminado ás 20h do último domingo) e afirmo que o pensamento não deve ser voltado aos clubes (pequenos) já que não será por força de camisa que algo irá mudar. O pensamento deve ser voltado aos profissionais, homens e mulheres que sobrevivem do futebol e necessitam do mínimo de segurança para poder dormir tranquilamente.

Vejo de perto os motivos que levam a bola a bater na trave, quicar sobre a linha e não entrar, o pênalti ser perdido e o gol que “até eu faria” ir parar duas quadras depois do estádio. E esse motivos, quase sempre invisíveis, estão fora das quatro linhas. Eles vem de uma CBF que não se importa com nada que não lhe renda cifras, refletem no bolso dos clubes que não conseguem proporcionar boas estruturas de trabalho, boa alimentação, moradia, salário em dia e o principal: TRANQUILIDADE.

É fácil criticar olhando de fora, no entanto só quem vive de perto pode imaginar o quanto as preocupações externas, a insegurança do futuro e as más condições podem afetar o ser humano de camiseta, calção, meião e chuteira que, como qualquer batalhador brasileiro, faz o seu trabalho para colocar o pão na mesa de casa.

Eis o desabafo de quem vê de perto o descaso e acredita que não será pelos clubes, e sim pelas pessoas que os fazem.

Guilherme Rajão

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2 Respostas a É preciso falar!

  1. Adriano mendes diz:

    Em nenhum momento citastes a FGF. Acho que o Novelleto tem grande parcela de culpa nesta situação. Primeiro, pq poderia pressionar a CBF para melhorar as condições dos nossos clubes; segundo, buscar com os clubes soluções de manutenção do calendário esportivo anual. Mas, por enquanto, ele tá preocupado em se perpetuar no poder, ficar na Federação e manter os figurações corruptos na CBF. Porque será?

  2. Rodrigo diz:

    A FGF tbm parece não se preocupar com seus fliados

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