“A honestidade é meu legado no futebol”

Caxias

Após 14 anos como jogador profissional, Dinei aposenta e retorna às suas raízes

Valdinei Eberton Borges Correia, o Dinei, natural de Barros Cassal, hoje com 33 anos, após passar por mais de vinte times de futebol profissionais, sendo muitos deles no nosso saudoso interior gaúcho e marcar 160 gols na carreira, decidiu pela aposentadoria e o retorno para sua cidade natal, no interior do Rio Grande do Sul. Pai de dois filhos, sendo um menino de seis anos chamado Eberton Gabriel e uma menina de dois anos chamada Ana Júlia, ambos momentaneamente longe dele, por estarem morando com a mãe em São Paulo, Dinei diz que em seus 14 anos de jogador profissional, após passagens por diversos clubes nacionais e três internacionais, trilhou os caminhos que traçou e se sente satisfeito com a carreira que decidiu encerrar neste ano.

A decisão de ser jogador e o início de tudo

Dinei relatou que com 11 anos de idade, em conversa com sua mãe Maria Roseli Borges Correia, a Eva como é conhecida na cidade, disse que gostaria de ser jogador de futebol, ao que ela teria respondido “meu filho não sonha muito alto, porque eu tenho medo de que você se decepcione”. “Mas eu segurei firme, a vontade dentro de mim era maior e dei continuidade no sonho”, comentou o ex-atleta que diz ter tido como seus primeiros incentivadores, seus irmãos mais velhos, Zinho e Antônio. “Eles arcavam com as despesas de viagem que eu tinha, foram eles que me apoiaram diretamente no início”, destacou.

Após a decisão e o apoio dos irmãos, iniciou a caminhada. “Foi duro, até eu conseguir teve uma caminhada bem difícil”, comentou ao relatar que seu primeiro teste foi com 14 anos, quando foi um dos 600 meninos a realizar um peneirão para a base do Grêmio, em Santa Cruz do Sul. Na oportunidade, foi um dos seis meninos selecionados para a segunda fase em Porto Alegre. Da segunda fase, apenas um dos seis foi selecionado, não sendo ele. Mesmo assim, treinou um ano na base do tricolor, sendo dispensado após esse período. “Ali eu me decepcionei, tinha 15 para 16 anos e entrei em uma fase desacreditada do meu sonho”. Então retornou para Barros Cassal, onde ficou até seus 19 anos, jogando apenas futebol amador. Foi aí que um velho amigo, virou um anjo em sua vida. “Ele estudava em Passo Fundo e assistia aos jogos do Gaúcho, aí comentou comigo que se eu fizesse um teste lá, passaria certo”, após alguns contatos Dinei foi até o time, e tudo que o amigo havia projetado, aconteceu. “Mesmo que estivesse muito longe da minha cabeça que aquilo aconteceria tão rápido, foi assim que tudo aconteceu”. Itamar Santos, o Maninho, esse cara foi o principal responsável direto pelo início da minha carreira. Em sua primeira semana no município vizinho, morou com Maninho, após assinando contrato definitivo e indo morar no alojamento do clube. Assim, com 19 anos o sonho começava se tornar realidade e Dinei deixava Barros Cassal definitivamente em busca de voos mais altos.

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A carreira profissional

Pelo Gaúcho, jogou Divisão de Acesso, subindo com a equipe para a Série A estadual. Após jogou na Bélgica no Standart de Liege, ao retornar para o Brasil, jogou no Passo Fundo e Lajeadense. Saindo do Rio Grande do Sul foi para o estado de Goiás, onde jogou Itauçuense, Vila Nova onde subiu para a Série B nacional e Anápolis. Após isso jogou na Áustria no Wac/ ST andra, ao retornar novamente para o Brasil foi para o Gama de Brasília. Retornou para o estado de Goiás no Santa Helena, na sequência uma passagem de três anos na Portuguesa em São Paulo, uma temporada no Ceará, voltou para o estado de Goiás onde jogou na Aparecidense, Anapolina e Itumbiara. Madureira no Rio de Janeiro e Itabaiana de Sergipe. Então foi pra Tailândia jogar no SWAT CAT. Retornou para o Aparecidense por dois anos, CSA de Alagoas, Anapolina, Aparecidense novamente e então voltou pro Rio Grande do Sul no ano de 2016, onde defendeu o Caxias e neste ano de 2017, atuou pelo Brasil de Farroupilha.

Experiência internacional, prós e contras

SWAT CAT

“Quando fui para a Bélgica, passava pouco dos 20 anos e fui sozinho. Foi difícil acostumar em função do frio, fazia em média -20ºC, não se via cor, era tudo branco, as casas com sistemas de aquecimento e os campos eles derretiam a neve pra gente jogar. Mas foi bom por eu conhecer coisas diferentes, dificilmente a gente vê coisas do gênero no decorrer das nossas vidas. Mas em todos os lugares que passei fora do Brasil, tive dificuldades no idioma, em me comunicar.

Na Bélgica falavam francês, uma comida horrível e tu é praticamente surdo e mudo. Não entende o que te falam e eles não entendem o que tu fala. Na Áustria falam em alemão e eu também não entendia nada, mas o clima era bom. Aí tinha um brasileiro junto, que me ajudou demais. Na Tailândia eu também não entendia nada do tailandês, mas aí chegou um brasileiro que era fluente no inglês, isso eles entendiam lá e eu me encostei nele. A comida também era meio estranha e o clima muito quente, média de 40ºC. Você não conseguir se comunicar é horrível. Tu não poder pedir um prato no restaurante a não ser por gestos.

Sobre adaptações, eu costumo dizer que a gente se adapta a qualquer coisa, basta a gente querer. O frio judia bastante, eu não gosto de frio, sou friorento e foi difícil me adaptar. Na Tailândia era quente e eu já tava acostumado, porque joguei muito no nordeste e centroeste, onde é quente o ano todo.

Hoje eu sei que aprender o básico do inglês é importante, aquele mesmo da escola. Isso me fez falta”, brincou.

“Sempre fui honesto com tudo que fiz, e esse é o meu legado no futebol”

Dinei destacou as diferenças de cultura e amizades feitas no mundo da bola, como coisas mais marcantes, e que fizeram tudo valer a pena. “Além das amizades, poder saber que eu encerro de cabeça erguida e poder saber que qualquer lugar que você ouvir falar de mim, não vai ter nenhum tipo de comentário negativo da minha pessoa, sempre fui honesto com tudo que fiz, e esse é o meu legado que ficou no futebol. Muita gente ainda vai conversar e falar sobre mim e saber que houve um cara que nunca foi traíra, que não teve nenhum tipo de problema no tempo que jogou futebol”, disse orgulhoso.

Da mesma maneira, o que destacou como marco negativo, foram as pessoas de má fé no mundo do futebol. “Por ser uma área que envolve muito dinheiro, as pessoas acabam se corrompendo. Passei por vários clubes onde haviam pessoas querendo tirar proveito da situação e eu sempre fechava com os caras do bem, e de certa forma tentávamos bater de frente, mas em quase todas as vezes perdíamos. Aí notamos que impera a corrupção, reflexo do Brasil, onde a turma do mal acaba sufocando a turma do bem. A gente precisa tentar mudar isso, ou morrer tentando porque a diferença de cultura é notória.

Fiz um amigo japonês logo que cheguei à Tailândia, ele falava espanhol e me ajudou muito e com ele eu notei muito a diferença de cultura de um país para o outro. Chegou outro brasileiro lá e tinha camisas do clube no vestiário e disse ‘tá sobrando, vou levar embora’, nisso o japonês olhou pra mim e olhou pra ele perguntou se ele ia levar, então falei pro outro brasileiro deixar as coisas ali. A disciplina dos japoneses era exemplar, ele contava sobre a forma de governo deles e quando eu falava a nossa ele se apavorava, dizia ‘pô, mas eu tenho uma imagem tão bonita do Brasil, tenho vontade de conhecer e tal’ e a gente fica com vergonha de saber que eles vêm de lá pra cá e se decepcionam.

Quando a gente sai, é pra representar nosso país e tudo que a gente faz vai refletir no seu país. ‘Ah, o brasileiro chegou aí e levou as coisas que não era dele’, a gente é a cara do nosso país”, relatou.

Maiores alegrias do período

Caxias (2)

Após circular por diversos clubes e cidades, foi prestes a encerrar sua carreira, no ano de 2016, que Dinei diz ter vivido suas maiores alegrias enquanto ser humano na carreira.

“Quando cheguei no Caxias vi o que era respeito, foi quando machuquei o joelho e fiquei dois meses parado. Eu via a vontade que eles tinham que eu jogasse. Foi um time onde a gente liderou o campeonato de ponta a ponta e subiu o time pra Série A de novo. E eles mostraram o tanto que eu era importante no grupo e entra o que eu falei antes, no futebol é tão difícil as pessoas serem honestas e corretas, que quando tu encontra, acaba cativando o grupo inteiro. Ali foi especial, em fim de carreira eu pude voltar e ajudar um clube. Tanto que quando eu sai, a diretoria agradeceu e isso foi uma das maiores alegrias que eu tive. Uma sensação de dever cumprido e por mim encerraria ali a carreira. Foi tudo perfeito, até a questão da minha lesão, porque o menino que entrou no meu lugar precisava e foi bem.

Trata-se de Jajá, que estava com a esposa morando de favor e quando ele jogou e foi bem, com as conquistas no Caxias conseguiu comprar sua casinha e se estabilizar. E aquele momento me fez refletir sobre tudo. Porque ele, a esposa e o filho vieram morar comigo em Caxias, eu pude acolher a família e penso que não fiz mais que meu dever de ser humano, porque eles estavam numa situação difícil. Eu tenho certeza que se ele não jogasse no meu lugar, ficaria bastante difícil, em função de não ter onde morar, o clube não dar alojamento e ter uma família dependendo dele”.

Em conversa via rede social com a esposa de Jajá, Lua Ribeiro, ela ressaltou a importância de Dinei para a família e destacou a amizade que segue até hoje, mesmo que mais à distância. “Logo que Jajá foi para o Caxias, eu ainda não morava na cidade, porque trabalhava fora, aí quando meu filho e eu íamos para a cidade não tínhamos onde ficar e ficávamos na casa dele. O Dinei sempre foi muito solícito, muito querido e a amizade se formou logo de cara. Ele nos ajudou muito em uma fase difícil, foi essencial na passagem por Caxias, talvez muitos não percebessem ou pensassem que seríamos apenas conhecidos, pelo fato de Jajá e ele jogarem na mesma posição e acabarem disputando a mesma, mas foi o contrário. Ele se mostrou um amigo de muito bom coração, que seremos gratos e levaremos pela vida toda”, comentou Lua.

Maiores conquistas na carreira

“Minhas maiores conquistas foram em Goiás, por isso tenho esse amor por lá”. Disse o atacante, que foi quatro vezes consecutivas artilheiro em Goiás. “Acho que foi Deus que me levou pra lá, eu nunca tive tanto sucesso em outros lugares. Eu estava há três anos aqui e em seis meses lá eu já tinha tudo que eu não tinha aqui, foi lá que consegui criar uma base pra minha vida. Sai daqui e não tinha uma bicicleta, voltei e tinha casa e carro”, destacou.

A decisão pela aposentadoria

Brasil de Farroupilha, onde se aposentou

Alguns fatores contribuíram para a decisão, entre eles as diversas mudanças e as recorrentes lesões. “Eu queria um lugar pra mim e também eu sempre via os mais velhos jogando e pensava ‘eu não vou chegar nesse ponto de ter que treinar mais que os outros’, porque de certa forma, tu não consegue acompanhar mais depois de uma certa idade, ou tu segue uma linha de profissionalismo intenso ou tu não consegue acompanhar. Eu já estava há uns três anos nesse sofrimento de treinar mais que os outros, o corpo depois dos 30 não responde mais como antes e eu decidi que estava chegando a hora. Forçava um pouco e machucava, é muita lesão. Aí demora pra voltar, demora pra condicionar, demora pra recuperar depois dos jogos, o tempo todo em tratamento e nunca tive muita paciência pra isso.

Eu falo que eu fui jogador de futebol, não atleta profissional. Nunca me limitei de comer e beber, então acho que isso também refletiu um pouco no corpo.

Mas achei que era a hora agora, quero cuidar das minhas coisas também. Seguir um outro norte. Acho que quando tu não tem muito mais a dar, tem que buscar outra área, já não havia mais tanta inspiração pra treinar e jogar, aí tu acaba sendo amargo e acaba sobrando pras outras pessoas”, disse.

Quem foi o Dinei no mundo na bola?

“Tudo que almejei e tracei pra minha carreira, eu sempre consegui chegar, mas eu chegava de uma forma que conquistava pela metade. Ficou muita coisa pra trás no futebol e na carreira. Sou muito grato por tudo que aconteceu pra mim, mas eu queria mais. Coisas grandes. Sou grato pelo que consegui, sei que não conseguiria fora do futebol. Acho que 50% do que tinha almejado eu conquistei. Tendo como sonho não alcançado, jogar no Grêmio profissionalmente.”

 

Eterna saudosista dos nomes do nosso interior,

Sabrina Heming

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